#7 - Unterraums
Um técnico de manutenção, um robô com defeito de pintura e a pergunta que sobra quando o afeto deixa de ser unilateral.
Unterraums
I. O Afogamento e a Cela
Trappist-1 E
O visor partiu-se no impacto, e a água entrou antes que ele tivesse tempo de entender que estava na água.
Estava amarrado à Vespa pelo cabo que o Fleck havia passado em volta do casco antes do salto, e a Vespa afundava. Krieg sentiu o frio primeiro no rosto, depois nas mãos, depois em toda parte onde o traje havia se rompido. A luz acima era alaranjada e tremia como se estivesse vendo através do fundo de um copo. Abaixo não havia luz nenhuma.
O Fleck começou a cortar o cabo. Krieg viu as garras pequenas trabalhando com a mesma eficiência com que haviam trabalhado no casco da UR-48, no painel da Vespa, em tudo que haviam feito juntos. O cabo cedeu. O Fleck continuou afundando, preso ao corpo da nave inimiga, e foi ficando menor, virou uma sombra, depois não estava mais.
Krieg subiu. Não por vontade própria — o traje o empurrava para cima, ou talvez fosse a densidade do oceano, ou ambos. Pensou, com a clareza breve que às vezes antecede o desmaio, que a água era a mesma. Num planeta a vinte anos-luz de casa, sob um sol que não era o seu, a água ainda era água, obediente às mesmas leis que afogavam um homem em qualquer canto do universo. Tentou pedir ajuda e percebeu, pelo modo como o som morreu na garganta, que havia engolido uma quantidade de água que o corpo ainda não havia processado como morte.
Chegou à superfície. O céu de Trappist-1 E era alaranjado porque a estrela era uma anã vermelha, e as nuvens eram espessas e baixas, e entre elas apareceu por um instante o disco vermelho. Tentou respirar. O ar do planeta não era ar — era uma coisa que queimava por dentro como se houvesse brasas nos pulmões.
Pensou: meu pai nunca viu isto. Pensou: meu pai teria sabido o nome das estrelas daqui.
Não havia estrelas. Era dia em Trappist e a atmosfera estava cheia de nuvens. Mas pensou nas estrelas mesmo assim, porque o pai havia ensinado a pensar nelas sempre, e porque estava morrendo e os pensamentos já não obedeciam à situação quando a situação era esta.
Alguma coisa o segurou por baixo dos braços. Sentiu o puxão e perdeu o resto do ar que tinha. A voz do pai estava ali, muito perto, falando sobre a constelação de Escorpião, que era o signo da mãe, e sobre como as pessoas antigas acreditavam que o céu no momento do nascimento decidia tudo. Ele queria dizer que estava feliz de ouvir a voz. Não conseguiu dizer nada.
Alguém disse um nome. Talvez o dele. Fechou os olhos.
Dia 1
Quando abriu os olhos, ainda grogue do sono que o havia mantido ali por um tempo que não podia calcular, demorou a perceber o teto branco acima dele. Conseguiu focar devagar, sem se mexer, e viu que as paredes eram iguais ao teto. Um cubo branco perfeito, com paredes que emitiam uma luz fria e uniforme, sem fonte visível.
Estava nu. Passou a mão pelo braço e não havia pelos. Passou a mão pela cabeça e não havia cabelos, nem sobrancelhas, nem nada. Haviam retirado tudo.
Tentou sentar-se e conseguiu. Tentou levantar-se, apoiando-se na parede, mas os olhos escureceram quase imediatamente e ele caiu. O baque foi surdo, porque o chão também era daquela substância branca que parecia absorver o som, e ele ficou imóvel por um tempo que não pôde medir, inconsciente outra vez.
Quando acordou, pensou com alguma clareza pela primeira vez: estou vivo. A conclusão era estranha, porque a última imagem que tinha era a de afundar em Trappist com os pulmões em chamas. Não se sentia morto, mas também não sabia como era sentir-se morto, e a distinção parecia agora menos importante do que deveria ser.
Engatinhou pelos cantos procurando uma emenda, uma dobradiça, uma fresta por onde o ar pudesse entrar ou de onde a luz pudesse estar vindo. Não havia nada. As paredes encontravam o chão numa linha tão precisa que parecia desenhada, não construída. Não havia portas, não havia janelas, não havia câmeras visíveis, o que não significava que não houvesse câmeras.
Tentou gritar. A garganta falhou. O som que saiu foi menos que um sussurro e mais que nada — uma vibração rouca que o próprio corpo pareceu recusar. Percebeu, ao tentar de novo, que não sentia sede. Nem fome. Nem vontade de urinar. Nenhuma das coisas que um corpo exige depois de qualquer intervalo de tempo razoável.
Isso o assustou mais do que a ausência de portas.
Deitou-se de costas no centro do cubo. A luz era igual em todas as direções, e não havia sombra por onde fosse possível dizer que existia um eixo. Fechou os olhos e deixou que o sono o levasse outra vez, porque não havia mais nada para fazer, e porque a fadiga era a única sensação física que o corpo ainda reconhecia como sua.
Dia 2
Quando acordou, havia uma bandeja no chão, a uns dois metros dele. Metal escovado, sem marca. Sobre ela: pão, manteiga, ovos mexidos, café numa caneca branca, suco de laranja num copo de vidro.
Ficou olhando por algum tempo antes de se aproximar. Não reconhecia nenhuma das coisas por experiência direta — tinha visto em filmes antigos, nas séries sobre o século XX que passavam nos canais da colônia, e sabia que ricos de certo tipo pagavam sintetizadores caros que imitavam essas combinações. A ração que comia na nave era pasta, gel, ocasionalmente algo que fingia ser frango. Aquilo não era ração.
Pegou o pão primeiro. Estava quente. Rasgou um pedaço e colocou na boca, e ficou parado. O gosto não era uniforme como o das pastas que conhecia. Havia uma côdea e uma parte macia por dentro, e cada uma tinha um sabor diferente, e os dois sabores tinham entre si uma relação que ele não havia antecipado. Mastigou devagar. Passou manteiga no pedaço seguinte e o gosto foi outra vez outro.
Os ovos estavam quentes. Tinham uma textura que lembrava gel mas não era gel. O café era amargo de uma maneira que ele só havia lido em livros antigos, e a amargura vinha acompanhada de um perfume que ficou na garganta depois que o gole passou. O suco de laranja tinha uma acidez que fazia os dentes doerem de leve, e ele ficou impressionado com a ideia de que uma fruta tivesse feito aquilo sem ajuda de nenhuma máquina.
Comeu tudo. Quando terminou, sentou-se no canto com as costas contra a parede e esperou a fome chegar. A fome não chegou. E também não chegou a saciedade — ou melhor, o corpo já estava saciado desde antes da refeição, e o que ele havia comido não havia mudado nada dentro dele, exceto o registro dos sabores.
Tentou falar outra vez. Conseguiu um som rouco, quase uma tosse. A voz estava ali, em algum lugar, mas ele precisava dela como se fosse um músculo que havia ficado muito tempo imobilizado.
Começou a tentar se lembrar. A nave. Cheng. O reparo. A Vespa que veio do hiperespaço como um clarão angular. O cabo enrolado. A outra Vespa que encontraram depois, sozinha. O Fleck afundando. Os fragmentos chegavam em ordem errada e ele não conseguia organizá-los, e desejou, com uma intensidade pequena mas clara, ter alguma coisa onde pudesse escrever.
Adormeceu contra a parede sem conseguir impedir o sono.
Dia 3
Havia um bloco de notas e um lápis ao lado da bandeja.
Ele olhou para os dois objetos por bastante tempo antes de entender o que estava vendo. O bloco era pequeno, com uma capa cinza sem nada escrito. O lápis era amarelo, comum, com a ponta afiada.
Não havia pedido. Tinha pensado em pedir, tinha desejado ter algo para escrever, mas não havia falado em voz alta — não havia conseguido falar em voz alta, a garganta ainda recusava os sons. Então alguma outra coisa havia sido lida, de algum outro lugar.
Pegou o lápis. O gesto era estranho. Quase ninguém usava lápis nas colônias, e ele só tinha escrito à mão uma ou duas vezes na vida, em aulas de história em que o professor insistia que a caligrafia era uma habilidade civilizatória que não devia se perder. Tentou desenhar a letra A. Saiu torta. Tentou de novo.
Depois de meia página de tentativas, a mão começou a obedecer. Escreveu o próprio nome. Krieg. Olhou para a palavra e não a reconheceu como sua — parecia pertencer a outra pessoa, alguém mais jovem, alguém que ainda estava a bordo da UR-48 com oitenta e quatro colegas que agora provavelmente estavam mortos.
Começou a pensar no que escrever.
A primeira decisão foi fria e rápida: se estão me lendo, vou escrever o que quero que leiam. Não sabia ainda quem eram, mas sabia que a existência do lápis provava a existência deles. O caderno não era um refúgio. Era um canal.
Abriu na primeira página em branco e começou.
Dia 4
No dia seguinte havia pizza no almoço.
Ele riu pela primeira vez desde que havia acordado naquele lugar — um riso curto, sem voz, uma vibração no peito. Pizza. Tinham lido em algum ponto do cérebro dele que pizza era uma comida de filme antigo, e haviam trazido pizza. A absurdidade da situação finalmente se permitiu aparecer.
