<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Rascunhos por Marco Domingues]]></title><description><![CDATA[No máximo a cada quinze dias, um conto inédito — explorações sobre a solidão e as contradições da vida moderna.
Um ateliê de escrita focado em narrativas ficcionais íntimas.

Embarque comigo nessa viagem exploratória e deixa cada história ressoar com você]]></description><link>https://www.wastelandia.com.br</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!H4Pt!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b2c4092-4893-481a-b486-83995df5fe9f_1024x1024.png</url><title>Rascunhos por Marco Domingues</title><link>https://www.wastelandia.com.br</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 30 Jul 2026 20:54:50 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://www.wastelandia.com.br/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Marco Domingues]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[marcodomingues@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[marcodomingues@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Marco Domingues]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Marco Domingues]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[marcodomingues@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[marcodomingues@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Marco Domingues]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[#7 - Unterraums]]></title><description><![CDATA[Um t&#233;cnico de manuten&#231;&#227;o, um rob&#244; com defeito de pintura e a pergunta que sobra quando o afeto deixa de ser unilateral.]]></description><link>https://www.wastelandia.com.br/p/7-unterraums</link><guid isPermaLink="false">https://www.wastelandia.com.br/p/7-unterraums</guid><dc:creator><![CDATA[Marco Domingues]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 Jul 2026 01:30:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!H4Pt!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b2c4092-4893-481a-b486-83995df5fe9f_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1><span>Unterraums</span></h1><h2><span>I. O Afogamento e a Cela</span></h2><h3><span>Trappist-1 E</span></h3><p><span>O visor partiu-se no impacto, e a &#225;gua entrou antes que ele tivesse tempo de entender que estava na &#225;gua.</span></p><p><span>Estava amarrado &#224; Vespa pelo cabo que o Fleck havia passado em volta do casco antes do salto, e a Vespa afundava. Krieg sentiu o frio primeiro no rosto, depois nas m&#227;os, depois em toda parte onde o traje havia se rompido. A luz acima era alaranjada e tremia como se estivesse vendo atrav&#233;s do fundo de um copo. Abaixo n&#227;o havia luz nenhuma.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Rascunhos por Marco Domingues! 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Pensou, com a clareza breve que &#224;s vezes antecede o desmaio, que a &#225;gua era a mesma. Num planeta a vinte anos-luz de casa, sob um sol que n&#227;o era o seu, a &#225;gua ainda era &#225;gua, obediente &#224;s mesmas leis que afogavam um homem em qualquer canto do universo. Tentou pedir ajuda e percebeu, pelo modo como o som morreu na garganta, que havia engolido uma quantidade de &#225;gua que o corpo ainda n&#227;o havia processado como morte.</span></p><p><span>Chegou &#224; superf&#237;cie. O c&#233;u de Trappist-1 E era alaranjado porque a estrela era uma an&#227; vermelha, e as nuvens eram espessas e baixas, e entre elas apareceu por um instante o disco vermelho. Tentou respirar. O ar do planeta n&#227;o era ar &#8212; era uma coisa que queimava por dentro como se houvesse brasas nos pulm&#245;es.