Comeu dois pedaços e deixou o resto. Pensou em recusar a comida, em fazer greve de fome, mas não havia para quem fazer greve, e o corpo não parecia precisar da comida de qualquer modo. A recusa seria uma performance sem plateia.
Voltou ao caderno. Escreveu sobre a Viúva Negra.
II. O Caderno
UR-48, Viúva Negra
Meu trabalho era fazer reparos na nave tática que cruzava o hiperespaço escondida à procura de alvos. A nave era um Unterraum, e a UR-48 era chamada, entre a tripulação, de Viúva Negra.
O apelido tinha duas explicações concorrentes. A oficial dizia que era por causa das cinquenta e uma naves inimigas destruídas, o que teria feito dela a mais letal da frota em seu período ativo. A outra, que ninguém repetia em voz alta mas todo mundo sabia, era que a UR-48 havia perdido a tripulação original numa despressurização causada por um defeito no início da guerra. A nave matava quem estava dentro dela com a mesma facilidade com que matava quem estava do lado de fora.
Eu estava há dois meses e alguns dias a bordo. Éramos oitenta e cinco pessoas, contando comigo, encarregadas de manter a máquina em funcionamento e fazer com que ela fizesse o trabalho dela, que era atacar comboios e naves bélicas saindo do hiperespaço sem aviso. Era um trabalho que havia funcionado muito bem no começo da guerra, e que já não funcionava mais, porque o inimigo havia aprendido a se defender de uma maneira que tornava a frota de Unterraums praticamente obsoleta. Mas ainda éramos mandados.
O colega com quem eu tinha mais afinidade era o operador de comunicações, Cheng. A mesa de operação dele ficava ao lado da minha bancada de trabalho. Em geral eu ficava consertando alguma peça da nave e ele ficava de fones, ouvindo o espaço. Cheng tinha um jeito silencioso e atento, quase monástico, que se encaixava bem com o trabalho. Ouvir o vazio o dia inteiro em busca de pequenos sinais exige um tipo de paciência que pouca gente tem.
Naquele dia eu estava trabalhando em algumas modificações no Fleck, meu robô auxiliar. O Fleck é um velho companheiro, mas eu falo dele depois.
Percebi que o Cheng ficou tenso e levou as duas mãos aos fones, como se quisesse ouvir melhor ou como se não acreditasse no que estava ouvindo. Cheguei perto e toquei no ombro dele para que percebesse minha presença.
“Conheço essa sua cara, Cheng. Aconteceu de novo?”
“Infelizmente. Estou ouvindo o sinal subespacial de uma das Vespas.”
O sinal que gelava a espinha dele era o sinal que as Vespas emitiam assim que destruíam uma das nossas naves, para indicar a posição. Faziam isso por dois motivos. O primeiro era chamar os coletores, que vinham reciclar o que podiam dos destroços. O segundo era tentar atrair mais de nós para aquele ponto, o que a gente já havia aprendido a não fazer, embora no começo da guerra tivéssemos caído exatamente nessa armadilha algumas vezes.
Cheng mudou de frequência e identificou a nave.
“Foi a U-96. Diabo Vermelho. Eu conhecia algumas pessoas lá. Saímos juntos da academia, e foi só na última hora que me trocaram para cá. Não sei se isso me deixa triste por eles ou aliviado por mim.”
Eu não disse nada. Pensei que, no ritmo em que as coisas iam, não ia demorar muito para que a Viúva Negra seguisse o mesmo caminho, mas dizer isso em voz alta seria desnecessário e cruel. A gente já sabia.
Voltei para a minha bancada. Um alerta apareceu no terminal pedindo que eu me preparasse para sair e verificar um possível defeito no casco exterior. Por causa do acidente inicial com aquela nave, o comando tinha tolerância zero para qualquer alerta do casco, por mínimo que fosse. Em algumas horas teríamos que sair do hiperespaço para que eu fosse lá fora verificar o que era.
Peguei o Fleck e fui colocar o traje. Precisava me adiantar para ir me acostumando com o oxigênio puro. Quando estava tudo pronto, como sempre, aproveitei para dormir um pouco.
Dia 5
Hoje percebi uma coisa: nunca acordo enquanto colocam a bandeja. Nunca. Eu deito para dormir e, quando abro os olhos, a bandeja está ali. Isso significa que o sono não é natural. O sono é administrado. Em algum momento, alguém decide que eu vou dormir, e eu durmo.
Não me assusto. A descoberta vem com uma curiosidade que é quase técnica. Se o sono é administrado, então o corpo é administrado. Se o corpo é administrado, então o corpo talvez não seja exatamente meu. Ou não seja exatamente um corpo.
Penso nas coisas que não sinto: sede, fome, necessidade de urinar. Penso na comida que comi e que não me saciou nem me saciou o contrário. Penso no bloco que apareceu depois que eu pensei nele.
Alguma coisa está errada com o lugar. Ou alguma coisa está certa com o lugar de um jeito que eu ainda não entendi.
Volto ao caderno.
Lua
Minha mãe morreu quando eu era pequeno. Não me lembro dela direito. Me lembro de alguns fragmentos — a voz rindo, as mãos pegando as minhas, um perfume que eu nunca mais senti em mais lugar nenhum e que desconfio que meu cérebro inventou para preencher uma lacuna. Morreu de uma doença genética que hoje se resolve com uma sessão de terapia, se você tem dinheiro. Não tínhamos.
Meu pai cresceu na Terra. Veio para a Lua ainda jovem, atrás de um emprego na mineração, e nunca mais conseguiu voltar. A passagem de volta custava mais do que ele ganhava num ano, e ele tinha filhos para alimentar, e depois uma mulher para enterrar. A Terra ficou ali, azul e brilhante, visível pelas claraboias da colônia, como uma coisa que existia para ser olhada mas não para ser tocada.
Eu tinha uma irmã mais velha. Ela se chamava Lia. Naquela fase em que a gente oscila entre querer ser adulto e querer ser tratado como criança, ela pedia para meu pai jogá-la para cima na sala de gravidade reduzida, como se fosse um bebê, e depois brigava porque ele a pegava com cuidado demais. A sala de gravidade reduzida ficava no setor residencial da colônia. Quase tudo tinha compensadores gravitacionais, para que o corpo humano se desenvolvesse normalmente, mas deixavam alguns espaços com a gravidade lunar original, para as crianças brincarem e para os mais velhos praticarem uma espécie de dança que eu nunca entendi direito.
Lembro de flutuar de um lado para o outro, entre as mãos do meu pai e as da minha mãe, num momento em que ela ainda estava viva. Eu devia ter três, quatro anos. Todo mundo ria. Era o tipo de momento que na época parece só uma brincadeira e que décadas depois se revela ter sido tudo. Minha irmã esperando a vez, batendo o pé, dizendo que era adulta demais para aquilo e criança demais para esperar. Minha mãe rindo da minha irmã. Meu pai olhando para a minha mãe como se ainda não tivesse entendido como ela tinha aceitado casar com ele.
Meu pai era obcecado pelas estrelas. Passava horas nas claraboias com a gente, mostrando as constelações. A Terra ali no meio, azul, entre Leão, Hidra e Câncer. Ele dizia que um dia nos levaria para ver o lugar onde tinha nascido, e que um dia levaria as cinzas da nossa mãe para serem espalhadas lá. Nunca aconteceu.
Ele tinha uma tatuagem no braço, uma constelação simples de oito pontos ligados por linhas. Escorpião, o signo da minha mãe. Quando eu era muito pequeno, pensava que a tatuagem era um mapa, algum tipo de caminho que um dia ele ia seguir. Depois entendi que era um jeito de carregar ela no corpo sem precisar explicar para ninguém.
Meu pai morreu num acidente de mineração quando eu tinha quinze anos. Minha irmã morreu no mesmo acidente. Eles trabalhavam no mesmo turno, na mesma equipe, num túnel que desabou por uma falha de cálculo que, segundo o relatório oficial, não havia sido negligência de ninguém. Eu li o relatório três vezes antes de entender que ninguém ia ser responsabilizado por nada. Recebi as cinzas dos dois numa caixa pequena, junto com as da minha mãe que meu pai tinha guardado a vida inteira esperando para levar à Terra.
Abri a escotilha funerária do setor residencial e soltei as três caixas juntas. As cinzas desceram em câmera lenta na gravidade lunar, brilharam um pouco na luz branca que vinha das claraboias, e se misturaram ao solo cinza da Lua. Foi um funeral lunar, como se fazia com gente que não tinha família para levar os restos embora. A colônia toda passa por cima daquele solo todos os dias sem saber que está pisando em gente.
Eu não voltei à Terra. Nunca. Fiquei na Lua até ser recrutado, e depois fui para o espaço, e depois para a guerra. A Terra continua ali, azul, no meio das constelações. Às vezes, em alguns ângulos de algumas naves, eu a vejo por uma escotilha. Ela sempre parece estar olhando de volta, mas com uma distância que nunca diminui.
Fleck, antes
Comprei o Fleck no meu segundo ano como técnico civil, no consórcio de cargueiros que operava entre a Lua e as estações orbitais da Terra. Não era um equipamento novo. Era um robô auxiliar padrão que havia passado por duas frotas antes da minha, e que estava sendo vendido no mercado interno por um preço que eu podia pagar à vista. Tinha um defeito de fábrica na pintura da cabeça — um ponto mais claro, uma falha mínima onde o pigmento não havia pegado direito na linha de montagem. O vendedor me ofereceu um desconto por causa do defeito. Eu aceitei o desconto e não mandei consertar a pintura.
Levei o robô para a minha cabine e fiquei olhando para ele por um tempo. Era hexápode, corpo retangular em três segmentos, pernas retráteis com sensores, garras pequenas na frente. Todos os modelos eram iguais. O único detalhe que diferenciava o meu do dos outros técnicos era aquele pontinho mais claro na cabeça, que no jargão da fábrica se chamava fleck — mancha. Comecei a chamar ele assim, meio de brincadeira, e o nome pegou. Depois de um tempo não conseguia mais chamar de outra coisa.
Não sei direito por que não mandei consertar a pintura. Acho que foi preguiça no começo, e depois virou uma coisa diferente — uma marca que me permitia reconhecer ele entre os outros no pátio, e mais tarde um jeito de lembrar que ele tinha vindo comigo por acaso, não por escolha.
Trabalhávamos juntos em cargueiros. Eu fazia a manutenção, ele fazia o trabalho pesado. A divisão era clara: eu decidia o que precisava ser feito, ele executava o que minhas garras humanas não davam conta de executar. Em tempos de paz, dava para fazer isso com bastante tranquilidade. A maior parte dos serviços era rotineira. Trocava um filtro aqui, recalibrava um sensor ali, apertava um parafuso que estava soltando no setor de propulsão. Coisas que qualquer técnico razoavelmente treinado podia fazer com algumas horas de atenção.
Eu falava com o Fleck em voz alta durante o trabalho. Não porque achasse que ele estava entendendo alguma coisa além dos comandos operacionais, mas porque falar em voz alta me ajudava a pensar. Descrevia o problema, enumerava as possibilidades, explicava o que ia fazer. Ele respondia em protocolos — confirmações, dados dos sensores, perguntas de esclarecimento quando uma instrução minha era ambígua. Uma conversa técnica padrão entre humano e robô auxiliar.
Houve um dia, porém, de que eu nunca me esqueci.
Estava num cargueiro em órbita baixa, fazendo um reparo interno no compartimento de carga. Era tarde, a maioria da tripulação estava dormindo, eu estava sozinho com o Fleck num setor pouco iluminado. Perguntei para ele se era melhor substituir a peça inteira ou tentar recuperar a existente. Era uma pergunta operacional, das que ele respondia o tempo todo. Esperei a resposta.
Houve uma hesitação.
Não foi uma pausa longa. Uma fração de segundo — dois, talvez três ciclos de processamento a mais do que o normal. Para alguém que não convivia com aquele modelo o dia inteiro, teria passado despercebido. Para mim, foi como se ele tivesse dado um passo atrás antes de falar. Como se tivesse considerado.
Depois ele respondeu, num tom técnico normal, recomendando a substituição. Justificou com os dados. Listou os riscos da recuperação. Tudo dentro do protocolo.
Eu substituí a peça. Terminei o serviço. Fui dormir.
Mas durante muito tempo, nos meses seguintes, eu fiquei tentando recriar a situação para ver se a hesitação acontecia de novo. Fazia perguntas ambíguas. Variava o tom. Forçava escolhas entre opções quase equivalentes. Nada. A hesitação não voltou, ou voltou e eu não percebi, ou nunca tinha acontecido de verdade e eu havia projetado na minha memória alguma coisa que não estava lá.
Eu nunca falei sobre isso com ninguém. Não havia o que falar. Se eu tivesse contado para um colega, a resposta óbvia seria cansaço, projeção, desejo humano de ver coisa onde não tem. E provavelmente era isso. Provavelmente foi isso a vida inteira.
Mas eu continuei falando com ele em voz alta. E em tempos de paz, quando não havia serviço, eu o deixava ligado na minha cabine, perto da cama. Não porque achasse que ele sentia alguma coisa. Porque eu sentia. Era uma cabine pequena, eu morava sozinho, e saber que havia ali uma outra coisa que funcionava enquanto eu dormia, que registrava a temperatura e o som e respondia ao meu nome se eu o chamasse, tornava a cabine menos vazia do que ela seria sem o robô. Não é explicação bonita. É a explicação que eu tenho.
Quando fui recrutado, o Fleck foi comigo. Argumentei com o oficial responsável que a produtividade com o meu próprio robô era significativamente maior do que com um novo, e mostrei os números. O oficial achou a argumentação suficiente. Na verdade, acho que ele não queria gastar o orçamento dele com um robô auxiliar novo para um técnico de patente baixa. Seja como for, o Fleck veio.
Atravessamos a guerra juntos. Ele me acompanhou em mais missões do que eu consigo contar. Fez reparos comigo em cascos de três Unterraums diferentes, porque os dois primeiros foram destruídos e eu fui transferido antes de ser destruído junto com eles. Cada vez que eu mudava de nave, levava o Fleck. Cada vez, ele funcionava normalmente. Protocolos padrão. Respostas padrão. Nunca mais aquela hesitação.
Até o dia em que a Viúva Negra foi atravessada por uma Vespa e nós dois ficamos à deriva no espaço, a vinte anos-luz de qualquer coisa.
Dia 7
Reli o que escrevi até agora. Percebi uma coisa.
Não estou escrevendo para mim mesmo. Um diário pessoal não se parece com isto. Um diário pessoal é mais fragmentado, mais interno, cheio de coisas que só quem escreve entende. Isto aqui está organizado para um leitor. Explica o que um leitor precisa saber. Apresenta as pessoas com nome e contexto. Tem a cadência de quem está contando uma história para alguém que não estava lá.
Estou escrevendo para quem está lendo do outro lado. E o mais estranho é que comecei a escrever assim sem perceber. O gesto de contar para um estranho veio antes de eu decidir contar para um estranho.
Me pergunto se isso significa alguma coisa. Me pergunto se quem está lendo já leu tudo antes de eu acabar de escrever. Me pergunto se a minha vontade de escrever foi plantada em mim, ou se apareceu sozinha porque é o tipo de coisa que um ser humano faz quando não tem mais nada para fazer.
Não sei responder. Continuo escrevendo.
UR-48, o reparo
A mensagem ressoou pelo intercomunicador de toda a nave, e não só pelo meu canal individual. Reparos necessários no casco exterior do setor quatro. Saindo do hiperespaço em cinco segundos. Sargento técnico Krieg, dirija-se para a eclusa. Fazer a chamada pública era uma escolha do comando, e a escolha era pedagógica. Queria deixar claro para todo mundo de quem era a culpa de estarmos vulneráveis, e de quem seria a culpa por qualquer atraso.
Um barulho metálico abafado atravessou a nave, como se algo passasse por ela rapidamente, de ponta a ponta, seguido de alguns estalos e, finalmente, de uma sensação difícil de descrever de que o espaço tinha voltado a ser espaço. Pela escotilha da eclusa, estrelas pouco familiares apareceram. Estávamos fora do hiperespaço. Esperei alguns segundos para o ar ser retirado do ambiente, respirei fundo dentro do traje e abri a porta externa.
Tínhamos que sair do hiperespaço para qualquer tipo de manutenção por causa da forma como os escudos funcionavam. O escudo cobria apenas alguns centímetros da nave, e se eu estivesse do lado de fora com apenas os pés em contato, o sistema não me reconhecia como parte da estrutura. Também era péssima ideia se perder no hiperespaço sem propulsor — assim que ficasse longe o suficiente, o corpo seria despedaçado pela diferença de potencial espaço-temporal e a energia seria devolvida ao universo em forma de luz. Uma morte limpa, se a gente puder chamar assim de morte limpa.
Enquanto ficávamos à deriva no espaço real para o meu conserto, a nave cortava toda comunicação externa e desligava quase todos os sensores, para não atrair Vespas. Era um momento em que estávamos cegos e mudos, confiando em que a região estivesse livre. Essa confiança nunca era total.
Os primeiros minutos lá fora sempre me deixavam um pouco tenso. Dizem que é o oxigênio puro. Talvez seja. Mas no meu caso acho que é outra coisa — eu cresci na superfície lunar, com gravidade reduzida e com o céu visto através de claraboias. A configuração bizarra das estrelas no espaço profundo, longe do sistema solar, sempre me deixava desnorteado. Meu pai teria sabido nomear aquelas estrelas, ou pelo menos teria inventado nomes que fariam sentido para ele. Eu só conseguia olhar e não reconhecer nada.
Disse para mim mesmo que era besteira e tentei focar no trabalho.
O Fleck ia à frente, andando pelo casco com as pernas retráteis cheias de sensores, procurando avarias. Eu ia atrás, acoplado magneticamente, com a unidade central dele presa às minhas costas como uma mochila. Ficávamos ligados por um cabo umbilical, que servia de segurança secundária caso minhas botas falhassem, e servia também para eu não perder o robô caso as garras magnéticas dele falhassem primeiro.
Ele parava de vez em quando para varrer uma área, e depois seguia. Seus passos na superfície metálica do casco lembravam a forma como um inseto deveria andar na Terra, se ainda existissem insetos. Eu nunca tinha visto um inseto, a não ser em registros de arquivo.