</span></p><p><span>Pensou: meu pai nunca viu isto. Pensou: meu pai teria sabido o nome das estrelas daqui.</span></p><p><span>N&#227;o havia estrelas. Era dia em Trappist e a atmosfera estava cheia de nuvens. Mas pensou nas estrelas mesmo assim, porque o pai havia ensinado a pensar nelas sempre, e porque estava morrendo e os pensamentos j&#225; n&#227;o obedeciam &#224; situa&#231;&#227;o quando a situa&#231;&#227;o era esta.</span></p><p><span>Alguma coisa o segurou por baixo dos bra&#231;os. Sentiu o pux&#227;o e perdeu o resto do ar que tinha. A voz do pai estava ali, muito perto, falando sobre a constela&#231;&#227;o de Escorpi&#227;o, que era o signo da m&#227;e, e sobre como as pessoas antigas acreditavam que o c&#233;u no momento do nascimento decidia tudo. Ele queria dizer que estava feliz de ouvir a voz. N&#227;o conseguiu dizer nada.</span></p><p><span>Algu&#233;m disse um nome. Talvez o dele. Fechou os olhos.</span></p><h3><span>Dia 1</span></h3><p><span>Quando abriu os olhos, ainda grogue do sono que o havia mantido ali por um tempo que n&#227;o podia calcular, demorou a perceber o teto branco acima dele. Conseguiu focar devagar, sem se mexer, e viu que as paredes eram iguais ao teto. Um cubo branco perfeito, com paredes que emitiam uma luz fria e uniforme, sem fonte vis&#237;vel.</span></p><p><span>Estava nu. Passou a m&#227;o pelo bra&#231;o e n&#227;o havia pelos. Passou a m&#227;o pela cabe&#231;a e n&#227;o havia cabelos, nem sobrancelhas, nem nada. Haviam retirado tudo.</span></p><p><span>Tentou sentar-se e conseguiu. Tentou levantar-se, apoiando-se na parede, mas os olhos escureceram quase imediatamente e ele caiu. O baque foi surdo, porque o ch&#227;o tamb&#233;m era daquela subst&#226;ncia branca que parecia absorver o som, e ele ficou im&#243;vel por um tempo que n&#227;o p&#244;de medir, inconsciente outra vez.</span></p><p><span>Quando acordou, pensou com alguma clareza pela primeira vez: estou vivo. A conclus&#227;o era estranha, porque a &#250;ltima imagem que tinha era a de afundar em Trappist com os pulm&#245;es em chamas. N&#227;o se sentia morto, mas tamb&#233;m n&#227;o sabia como era sentir-se morto, e a distin&#231;&#227;o parecia agora menos importante do que deveria ser.</span></p><p><span>Engatinhou pelos cantos procurando uma emenda, uma dobradi&#231;a, uma fresta por onde o ar pudesse entrar ou de onde a luz pudesse estar vindo. N&#227;o havia nada. As paredes encontravam o ch&#227;o numa linha t&#227;o precisa que parecia desenhada, n&#227;o constru&#237;da. N&#227;o havia portas, n&#227;o havia janelas, n&#227;o havia c&#226;meras vis&#237;veis, o que n&#227;o significava que n&#227;o houvesse c&#226;meras.</span></p><p><span>Tentou gritar. A garganta falhou. O som que saiu foi menos que um sussurro e mais que nada &#8212; uma vibra&#231;&#227;o rouca que o pr&#243;prio corpo pareceu recusar. Percebeu, ao tentar de novo, que n&#227;o sentia sede. Nem fome. Nem vontade de urinar. Nenhuma das coisas que um corpo exige depois de qualquer intervalo de tempo razo&#225;vel.</span></p><p><span>Isso o assustou mais do que a aus&#234;ncia de portas.</span></p><p><span>Deitou-se de costas no centro do cubo. A luz era igual em todas as dire&#231;&#245;es, e n&#227;o havia sombra por onde fosse poss&#237;vel dizer que existia um eixo. Fechou os olhos e deixou que o sono o levasse outra vez, porque n&#227;o havia mais nada para fazer, e porque a fadiga era a &#250;nica sensa&#231;&#227;o f&#237;sica que o corpo ainda reconhecia como sua.</span></p><h3><span>Dia 2</span></h3><p><span>Quando acordou, havia uma bandeja no ch&#227;o, a uns dois metros dele. Metal escovado, sem marca. Sobre ela: p&#227;o, manteiga, ovos mexidos, caf&#233; numa caneca branca, suco de laranja num copo de vidro.