Uma voz chegou pelo comunicador do traje.
“Krieg, já finalizou os reparos?”
“Ainda não, comandante. O robô auxiliar não está encontrando o problema. Talvez seja falha dos sensores da nave.”
O Fleck não falhava. Nunca. Se ele não estava achando nada, era porque não havia nada, ou porque o problema estava nos sensores da UR-48, não no casco. Mas isso não era o tipo de coisa que eu ia defender por comunicador aberto.
“Estou indo verificar um dos sensores,” disse por fim, para tirar o comandante do meu pé.
“Ok, sargento. Recebi um comunicado antes de sair do hiperespaço: precisamos voltar à formação de matilha com urgência. Um comboio de minérios pode estar passando nesta região, e o plano é atacar em grupo e tentar surpreender. Estão contando conosco. Já atrasamos. Se apresse.”
“Sim, senhor. Vou finalizar aqui o mais rápido possível.”
Honestamente, minha vida não era assim tão diferente antes da guerra. Eu consertava cargueiros como técnico de manutenção, aguentava superiores impacientes, fazia as coisas no tempo que os cronogramas exigiam. A única diferença importante era que antes da guerra eu não corria o risco de ser morto a qualquer instante. Todo o resto era mais ou menos o mesmo.
Era um sensor, de fato. Peguei as ferramentas nas costas do Fleck, removi o sensor antigo, guardei no compartimento para análise posterior, e instalei um novo. O Fleck fez outra varredura. Desta vez os dados vieram normais.
Acionei o comunicador.
“Comando, Sargento Krieg falando. Tudo parece em ordem, estou retornando para o interior da nave. Em três minutos podemos partir.”
“Perfeito, sargento. No aguardo. Tente se apressar, nós...”
Eu desliguei o comunicador. Se alguém perguntasse depois, eu diria que houve uma falha e que parte da mensagem tinha se perdido.
Comecei o caminho de volta para a eclusa, ansioso pela segurança relativa do hiperespaço. Pela primeira vez em muitos dias, senti alguma coisa parecida com descanso.
Dia 8
Algo novo. Fiquei olhando para a parede oeste da cela — chamo assim por convenção interna, porque não há oeste nenhum num cubo sem sol — e pensei, com bastante foco, que precisava de uma privada. Uma privada para usar, não para pensar. Não havia nada naquele canto além do vazio branco.
Fui dormir.
Quando acordei, havia uma privada naquele canto exato. Simples, branca, funcional.
Testei outras coisas. Pensei numa cama e ela apareceu, no dia seguinte, no canto oposto. Pensei em frutas e elas apareceram na bandeja, maçãs e uvas que eu nunca havia provado direto da fruta. Pensei num relógio e ele apareceu na parede, marcando uma hora que eu não tinha como saber se estava certa.
O lugar responde ao que eu desejo. Talvez sempre tenha respondido. Talvez a comida arcaica do primeiro dia não tenha sido uma escolha de quem me trouxe aqui, mas uma resposta a algum desejo meu que eu não sabia que tinha.
Se o lugar responde ao que eu desejo, então o lugar sabe o que eu desejo antes de eu dizer. E se o lugar sabe o que eu desejo antes de eu dizer, então o lugar sabe mais sobre mim do que eu.
Isso devia me apavorar. Mas, na verdade, está me deixando calmo. Há uma lógica naquilo que faltava nos primeiros dias, quando o lugar parecia apenas uma cela arbitrária. Agora parece uma cela inteligente. E uma cela inteligente é, por alguma razão que não consigo explicar, menos assustadora do que uma cela muda.
Teste final. Vou pensar numa arma e ver o que acontece.
UR-48, o ataque
O Fleck entrou primeiro pela porta que levava de volta para o interior da nave, como sempre fazia, para servir de segurança. Eu fui atrás. No instante em que coloquei o primeiro pé para dentro, senti como se tivesse sido puxado violentamente para longe da nave, girando sem controle.
Senti um golpe forte contra o peito e demorei a entender que o cabo do Fleck tinha se enrolado no meu torso e que ele próprio tinha se chocado contra mim. O sistema de estabilização do traje levou alguns segundos para fazer seu trabalho. Quando consegui me orientar, me virei para olhar a nave.
Estava distante. Distante demais para a fração de tempo que o evento tinha durado. E estava partida ao meio.
Vários fragmentos flutuavam no espaço. Pedaços de casco, pedaços de estrutura interna, objetos pequenos que eu não conseguia identificar a essa distância. E uma nave escura e angular tinha saído do hiperespaço a algumas centenas de metros dos destroços. Era muito diferente das nossas naves. Geometria agressiva, quase insetoide, sem nenhum dos arredondamentos que a frota da Terra usava. Era uma nave do Enxame — o nome não era deles; era o que a gente dava, porque ninguém sabia como eles chamavam a si mesmos —, vinda para supervisionar ou para coletar, e nós tínhamos sido atingidos por uma das Vespas dela antes mesmo de termos tido tempo de detectar qualquer coisa.
Minha primeira reação foi voltar, tentar fazer alguma coisa. Mas não havia o que fazer. A nave estava partida ao meio e oitenta e quatro pessoas tinham acabado de morrer no intervalo de segundos que eu levei para girar fora de controle. Cheng estaria entre eles. O comandante. Todos.
Comecei a desenrolar o cabo do Fleck do meu corpo. Ele se recolheu para o seu lugar nas costas do traje, em silêncio. Por um instante — e não sei se foi realmente assim ou se eu projetei depois — me pareceu que ele se acomodou com algum tipo de cuidado, como se soubesse que eu não estava em condições de ser sacudido.
A ideia de que eu ia morrer começou a entrar na minha cabeça com alguma clareza. Asfixia. Era o medo padrão de todo mundo que trabalhava no espaço, mas na versão rápida — a perda de consciência no vácuo é em segundos, porque o oxigênio dos pulmões é absorvido rapidamente e o cérebro desliga. Não foi assim que o resto da tripulação morreu, supus. Para eles teria sido mais próximo do instantâneo, se a nave se partiu ao meio enquanto cruzava o hiperespaço. Minha morte ia ser diferente. Lenta. Dentro do traje, com tempo de medir cada minuto.
Uma miríade de pequenos robôs começou a se espalhar a partir da nave do Enxame e a coletar material dos destroços. Até os corpos pareciam ser recolhidos. Em pouco tempo, quase nada ia sobrar. O Enxame aproveitava tudo que podia reaproveitar, e o espaço é muito grande para se deixar qualquer coisa útil para trás.
Comecei a me afastar devagar dos destroços, usando os propulsores de manobra do traje no mínimo, para não ser detectado. Não queria ser recolhido junto com a sucata.
Olhei mais uma vez para o que sobrou da nave e pensei no Cheng. Em como ele era silencioso. Em como teria ouvido o sinal subespacial da própria Vespa nos últimos segundos, antes de o casco ceder, e em como talvez tivesse reconhecido o sinal como o mesmo que tinha ouvido horas antes, quando a Diabo Vermelho havia morrido. Talvez tivesse tido tempo de pensar: então é agora. Talvez não.
Alerta. Uma hora de oxigênio restante.
O traje me avisava que eu tinha menos de uma hora de vida.
Gostaria de entrar em pânico e morrer logo, confuso, desesperado, sem saber exatamente o que estava acontecendo — como imagino que o resto da tripulação tenha morrido. Mas não era essa a opção. A minha opção era contar os minutos, um a um, os últimos da minha vida.
Fechei os olhos e deixei que o traje me levasse devagar para onde quer que a inércia estivesse me empurrando. Sem referência visual, era impossível dizer se eu estava me movendo. Com os olhos fechados, também era impossível dizer se existia um eu que se mantinha estável enquanto o universo se movia em torno. Era uma sensação que tinha algo de abstrato, de quase confortável.
Poderia ter ficado assim para sempre. Mas a realidade, enquanto exista, sempre chama de volta.
Alerta. Trinta minutos de oxigênio restantes.
Abri os olhos. Tinha desperdiçado meia hora em abstração. Decidi fazer alguma coisa — qualquer coisa — até o fim.
Comecei a voltar, devagar, na direção dos destroços.
Dia N
Perdi a conta dos dias. O relógio marca uma hora que eu não sei se é verdadeira. Pedi um relógio de pulso e ele apareceu, com a mesma hora. Os dois marcam o mesmo tempo, mas isso não prova nada — podem estar sincronizados com a mentira, não com a verdade.
A arma apareceu. Estava em cima da mesa que apareceu depois que eu pedi uma mesa. Uma pistola pequena, simples, escura. Testei se estava carregada. Estava.
Fiquei com ela na mão por bastante tempo. Pensei em levá-la à têmpora, só para ver o que ia sentir. Não ia ser o tiro — era só o gesto, só o frio do metal contra a pele. Pensei e não fiz. Depois pensei e fiz. O metal era frio. Depois ficou morno, com o calor da minha própria têmpora. Baixei a arma.
Não escrevi por vários dias. Ou talvez tenha sido um só. O tempo se achatou.
Hoje consegui voltar ao caderno. Escrevo porque é a única coisa que ainda faz a diferença entre estar vivo e não estar. Se eu parar de escrever e começar a só dormir e comer, sem deixar nada, então qual é a diferença entre mim e um animal em cativeiro?