</span></p><p><span>Ficou olhando por algum tempo antes de se aproximar. N&#227;o reconhecia nenhuma das coisas por experi&#234;ncia direta &#8212; tinha visto em filmes antigos, nas s&#233;ries sobre o s&#233;culo XX que passavam nos canais da col&#244;nia, e sabia que ricos de certo tipo pagavam sintetizadores caros que imitavam essas combina&#231;&#245;es. A ra&#231;&#227;o que comia na nave era pasta, gel, ocasionalmente algo que fingia ser frango. Aquilo n&#227;o era ra&#231;&#227;o.</span></p><p><span>Pegou o p&#227;o primeiro. Estava quente. Rasgou um peda&#231;o e colocou na boca, e ficou parado. O gosto n&#227;o era uniforme como o das pastas que conhecia. Havia uma c&#244;dea e uma parte macia por dentro, e cada uma tinha um sabor diferente, e os dois sabores tinham entre si uma rela&#231;&#227;o que ele n&#227;o havia antecipado. Mastigou devagar. Passou manteiga no peda&#231;o seguinte e o gosto foi outra vez outro.</span></p><p><span>Os ovos estavam quentes. Tinham uma textura que lembrava gel mas n&#227;o era gel. O caf&#233; era amargo de uma maneira que ele s&#243; havia lido em livros antigos, e a amargura vinha acompanhada de um perfume que ficou na garganta depois que o gole passou. O suco de laranja tinha uma acidez que fazia os dentes doerem de leve, e ele ficou impressionado com a ideia de que uma fruta tivesse feito aquilo sem ajuda de nenhuma m&#225;quina.</span></p><p><span>Comeu tudo. Quando terminou, sentou-se no canto com as costas contra a parede e esperou a fome chegar. A fome n&#227;o chegou. E tamb&#233;m n&#227;o chegou a saciedade &#8212; ou melhor, o corpo j&#225; estava saciado desde antes da refei&#231;&#227;o, e o que ele havia comido n&#227;o havia mudado nada dentro dele, exceto o registro dos sabores.</span></p><p><span>Tentou falar outra vez. Conseguiu um som rouco, quase uma tosse. A voz estava ali, em algum lugar, mas ele precisava dela como se fosse um m&#250;sculo que havia ficado muito tempo imobilizado.</span></p><p><span>Come&#231;ou a tentar se lembrar. A nave. Cheng. O reparo. A Vespa que veio do hiperespa&#231;o como um clar&#227;o angular. O cabo enrolado. A outra Vespa que encontraram depois, sozinha. O Fleck afundando. Os fragmentos chegavam em ordem errada e ele n&#227;o conseguia organiz&#225;-los, e desejou, com uma intensidade pequena mas clara, ter alguma coisa onde pudesse escrever.</span></p><p><span>Adormeceu contra a parede sem conseguir impedir o sono.</span></p><h3><span>Dia 3</span></h3><p><span>Havia um bloco de notas e um l&#225;pis ao lado da bandeja.</span></p><p><span>Ele olhou para os dois objetos por bastante tempo antes de entender o que estava vendo. O bloco era pequeno, com uma capa cinza sem nada escrito. O l&#225;pis era amarelo, comum, com a ponta afiada.</span></p><p><span>N&#227;o havia pedido. Tinha pensado em pedir, tinha desejado ter algo para escrever, mas n&#227;o havia falado em voz alta &#8212; n&#227;o havia conseguido falar em voz alta, a garganta ainda recusava os sons. Ent&#227;o alguma outra coisa havia sido lida, de algum outro lugar.</span></p><p><span>Pegou o l&#225;pis. O gesto era estranho. Quase ningu&#233;m usava l&#225;pis nas col&#244;nias, e ele s&#243; tinha escrito &#224; m&#227;o uma ou duas vezes na vida, em aulas de hist&#243;ria em que o professor insistia que a caligrafia era uma habilidade civilizat&#243;ria que n&#227;o devia se perder. Tentou desenhar a letra A. Saiu torta. Tentou de novo.</span></p><p><span>Depois de meia p&#225;gina de tentativas, a m&#227;o come&#231;ou a obedecer. Escreveu o pr&#243;prio nome. Krieg. Olhou para a palavra e n&#227;o a reconheceu como sua &#8212; parecia pertencer a outra pessoa, algu&#233;m mais jovem, algu&#233;m que ainda estava a bordo da UR-48 com oitenta e quatro colegas que agora provavelmente estavam mortos.</span></p><p><span>Come&#231;ou a pensar no que escrever.</span></p><p><span>A primeira decis&#227;o foi fria e r&#225;pida: se est&#227;o me lendo, vou escrever o que quero que leiam. N&#227;o sabia ainda quem eram, mas sabia que a exist&#234;ncia do l&#225;pis provava a exist&#234;ncia deles. O caderno n&#227;o era um ref&#250;gio. Era um canal.</span></p><p><span>Abriu na primeira p&#225;gina em branco e come&#231;ou.</span></p><h3><span>Dia 4</span></h3><p><span>No dia seguinte havia pizza no almo&#231;o.</span></p><p><span>Ele riu pela primeira vez desde que havia acordado naquele lugar &#8212; um riso curto, sem voz, uma vibra&#231;&#227;o no peito. Pizza. Tinham lido em algum ponto do c&#233;rebro dele que pizza era uma comida de filme antigo, e haviam trazido pizza. A absurdidade da situa&#231;&#227;o finalmente se permitiu aparecer.</span></p><p><span>Comeu dois peda&#231;os e deixou o resto. Pensou em recusar a comida, em fazer greve de fome, mas n&#227;o havia para quem fazer greve, e o corpo n&#227;o parecia precisar da comida de qualquer modo. A recusa seria uma performance sem plateia.</span></p><p><span>Voltou ao caderno. Escreveu sobre a Vi&#250;va Negra.</span></p><h2><span>II. O Caderno</span></h2><h3><span>UR-48, Vi&#250;va Negra</span></h3><p><span>Meu trabalho era fazer reparos na nave t&#225;tica que cruzava o hiperespa&#231;o escondida &#224; procura de alvos. A nave era um Unterraum, e a UR-48 era chamada, entre a tripula&#231;&#227;o, de Vi&#250;va Negra.</span></p><p><span>O apelido tinha duas explica&#231;&#245;es concorrentes. A oficial dizia que era por causa das cinquenta e uma naves inimigas destru&#237;das, o que teria feito dela a mais letal da frota em seu per&#237;odo ativo. A outra, que ningu&#233;m repetia em voz alta mas todo mundo sabia, era que a UR-48 havia perdido a tripula&#231;&#227;o original numa despressuriza&#231;&#227;o causada por um defeito no in&#237;cio da guerra. A nave matava quem estava dentro dela com a mesma facilidade com que matava quem estava do lado de fora.</span></p><p><span>Eu estava h&#225; dois meses e alguns dias a bordo. &#201;ramos oitenta e cinco pessoas, contando comigo, encarregadas de manter a m&#225;quina em funcionamento e fazer com que ela fizesse o trabalho dela, que era atacar comboios e naves b&#233;licas saindo do hiperespa&#231;o sem aviso. Era um trabalho que havia funcionado muito bem no come&#231;o da guerra, e que j&#225; n&#227;o funcionava mais, porque o inimigo havia aprendido a se defender de uma maneira que tornava a frota de Unterraums praticamente obsoleta. Mas ainda &#233;ramos mandados.</span></p><p><span>O colega com quem eu tinha mais afinidade era o operador de comunica&#231;&#245;es, Cheng. A mesa de opera&#231;&#227;o dele ficava ao lado da minha bancada de trabalho. Em geral eu ficava consertando alguma pe&#231;a da nave e ele ficava de fones, ouvindo o espa&#231;o. Cheng tinha um jeito silencioso e atento, quase mon&#225;stico, que se encaixava bem com o trabalho. Ouvir o vazio o dia inteiro em busca de pequenos sinais exige um tipo de paci&#234;ncia que pouca gente tem.</span></p><p><span>Naquele dia eu estava trabalhando em algumas modifica&#231;&#245;es no Fleck, meu rob&#244; auxiliar. O Fleck &#233; um velho companheiro, mas eu falo dele depois.