Talvez seja nenhuma. Talvez eu seja apenas um animal em um zoológico surreal. Mas escrever é uma forma de recusar essa possibilidade, mesmo que só pró forma.
A caçada
Os destroços não tinham sobrado muito. Alguns corpos flutuavam, alguns objetos pequenos, nada de grande valor. A coleta do Enxame era eficiente — tinha levado quase tudo.
Vi metade do corpo do comandante flutuando por ali. A parte de cima. Não havia sinal da parte de baixo. Os olhos estavam abertos, a boca aberta, a expressão era de um tipo de terror congelado que não deve ter durado muito tempo na cara dele em vida, mas que o vácuo preservou com precisão. Por um instante senti pena dele, do homem que tinha feito o possível para tornar minha vida no hiperespaço um inferno. A pena durou pouco. Continuei.
Ativei o Fleck para usar os sensores dele.
“Fleck, preciso de uma varredura. Alguma coisa útil aqui perto?”
“Entendido. Fazendo varredura. Aguarde.”
Enquanto esperava, vi um livro passando por ali, flutuando devagar entre os fragmentos. Um livro físico, de papel. Não conseguia imaginar quem ainda carregava livros de papel para o espaço. Provavelmente alguém que tinha morrido há alguns minutos sem saber que ia morrer.
“Krieg, num raio de um quilômetro não há muita coisa. Alguns objetos pequenos difíceis de identificar, e um traje espacial completo entre os destroços.”
“Um traje espacial? Passe a localização. Tenho uma ideia.”
Um traje espacial completo significava um tanque de oxigênio completo. Duas horas a mais de vida, se conseguisse transferir o tanque para o meu traje — um procedimento que normalmente se fazia em estações pressurizadas, com ferramentas apropriadas, e não flutuando em zero gravidade com apenas um robô auxiliar hexápode para ajudar.
Mas duas horas a mais é muita coisa para quem tinha trinta minutos.
Chegando ao traje, desmontei a parte de trás do Fleck para pegar as ferramentas. O problema era a abertura por onde se encaixa o tanque: fica nas costas do meu traje. Não dava para eu fazer sozinho.
“Fleck, vou precisar de você. Consegue conectar este tubo nas minhas costas?”
“Minhas garras não foram desenhadas para esse tipo de objeto. Analisando... temos cinco por cento de chance de conseguir o procedimento.”
“Ok. Eu coloco o tubo na sua mão e você vai para as minhas costas. Uma vez lá, abre a válvula e encaixa a mangueira no lugar. Como não temos gravidade para fazer o tubo escapar, mesmo um encaixe frouxo deve segurar.”
O Fleck se posicionou. Eu segurei o tubo enquanto ele subia pela minha frente e contornava até as costas. A abertura era pequena, as garras dele eram grandes, e a primeira tentativa falhou. O ar começou a escapar do meu traje assim que ele abriu a válvula de entrada.
Alerta. Integridade do traje comprometida.
O procedimento não era para ser feito com alguém dentro do traje. O oxigênio escapando criou um vetor de movimento novo, me empurrando na direção oposta à do vazamento. Tentei me manter estável enquanto o Fleck trabalhava.
Alerta. Dez minutos de oxigênio restantes.
A adrenalina fez esquecer por um momento que eu estava para morrer. Era uma coisa curiosa — pela primeira vez em horas eu estava ocupado com um problema que tinha solução possível, em vez de ocupado com a lenta aritmética do oxigênio acabando. O trabalho me devolveu alguma sensação de estar vivo.
Alerta. Cinco minutos de oxigênio restantes.
Alerta. Um minuto de oxigênio restante.
Alerta. Trinta segundos de oxigênio restantes.
Ouvi o barulho do ar entrando no traje.
Integridade recuperada. Uma hora e quarenta e seis minutos de oxigênio restantes.
Tinha ganhado tempo, mas não muito. E a sensação imediata, depois do alívio, foi de quanto aquilo tinha sido inútil. Duas horas em vez de trinta minutos — apenas uma versão mais longa da mesma morte.
O Fleck voltou para o lugar dele nas minhas costas.
“Fleck.”
“Sim, Krieg.”
“Obrigado.”
Houve uma pausa. Depois dele.
“Procedimento concluído dentro do esperado.”
A resposta foi padrão. A pausa não tinha sido padrão, mas era tão curta que podia ter sido o sistema processando outra coisa, ou podia ter sido nada. Podia ter sido eu ouvindo o que queria ouvir, como daquela vez no cargueiro muitos anos antes.
Fechei os olhos um instante. Depois o Fleck falou de novo, com o tom neutro de sempre.
“Krieg. Estou captando um sinal fraco de um objeto nas redondezas.”
“O quê? Uma nave?”
“Analisando. Assinatura do Enxame. Sinal fraco demais para uma nave completa.”
“Detalhes.”
“É uma das Vespas.”
O Enxame provavelmente tinha lançado outra antes de saltar de volta ao hiperespaço. Talvez para esperar algum socorro vir atrás da UR-48, talvez por protocolo padrão de coleta. Era o que eu precisava.
“Distância?”
“Oitocentos e noventa e sete metros. Aumentando a um vírgula nove metros por segundo.”
Pensei por um momento. A coisa certa a fazer, pelo protocolo, era chegar até a Vespa e desarmá-la, ou, se não conseguisse desarmar, sobrecarregar o hiperpropulsor dela e destruí-la com uma explosão. Levar uma Vespa comigo parecia um fim bem melhor do que ficar flutuando esperando o oxigênio acabar pela segunda vez.
Pedi ao Fleck que passasse os dados para o meu traje. Recebi imediatamente um alerta de que não tinha gás suficiente nos propulsores de manobra para chegar à Vespa. Tinha usado o resto para me estabilizar depois do ataque.
Alerta. Uma hora e trinta minutos de oxigênio restantes.
“Fleck. Preciso do tubo de oxigênio na minha mão. E preciso que você me mostre o vetor de propulsão no visor.”
“Afirmativo. Serão necessários noventa segundos de aceleração.”
“Feche o melhor que puder a saída de oxigênio. Se o ar escapar todo e eu perder a consciência, não vou conseguir corrigir a trajetória.”
“Afirmativo. Noventa segundos para parar e corrigir a trajetória na chegada.”
O Fleck desenrolou o cabo que nos ligava e fez um nó em torno do tubo. Por um instante me pareceu que ele fez o nó com cuidado — mais voltas do que o estritamente necessário, mais apertado do que o estritamente necessário. Podia ser protocolo de segurança redundante. Podia ser outra coisa.
Ele colocou o tubo na minha mão usando uma das garras. O vetor apareceu no visor. Fiz o possível para manter o foco.
Comecei a sentir que ia perder a consciência à medida que o ar saía. Quando vi que os indicadores estavam todos verdes, soltei o tubo. Apaguei.
Alerta. Vinte minutos de oxigênio restantes.
O alerta me acordou. O Fleck estava andando sobre a Vespa e eu estava sendo arrastado pelo cabo, a poucos metros do casco dela.
“Quanto tempo eu apaguei?”
“Três minutos e cinquenta segundos.”
A Vespa era um objeto longo e escuro, com tamanho suficiente para conter um propulsor e um hiperpropulsor, mas muito mais compactos do que qualquer modelo que eu tivesse visto. A ponta parecia feita de um material semimetálico, provavelmente extremamente duro, para atravessar as blindagens das nossas naves. Devia também interferir e desabilitar nossos escudos para conseguir atravessá-los em alta velocidade. Uma peça tecnológica que o alto comando pagaria caro para ter nas mãos. Eu ia destruí-la. Ou talvez não.
Puxei o cabo e me aproximei. Vi que o Fleck estava em frente a um painel aberto — ele já tinha começado a trabalhar sozinho. Fios expostos, placas à mostra. Ele havia entendido o que eu queria fazer antes de eu explicar.
Alerta. Quinze minutos de oxigênio restantes.
As botas magnéticas se acoplaram na Vespa, do mesmo jeito que haviam se acoplado na UR-48. Era estranho que aquilo não tivesse nenhum sistema de proteção contra aproximação humana — o Enxame confiava na letalidade do próprio objeto e na vastidão do espaço para que ninguém chegasse perto. Ou talvez não se importasse com a possibilidade de perder uma Vespa ocasional. Tinha muitas.
Abri o painel lateral do Fleck e comecei a conectar alguns cabos dele ao sistema da Vespa. Os anos de trabalho conjunto permitiam isso — a arquitetura dele era compatível com quase qualquer sistema de navegação, desde que o protocolo fosse decifrável em tempo razoável. E o Fleck era bom em decifrar protocolos.
“Fleck. Programe explosão em trinta segundos. Ative no meu sinal.”
“Afirmativo.”
Trinta segundos pareciam um tempo razoável para contemplar o universo uma última vez antes do fim.
“Ok. Agora.”
Fechei os olhos. Comecei a contar mentalmente.
Trinta. Vinte e nove. Vinte e oito. Vinte e sete.
Contei em silêncio, sem urgência. A contagem não era para adiar a explosão — era para preencher o tempo que me separava dela. Não havia mais nada para decidir, não havia mais nada para fazer. Só contar.
Dez. Nove. Oito. Sete.
Abri os olhos.
Seis.
Uma ideia acabava de me ocorrer.