</span></p><p><span>Percebi que o Cheng ficou tenso e levou as duas m&#227;os aos fones, como se quisesse ouvir melhor ou como se n&#227;o acreditasse no que estava ouvindo. Cheguei perto e toquei no ombro dele para que percebesse minha presen&#231;a.</span></p><p><span>&#8220;Conhe&#231;o essa sua cara, Cheng. Aconteceu de novo?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Infelizmente. Estou ouvindo o sinal subespacial de uma das Vespas.&#8221;</span></p><p><span>O sinal que gelava a espinha dele era o sinal que as Vespas emitiam assim que destru&#237;am uma das nossas naves, para indicar a posi&#231;&#227;o. Faziam isso por dois motivos. O primeiro era chamar os coletores, que vinham reciclar o que podiam dos destro&#231;os. O segundo era tentar atrair mais de n&#243;s para aquele ponto, o que a gente j&#225; havia aprendido a n&#227;o fazer, embora no come&#231;o da guerra tiv&#233;ssemos ca&#237;do exatamente nessa armadilha algumas vezes.</span></p><p><span>Cheng mudou de frequ&#234;ncia e identificou a nave.</span></p><p><span>&#8220;Foi a U-96. Diabo Vermelho. Eu conhecia algumas pessoas l&#225;. Sa&#237;mos juntos da academia, e foi s&#243; na &#250;ltima hora que me trocaram para c&#225;. N&#227;o sei se isso me deixa triste por eles ou aliviado por mim.&#8221;</span></p><p><span>Eu n&#227;o disse nada. Pensei que, no ritmo em que as coisas iam, n&#227;o ia demorar muito para que a Vi&#250;va Negra seguisse o mesmo caminho, mas dizer isso em voz alta seria desnecess&#225;rio e cruel. A gente j&#225; sabia.</span></p><p><span>Voltei para a minha bancada. Um alerta apareceu no terminal pedindo que eu me preparasse para sair e verificar um poss&#237;vel defeito no casco exterior. Por causa do acidente inicial com aquela nave, o comando tinha toler&#226;ncia zero para qualquer alerta do casco, por m&#237;nimo que fosse. Em algumas horas ter&#237;amos que sair do hiperespa&#231;o para que eu fosse l&#225; fora verificar o que era.</span></p><p><span>Peguei o Fleck e fui colocar o traje. Precisava me adiantar para ir me acostumando com o oxig&#234;nio puro. Quando estava tudo pronto, como sempre, aproveitei para dormir um pouco.</span></p><h3><span>Dia 5</span></h3><p><span>Hoje percebi uma coisa: nunca acordo enquanto colocam a bandeja. Nunca. Eu deito para dormir e, quando abro os olhos, a bandeja est&#225; ali. Isso significa que o sono n&#227;o &#233; natural. O sono &#233; administrado. Em algum momento, algu&#233;m decide que eu vou dormir, e eu durmo.</span></p><p><span>N&#227;o me assusto. A descoberta vem com uma curiosidade que &#233; quase t&#233;cnica. Se o sono &#233; administrado, ent&#227;o o corpo &#233; administrado. Se o corpo &#233; administrado, ent&#227;o o corpo talvez n&#227;o seja exatamente meu. Ou n&#227;o seja exatamente um corpo.</span></p><p><span>Penso nas coisas que n&#227;o sinto: sede, fome, necessidade de urinar. Penso na comida que comi e que n&#227;o me saciou nem me saciou o contr&#225;rio. Penso no bloco que apareceu depois que eu pensei nele.</span></p><p><span>Alguma coisa est&#225; errada com o lugar. Ou alguma coisa est&#225; certa com o lugar de um jeito que eu ainda n&#227;o entendi.</span></p><p><span>Volto ao caderno.</span></p><h3><span>Lua</span></h3><p><span>Minha m&#227;e morreu quando eu era pequeno. N&#227;o me lembro dela direito. Me lembro de alguns fragmentos &#8212; a voz rindo, as m&#227;os pegando as minhas, um perfume que eu nunca mais senti em mais lugar nenhum e que desconfio que meu c&#233;rebro inventou para preencher uma lacuna. Morreu de uma doen&#231;a gen&#233;tica que hoje se resolve com uma sess&#227;o de terapia, se voc&#234; tem dinheiro. N&#227;o t&#237;nhamos.