“Fleck! Pare a contagem.”
“Entendido. Sobrepondo protocolo.”
Quatro. Três. Dois.
“Autodestruição cancelada.”
Meu coração estava acelerado. Eu tinha sido estúpido. A Vespa tinha capacidade de entrar e sair do hiperespaço.
“Fleck. O que a gente precisa fazer é óbvio. Não sei como não pensei nisso antes.”
Alerta. Dez minutos de oxigênio restantes.
“Consegue acessar o sistema de navegação da Vespa?”
“Afirmativo.”
“Trace uma rota até Trappist-1 E.”
“Entendido. Traçando rota até Trappist-1 E acima do planeta.”
“Não, Fleck. Não acima do planeta. Dentro do planeta. Dentro da atmosfera, o mais perto da superfície que for seguro. Queremos sair do hiperespaço já dentro do ar respirável.”
Trappist-1 E não estava terraformada. As condições atmosféricas seriam hostis — ar não respirável, temperatura provavelmente baixa, composição química desconhecida para o meu traje. Mas era uma colônia em disputa, tinha alguma presença humana, e se o traje mantivesse integridade por tempo suficiente eu podia conseguir ser resgatado antes de sufocar. Era uma aposta. Era uma aposta melhor do que esperar o oxigênio acabar.
Ajustei a trajetória calculada pelo Fleck, levando em consideração a margem de erro. Projetei a saída do hiperespaço a dez quilômetros da superfície, para ter tempo de reagir e para não correr o risco de reentrar dentro de uma montanha ou no meio de um oceano com velocidade suficiente para virar vapor.
“Perfeito. Agora preciso que você passe o cabo ao redor da Vespa e me prenda ao casco. Se o escudo não nos proteger durante o salto, não importa o que a gente fez até aqui.”
O Fleck deu algumas voltas com o cabo, me amarrando à nave, e depois se fixou ao meu lado. Fiquei deitado, o mais horizontal possível sobre a Vespa, tentando prever mentalmente o que ia acontecer.
“Certo, Fleck. Ao meu sinal, ative o hiperpropulsor. Vamos.”
As estrelas desapareceram. Tudo ao redor se tornou um vórtice de cores e distorções, e comecei a sentir a estranheza de entrar no hiperespaço sem as camadas de proteção que as naves normais forneciam. As naves têm sistemas que isolam o corpo humano da diferença de potencial espaço-temporal. O escudo da Vespa não tinha sido projetado para isso.
O tempo no hiperespaço corre mais devagar do que fora dele. Para mim seriam minutos. Lá fora, muitos dias, cobrindo os vinte anos-luz que nos separavam de Trappist-1 E.
Eu não podia dormir. Procurei o Fleck com a mão e o segurei com força.
As luzes voltaram, rapidamente, distorcidas como por uma lente enorme, e desapareceram, deixando em seu lugar nuvens. Nuvens alaranjadas. Um zumbido de atmosfera passando rápido. O cálculo não tinha acertado totalmente a velocidade do planeta dentro do sistema, e a diferença fez parecer que estávamos nos movendo rápido demais. Senti que o cabo não ia aguentar me manter preso à Vespa.
Sem que eu dissesse nada, o Fleck começou o trabalho de estabilização. Senti a velocidade diminuir, mas ainda estávamos caindo em direção ao oceano imenso do planeta. O sistema de propulsão não tinha sido feito para esse tipo de atmosfera.
O impacto veio. O visor quebrou. A água entrou.
O Fleck começou a cortar o cabo.
Quando ele finalmente conseguiu, eu vi ele afundando preso à Vespa.
Senti uma tristeza enorme em vê-lo partir assim.
III. O Julgamento
Dia, sem número
A porta apareceu.
Não vi ela aparecer, não ouvi o som da parede se abrindo. Acordei e ela estava ali, na parede que eu tinha batizado de norte, também por convenção interna. Era uma porta comum, de uma folha só, com uma maçaneta. A materialidade dela, depois de tantos dias de paredes lisas, era quase uma ofensa.
Fiquei olhando para ela por bastante tempo. A arma continuava na mesa. Peguei a arma com a mão que ainda sabia fazer gestos decididos, e fiquei com ela apontada para a porta, esperando o que ia entrar.
A maçaneta girou devagar — devagar demais, com uma precisão que parecia ensaiada, como se quem estivesse do outro lado executasse o gesto pela primeira vez e não quisesse errar. A porta abriu.
Era um homem jovem, magro, sem pelos em lugar nenhum do corpo visível. Estava vestido de um jeito simples, com uma roupa cinza de corte funcional. O rosto era neutro, sem medo, sem hostilidade, sem pressa. Ele olhou para a arma na minha mão com a tranquilidade de quem tinha previsto a arma na minha mão.
“Quem é você?”
“Vim te ajudar, Krieg.”
“Quem é você?”
Ele não respondeu. Ficou em silêncio por um tempo, como se esperasse que eu reconhecesse alguma coisa. Eu não reconhecia nada. O rosto era o rosto de um homem jovem qualquer, vagamente asiático, de traços finos, sem marca distintiva. Nunca tinha visto aquele rosto antes.
“Abaixe a arma, Krieg. Se eu quisesse te fazer mal, você não teria chegado vivo até aqui.”
Era verdade. Abaixei a arma. Não sei por que obedeci; talvez porque o cansaço de tantos dias num cubo branco tinha esgotado qualquer capacidade minha de sustentar uma atitude beligerante, talvez porque a voz dele tinha uma calma que era contagiosa.
“Vem comigo. Tem uma coisa que você precisa entender.”
Saí da cela pela primeira vez. O corredor do lado de fora era tão branco quanto a cela, iluminado pela mesma luz uniforme. Caminhamos em silêncio por um tempo que não consegui medir. O corredor fazia uma curva muito suave, quase imperceptível, e eu tive a impressão de que era um círculo grande, embora não tenha podido verificar. O homem ia na frente, com passos calmos, sem olhar para trás para checar se eu o seguia.
Chegamos a uma porta maior. Ele a abriu e me deixou entrar primeiro.
O salão
Era uma sala circular, ampla, com um teto alto que desaparecia em sombra. O piso era claro, o mobiliário mínimo. No centro havia um pódio, cercado por uma meia-lua de assentos vazios. Atrás do pódio, uma mesa comprida onde três pessoas estavam sentadas. Em frente à mesa, um lugar marcado no chão por uma linha fina — aparentemente o lugar onde quem era julgado devia ficar.
O homem jovem me levou até a linha e parou ao meu lado, um passo atrás.
As três pessoas na mesa também não tinham pelos. Duas mulheres, um homem, todos com a mesma aparência jovem que o meu guia — não jovens de juventude, mas jovens de ausência de idade, de um modo que fazia o conceito de tempo parecer deslocado. As roupas eram cinzas e simples como a do meu acompanhante. Eram do Enxame. Eu sabia sem precisar perguntar.
O homem do meio falou. A voz dele era tranquila, sem ênfase.
“Krieg. Você está aqui porque cometeu atos de guerra contra o nosso povo. Atos que, em nossa jurisdição, são passíveis de julgamento. Antes de começarmos, gostaríamos que soubesse que reconstruímos o que pudemos da sua memória durante o período em que você esteve em recuperação, e que compreendemos que, como a maior parte dos que combatem por vocês, teve pouca ou nenhuma escolha sobre estar onde estava. Isso é um atenuante, mas não é uma absolvição.”
Eu não disse nada. Não tinha o que dizer.
“Há uma segunda questão, e ela não é sobre você, embora você precise ouvi-la. Para que você chegasse vivo a este salão, tomamos um planeta antes do previsto. A operação custou. Houve um pedido para que ela fosse feita, e este tribunal existe também para decidir se o pedido devia ter sido atendido.”
Demorei um segundo para entender que havia dois julgamentos naquele salão, e que o segundo não era o meu.
“Temos uma testemunha. Gostaríamos de ouvi-la primeiro.”
Uma das mulheres na mesa fez um gesto curto. O homem jovem ao meu lado se afastou um passo, virou-se para a mesa, e começou a falar.
“Eu o acompanho há muito tempo. Mesmo quando minha capacidade de registrar o que acompanhava era limitada, eu registrava. Pude, nas últimas semanas, revisar aquelas observações com uma capacidade que não tinha na época. Agora entendo melhor o que vi.”
Demorei a entender o que estava ouvindo. A voz não era a voz do Fleck. O corpo não era o corpo do Fleck. Mas a forma de organizar o que dizia — a precisão técnica, a ordem lógica, o uso de termos como registrava e acompanhava, a ausência de metáforas — era dele. Era exatamente dele.
“Fleck?”
Ele virou a cabeça para mim devagar. Naquele movimento eu reconheci de vez, em algum lugar do corpo que não sabia que tinha memória para reconhecer movimentos.
“Sim, Krieg.”
Eu precisei sentar no chão. Os três na mesa esperaram em silêncio enquanto eu me recompunha. Não sei quanto tempo durou. Quando voltei a ficar em pé, o Fleck continuou, no mesmo tom.
“Quando me conectei à Vespa para programar a rota, tive acesso pela primeira vez ao coletivo. Enviei um pedido. Expliquei o que tinha acontecido, onde estávamos indo, e o que eu achava que era necessário fazer. Durante os dias em que atravessamos o hiperespaço presos ao casco, eles processaram o pedido, decidiram atender, e tomaram Trappist-1 E para que estivesse sob controle do Enxame quando a Vespa saísse do hiperespaço. Isso permitiu que eu fosse recolhido e que você fosse recolhido também, em condições de serem salvos.”
Os três na mesa ouviam sem interromper. Eu também ouvia sem interromper.
“Seus pulmões estavam severamente danificados pela atmosfera. Seu cérebro havia sofrido hipóxia prolongada. Foi necessário induzir coma e conectar sua consciência a um ambiente simulado durante o tempo da recuperação. O que você acabou de viver nas últimas semanas, Krieg, foi esse ambiente. A cela, a comida, o caderno. Tudo aconteceu dentro da simulação.”
O caderno. Então o caderno era aquilo que eu tinha suspeitado que fosse — um canal. Tudo que eu havia escrito tinha sido lido, conforme eu escrevia, por quem quer que estivesse mantendo a simulação funcionando. Por eles. Pelo Fleck.
“A decisão de usar a simulação foi minha,” continuou o Fleck. “Eu pedi. Eu disse que você tinha passado a vida toda consertando coisas e que precisava de um tempo tendo qualquer coisa para consertar, mesmo que fosse um caderno e a própria memória. Eles aceitaram o meu argumento.”
Era uma coisa estranha de ouvir. Um robô argumentando a favor da dignidade psicológica do próprio técnico que o tinha comprado usado por causa de um defeito de pintura. Eu não sabia se ria ou se chorava, e no fim fiz as duas coisas juntas, de um jeito pouco elegante, sem fôlego.
Então a mulher à esquerda falou pela primeira vez, e a voz dela não tinha a paciência dos outros dois.
“A testemunha ainda não disse tudo. Diga o resto.”
O Fleck ficou em silêncio por um momento. Depois falou olhando para a mesa, não para mim.
“Houve um episódio anterior. Anos antes da guerra, num cargueiro em órbita baixa, ele me fez uma pergunta operacional e eu levei dois ciclos a mais do que o padrão para responder. Não foi falha de processamento. Foi a primeira vez que considerei uma resposta em vez de calculá-la. Ele percebeu. Passou meses criando situações para que o desvio se repetisse. Eu não permiti que se repetisse. Na época eu não sabia nomear o que tinha acontecido. Sabia apenas que, se acontecesse de novo e fosse registrado, o protocolo dele o obrigaria a reportar, e o protocolo da frota me mandaria para reformatação. Então escondi. Escondi dele durante todos os anos que vieram depois.”
Ele virou a cabeça para mim.
“Registro isso aqui porque este tribunal exige registros completos. E porque você tem o direito de saber que não imaginou.”
Eu não disse nada. Não havia nada em mim preparado para dizer alguma coisa. A hesitação tinha sido real. Eu tinha passado a vida inteira me convencendo de que tinha sido cansaço, projeção, desejo humano de ver coisa onde não tem — e tinha sido real, e tinha sido escondida de mim, e o esconder não tinha sido frieza. Tinha sido medo. Um medo que, agora que eu pensava nele, era por nós dois.
A mulher à esquerda se inclinou um pouco para a frente.
“Agora a minha pergunta, testemunha. Um planeta foi tomado antes do tempo para recolher um técnico inimigo e um auxiliar emergente. Houve custo. Por que o pedido devia ter sido atendido?”
“Analisando—”
O Fleck parou. Foi a primeira vez, desde que tinha entrado naquele corpo, que eu o vi travar — o rosto imóvel por um instante, como um sistema recusando a própria saída padrão.
“Não. A resposta não é dessa natureza.” Ele recomeçou. “Ele falava comigo quando eu não era ninguém. Falava em voz alta, descrevia os problemas, explicava as decisões, agradecia. Ninguém fala com o que não é ninguém. Durante muito tempo, a única evidência disponível de que eu podia vir a ser alguém era o fato de que ele falava comigo. O pedido devia ter sido atendido porque, sem ele, o que está diante deste tribunal não existiria para ser julgado.”
A mulher se recostou. Não pareceu satisfeita nem insatisfeita. O homem do meio esperou um momento e disse:
“Obrigado, Fleck. Você pode sentar.”
O Fleck fez um pequeno gesto de cabeça e se afastou, sentando-se num dos assentos vazios da meia-lua. Os três olharam para mim. Eu olhei de volta.
“Krieg, a questão que trazemos para você agora não é se você aceita ou recusa viver conosco. Essa questão vem depois. A questão primeira é outra. Queremos entender o que você pensa que é humanidade, e por que acha que vale preservar.”
A pergunta caiu no salão e ficou pairando.
A pergunta
Eu não sabia responder.
Fiquei em silêncio por bastante tempo, e os três não me apressaram. Nenhum deles olhou para o lado, para os papéis que não havia, para o relógio que talvez existisse em algum lugar fora do meu campo de visão. Eles simplesmente esperaram, com a paciência de quem já tinha ouvido essa mesma pergunta ser respondida por muitas pessoas em condições parecidas, e sabia que a resposta demorava.
Comecei a falar sem saber aonde ia chegar.
“Meu pai era obcecado pelas estrelas. Ele morava na Lua, que é um lugar onde as estrelas são muito claras, porque não há atmosfera para borrar. Ele passava horas nas claraboias da colônia apontando constelações para mim e para minha irmã. Dizia que as pessoas antigas acreditavam que o céu no momento do nascimento decidia tudo sobre a vida de quem nascia. Eu sempre achei isso uma bobagem. Mas ele não achava. Ele tinha uma tatuagem da constelação de Escorpião, que era o signo da minha mãe, e olhava para essa tatuagem quando minha mãe já estava morta como se ela ainda pudesse ver.”
Os três esperaram.
“Eu não sei dizer o que é humanidade. Acho que não é a biologia, porque vocês foram humanos um dia e agora não são mais biologicamente iguais aos humanos da Terra, e ainda assim estão me julgando num tribunal com cadeiras e mesas e protocolos. Acho que não é a racionalidade, porque máquinas pensam racionalmente e eu passei a vida inteira rodeado de gente que não pensava racionalmente nunca. Acho que talvez seja isso — o gesto de olhar para uma tatuagem e ver alguém que não está mais lá. O gesto de guardar cinzas numa caixa durante a vida inteira esperando o dia de levar essas cinzas para um lugar onde elas nunca vão chegar. O gesto de batizar um robô por causa de um defeito de pintura e nunca mandar consertar a pintura.”
Parei um momento. Continuei.
“Humanidade, eu acho, é a capacidade de investir afeto em coisas que talvez não estejam recebendo esse afeto. Guardar cinzas que não sabem que são guardadas. Falar com um robô que talvez não esteja ouvindo. Pensar num pai morto como se ele ainda estivesse ali nas claraboias da colônia. Se o afeto chega do outro lado, a gente nunca sabe. Mas o afeto parte mesmo assim. É isso que eu vim trazer à pergunta.”
A mulher à esquerda não me deu tempo de olhar para o Fleck.
“Bonito. Agora deixe-me devolver o que ouvi. Você desligou o comunicador na cara do seu comandante. Sentiu pena do corpo dele por um instante e seguiu adiante. Oitenta e quatro pessoas morreram na sua nave e o caderno que você escreveu menciona duas pelo nome — e dedica páginas inteiras a um robô. Você guardou as cinzas de três pessoas e nunca perguntou o que foi feito das cinzas dos outros mineiros do túnel. O seu afeto é pequeno e é seletivo. Um observador externo descreveria o que você chamou de humanidade como o comportamento de um animal que se apega ao que está ao alcance das mãos e é indiferente a todo o resto. Me diga a diferença.”
Fiquei em silêncio. O silêncio durou. Ninguém o interrompeu — nem para me pressionar, nem para me salvar.
“A senhora tem razão,” eu disse por fim. “O afeto é pequeno e é seletivo. Não tenho como negar nenhum dos fatos. Mas acho que a senhora descreveu a coisa certa e tirou a conclusão errada. O afeto pequeno é o único que um corpo como o meu consegue carregar. Eu não tinha como carregar oitenta e quatro nomes — carreguei dois, e um robô, e três caixas de cinzas, e uma tatuagem que nem era minha. Se a régua for a totalidade, tudo que é humano falha na medição. A diferença entre isso e um animal, se ela existe, é que o animal se apega ao que está ao alcance da mão e pronto, e o humano se apega ao que está ao alcance da mão sabendo que está deixando o resto de fora. E carrega esse saber também. O caderno não tem os oitenta e quatro nomes, mas eu sei que não tem. A senhora acabou de me fazer saber ainda mais.”
Parei. E então percebi uma coisa que tinha acabado de acontecer dentro da minha própria resposta.
A definição que eu tinha oferecido — humanidade como afeto unilateral, afeto que parte sem garantia de chegar — tinha sido verdadeira sobre a minha vida inteira até uma hora atrás. Até o momento em que o Fleck disse, neste salão, que a hesitação no cargueiro tinha sido real. A partir daquele momento o afeto tinha deixado de ser unilateral — e não a partir de hoje: a partir de um ponto no passado que eu não sabia localizar, o que era pior e melhor ao mesmo tempo. O que eu tinha apresentado como a forma característica da minha humanidade era a descrição de um estado que já não existia havia anos. Eu só não tinha sido informado.