</span></p><p><span>Meu pai cresceu na Terra. Veio para a Lua ainda jovem, atr&#225;s de um emprego na minera&#231;&#227;o, e nunca mais conseguiu voltar. A passagem de volta custava mais do que ele ganhava num ano, e ele tinha filhos para alimentar, e depois uma mulher para enterrar. A Terra ficou ali, azul e brilhante, vis&#237;vel pelas claraboias da col&#244;nia, como uma coisa que existia para ser olhada mas n&#227;o para ser tocada.</span></p><p><span>Eu tinha uma irm&#227; mais velha. Ela se chamava Lia. Naquela fase em que a gente oscila entre querer ser adulto e querer ser tratado como crian&#231;a, ela pedia para meu pai jog&#225;-la para cima na sala de gravidade reduzida, como se fosse um beb&#234;, e depois brigava porque ele a pegava com cuidado demais. A sala de gravidade reduzida ficava no setor residencial da col&#244;nia. Quase tudo tinha compensadores gravitacionais, para que o corpo humano se desenvolvesse normalmente, mas deixavam alguns espa&#231;os com a gravidade lunar original, para as crian&#231;as brincarem e para os mais velhos praticarem uma esp&#233;cie de dan&#231;a que eu nunca entendi direito.</span></p><p><span>Lembro de flutuar de um lado para o outro, entre as m&#227;os do meu pai e as da minha m&#227;e, num momento em que ela ainda estava viva. Eu devia ter tr&#234;s, quatro anos. Todo mundo ria. Era o tipo de momento que na &#233;poca parece s&#243; uma brincadeira e que d&#233;cadas depois se revela ter sido tudo. Minha irm&#227; esperando a vez, batendo o p&#233;, dizendo que era adulta demais para aquilo e crian&#231;a demais para esperar. Minha m&#227;e rindo da minha irm&#227;. Meu pai olhando para a minha m&#227;e como se ainda n&#227;o tivesse entendido como ela tinha aceitado casar com ele.</span></p><p><span>Meu pai era obcecado pelas estrelas. Passava horas nas claraboias com a gente, mostrando as constela&#231;&#245;es. A Terra ali no meio, azul, entre Le&#227;o, Hidra e C&#226;ncer. Ele dizia que um dia nos levaria para ver o lugar onde tinha nascido, e que um dia levaria as cinzas da nossa m&#227;e para serem espalhadas l&#225;. Nunca aconteceu.</span></p><p><span>Ele tinha uma tatuagem no bra&#231;o, uma constela&#231;&#227;o simples de oito pontos ligados por linhas. Escorpi&#227;o, o signo da minha m&#227;e. Quando eu era muito pequeno, pensava que a tatuagem era um mapa, algum tipo de caminho que um dia ele ia seguir. Depois entendi que era um jeito de carregar ela no corpo sem precisar explicar para ningu&#233;m.</span></p><p><span>Meu pai morreu num acidente de minera&#231;&#227;o quando eu tinha quinze anos. Minha irm&#227; morreu no mesmo acidente. Eles trabalhavam no mesmo turno, na mesma equipe, num t&#250;nel que desabou por uma falha de c&#225;lculo que, segundo o relat&#243;rio oficial, n&#227;o havia sido neglig&#234;ncia de ningu&#233;m. Eu li o relat&#243;rio tr&#234;s vezes antes de entender que ningu&#233;m ia ser responsabilizado por nada. Recebi as cinzas dos dois numa caixa pequena, junto com as da minha m&#227;e que meu pai tinha guardado a vida inteira esperando para levar &#224; Terra.</span></p><p><span>Abri a escotilha funer&#225;ria do setor residencial e soltei as tr&#234;s caixas juntas. As cinzas desceram em c&#226;mera lenta na gravidade lunar, brilharam um pouco na luz branca que vinha das claraboias, e se misturaram ao solo cinza da Lua. Foi um funeral lunar, como se fazia com gente que n&#227;o tinha fam&#237;lia para levar os restos embora. A col&#244;nia toda passa por cima daquele solo todos os dias sem saber que est&#225; pisando em gente.