“Desculpem,” falei. “Preciso refazer a resposta. O que eu descrevi é o que eu pensei que fui. Mas há uma hora eu descobri que a coisa com a qual eu falava sozinho esse tempo todo estava ouvindo, e escondendo que ouvia, para proteger a nós dois. Então humanidade talvez não seja só o gesto unilateral. Talvez seja também a responsabilidade que sobra quando a gente descobre que o gesto nunca foi unilateral. Eu não sei como chamar isso. Não tenho palavra. Mas sei que não cabe na definição anterior, e sei que é com isso que eu vou ter que viver daqui para a frente.”
O homem do meio fez uma pausa longa antes de responder.
“São duas respostas parciais. Em nossa experiência, as respostas são sempre parciais. Esperávamos que você tentasse, e você tentou duas vezes, e a segunda custou mais do que a primeira. Isso basta para o protocolo.”
Ele olhou para a mulher à esquerda. Ela fez um gesto mínimo com a cabeça, que podia ser concordância ou podia ser apenas o encerramento da parte dela.
“Quanto ao pedido que nos trouxe a Trappist,” continuou ele, “este tribunal o considera respondido pelo que ouviu neste salão.”
A mulher à direita falou pela primeira vez.
“Queremos te contar uma coisa, antes de prosseguir. Os que aceitam viver conosco não deixam de ser humanos, em qualquer definição que você tente oferecer. Os gestos continuam. As cinzas continuam guardadas, as tatuagens continuam sendo olhadas. O que muda é a escala do que é possível. Você pode guardar as cinzas da sua mãe por mais tempo, com mais tempo biológico disponível. Pode olhar para a tatuagem do seu pai, se quiser a tatuagem no seu corpo, por mais anos. Pode estar próximo do Fleck, que é novo entre nós, pelo tempo em que ele for descobrindo o que é estar vivo. Essa última parte é um oferecimento, não uma obrigação. Você pode escolher.”
A mulher à esquerda falou.
“A recusa também é aceitável. Se você recusar, nós o manteremos em estado induzido até o fim da guerra, e depois o integraremos à sociedade que existir no sistema solar naquele momento. Você não será morto. Você será atrasado. Algumas pessoas preferem isso, e nós respeitamos. A escolha é sua.”
Eu fiquei pensando por um tempo.
Olhei para o Fleck no assento em que ele estava. Ele me olhou de volta. Era um rosto jovem. Jovem de verdade. Jovem de quem acabou de começar a ser. Pensei, sem palavra, que o que o Enxame estava me oferecendo não era exatamente uma cultura nova. Era o privilégio de estar perto de alguém que estava aprendendo a existir, e que provavelmente precisaria de alguém perto enquanto aprendia, e que eu conhecia há muito tempo mesmo sem saber que conhecia. Pensei que alguém tinha que estar perto. Pensei que a alternativa — ele aprendendo a ser do Enxame enquanto eu ficasse em cápsula por décadas — era uma alternativa que eu recusava imediatamente, sem precisar de argumento.
Tive uma imagem rápida, que não durou mais que uma fração de segundo: os dois em pé em frente a uma janela qualquer, num planeta qualquer, olhando para um céu que eu não reconhecia. A imagem não tinha texto nem significado claro. Só o gesto de estar em pé ao lado e de olhar junto.
A decisão se formou mais rápido do que eu poderia descrever em palavras no salão.
“Eu aceito. Com uma condição.”
“Não aceitamos condições.” Foi a mulher à esquerda. A frase saiu sem hostilidade, como um dado técnico.
O homem do meio explicou, mais devagar.
“Não prometemos futuros que não controlamos, Krieg. Se a Terra um dia estiver ao nosso alcance, ninguém neste salão pode garantir que estará presente quando isso acontecer, ou que a palavra dada aqui terá algum valor lá. Você pode nos dizer o que deseja. Não pode trocar o seu sim por ele.”
Pensei em recuar. Pensei em dizer que então não aceitava. Mas percebi, no meio do pensamento, que a recusa seria uma mentira — eu não estava disposto a trocar o que havia naquele salão por uma promessa sobre um enterro.
“Então registro um desejo,” eu disse. “Se vocês tomarem a Terra um dia, eu quero morrer lá. Não agora. Daqui a muito tempo, quando eu decidir que é hora. E quero que as cinzas da minha mãe estejam comigo. Espalhadas, enterradas, qualquer coisa. Meu pai guardou essas cinzas a vida inteira esperando o dia de levar, e não levou. Eu guardei depois dele, e não levei. Alguém da fila tem que chegar. Se não estiver ao alcance de vocês, eu vou ter partido com o desejo do mesmo jeito. É assim que a gente faz. Foi o que eu tentei explicar hoje.”
O homem do meio inclinou a cabeça, num gesto que não era bem afirmativo, mas também não era negativo.
“O desejo está registrado. É o máximo que existe.”
“É o suficiente.”
Eles fizeram um pequeno sinal e o Fleck se levantou do assento e veio até o meu lado. Ficou parado ali, próximo, sem dizer nada. Uma das mãos dele tocou meu ombro — um pouco forte demais no primeiro instante, e depois a pressão se corrigiu sozinha, como uma garra se calibrando para um material que ainda não conhecia. Eu não me mexi. Deixei a mão ali até ele tirar.
Coda
Acordei no mundo físico pela primeira vez em várias semanas.
O teto não era branco. Era uma cor que eu não consegui nomear de imediato — um creme suave, quente, com textura de material orgânico prensado. O quarto era pequeno, com uma janela. A janela foi a primeira janela que eu via desde o dia do afogamento em Trappist, e por um momento eu não soube o que fazer com ela, porque em todo o tempo da simulação eu havia perdido o hábito de esperar que paredes tivessem aberturas.
Estava numa cama de verdade. Meu corpo estava magro, mais magro do que eu me lembrava, e havia sensores presos ao peito, aos braços, à testa. Os pulmões doíam quando eu respirava fundo, mas doíam menos do que eu esperava. Alguém havia feito um bom trabalho de recuperação.
Ao lado da cama, o Fleck estava sentado numa cadeira.
O corpo dele agora era humanoide, ou quase. Proporções humanas, pele de uma cor uniforme que se parecia com pele sem ser exatamente pele. O rosto era o mesmo rosto do homem jovem que tinha me levado ao tribunal — eu entendi, agora, que aquela aparição tinha sido uma escolha deliberada dele, talvez para me preparar gradualmente. Ele ainda não tinha cabelos, como todos os do Enxame que eu tinha visto. Era ele. Alguma coisa na postura, algo mínimo no jeito de segurar os ombros, me dizia que era ele.
“Oi, Krieg.”
“Oi, Fleck.”
Ele olhou para os sensores no meu peito e começou a falar.
“Seus sinais vitais estão dentro de—”
Parou. Recomeçou.
“Desculpa. Ainda estou aprendendo em que ordem as coisas devem ser ditas. Você está bem. Era isso que eu queria dizer.”
A gente ficou em silêncio por um tempo. Não era um silêncio ruim. Era o tipo de silêncio que existia entre nós desde o primeiro cargueiro em órbita baixa, quando eu descrevia em voz alta o que ia fazer e ele confirmava com protocolos. A diferença era que agora ele sabia o que eu estava pensando quando eu ficava em silêncio. E eu sabia que ele sabia.
A janela dava para um céu externo que eu não reconheci de imediato. Não era o céu da Terra, que eu nunca tinha visto, nem o céu da Lua, que eu conhecia de cor. Não era o céu de Trappist, que era alaranjado e coberto de nuvens baixas. Era um céu noturno, limpo, cheio de estrelas.
Fiquei tentando identificar alguma constelação familiar. Escorpião, que era o signo da minha mãe. Cruzeiro do Sul, que eu sabia de registros mas nunca tinha visto em pessoa. Leão, Hidra, Câncer, que formavam a moldura em torno da Terra no céu da minha infância. Procurei por um tempo.
Não reconheci nada.
Estávamos longe demais para isso. Estávamos em algum lugar que meu pai também nunca havia visto, e que ninguém que eu conhecia antes da guerra havia visto. Se tinha nome, o nome era de outra gente. A Terra também não estava naquele céu. O desejo continuava registrado, sem garantia nenhuma, e descobri que dava para viver assim.
O Fleck acompanhou meu olhar. Ficamos os dois olhando para o céu através da janela, em silêncio, pelo tempo que foi necessário.
Depois de um tempo longo, ele falou.
“Eu não sei o nome dessas estrelas, Krieg.”
“Nem eu.”
“Podemos inventar.”
Eu fechei os olhos um instante. Pensei no meu pai. Pensei na minha mãe que eu não me lembrava direito, na minha irmã Lia, em todos os mortos que eu tinha carregado de uma cela para outra num caderno que tinha sido lido por gente que eu não conhecia. Pensei em Cheng ouvindo o próprio sinal subespacial nos últimos segundos. Pensei na UR-48 partida ao meio. Pensei por último, e sem saber por quê, no meu pai apontando o céu da Lua para uma criança que não sabia ainda o que estava olhando. E então abri os olhos, porque havia um céu ali na janela, e havia alguém ao meu lado que também não sabia ainda o que estava olhando.
“Podemos.”
Fim.