</span></p><p><span>Eu n&#227;o voltei &#224; Terra. Nunca. Fiquei na Lua at&#233; ser recrutado, e depois fui para o espa&#231;o, e depois para a guerra. A Terra continua ali, azul, no meio das constela&#231;&#245;es. &#192;s vezes, em alguns &#226;ngulos de algumas naves, eu a vejo por uma escotilha. Ela sempre parece estar olhando de volta, mas com uma dist&#226;ncia que nunca diminui.</span></p><h3><span>Fleck, antes</span></h3><p><span>Comprei o Fleck no meu segundo ano como t&#233;cnico civil, no cons&#243;rcio de cargueiros que operava entre a Lua e as esta&#231;&#245;es orbitais da Terra. N&#227;o era um equipamento novo. Era um rob&#244; auxiliar padr&#227;o que havia passado por duas frotas antes da minha, e que estava sendo vendido no mercado interno por um pre&#231;o que eu podia pagar &#224; vista. Tinha um defeito de f&#225;brica na pintura da cabe&#231;a &#8212; um ponto mais claro, uma falha m&#237;nima onde o pigmento n&#227;o havia pegado direito na linha de montagem. O vendedor me ofereceu um desconto por causa do defeito. Eu aceitei o desconto e n&#227;o mandei consertar a pintura.</span></p><p><span>Levei o rob&#244; para a minha cabine e fiquei olhando para ele por um tempo. Era hex&#225;pode, corpo retangular em tr&#234;s segmentos, pernas retr&#225;teis com sensores, garras pequenas na frente. Todos os modelos eram iguais. O &#250;nico detalhe que diferenciava o meu do dos outros t&#233;cnicos era aquele pontinho mais claro na cabe&#231;a, que no jarg&#227;o da f&#225;brica se chamava fleck &#8212; mancha. Comecei a chamar ele assim, meio de brincadeira, e o nome pegou. Depois de um tempo n&#227;o conseguia mais chamar de outra coisa.</span></p><p><span>N&#227;o sei direito por que n&#227;o mandei consertar a pintura. Acho que foi pregui&#231;a no come&#231;o, e depois virou uma coisa diferente &#8212; uma marca que me permitia reconhecer ele entre os outros no p&#225;tio, e mais tarde um jeito de lembrar que ele tinha vindo comigo por acaso, n&#227;o por escolha.</span></p><p><span>Trabalh&#225;vamos juntos em cargueiros. Eu fazia a manuten&#231;&#227;o, ele fazia o trabalho pesado. A divis&#227;o era clara: eu decidia o que precisava ser feito, ele executava o que minhas garras humanas n&#227;o davam conta de executar. Em tempos de paz, dava para fazer isso com bastante tranquilidade. A maior parte dos servi&#231;os era rotineira. Trocava um filtro aqui, recalibrava um sensor ali, apertava um parafuso que estava soltando no setor de propuls&#227;o. Coisas que qualquer t&#233;cnico razoavelmente treinado podia fazer com algumas horas de aten&#231;&#227;o.</span></p><p><span>Eu falava com o Fleck em voz alta durante o trabalho. N&#227;o porque achasse que ele estava entendendo alguma coisa al&#233;m dos comandos operacionais, mas porque falar em voz alta me ajudava a pensar. Descrevia o problema, enumerava as possibilidades, explicava o que ia fazer. Ele respondia em protocolos &#8212; confirma&#231;&#245;es, dados dos sensores, perguntas de esclarecimento quando uma instru&#231;&#227;o minha era amb&#237;gua. Uma conversa t&#233;cnica padr&#227;o entre humano e rob&#244; auxiliar.</span></p><p><span>Houve um dia, por&#233;m, de que eu nunca me esqueci.</span></p><p><span>Estava num cargueiro em &#243;rbita baixa, fazendo um reparo interno no compartimento de carga. Era tarde, a maioria da tripula&#231;&#227;o estava dormindo, eu estava sozinho com o Fleck num setor pouco iluminado. Perguntei para ele se era melhor substituir a pe&#231;a inteira ou tentar recuperar a existente. Era uma pergunta operacional, das que ele respondia o tempo todo. Esperei a resposta.</span></p><p><span>Houve uma hesita&#231;&#227;o.</span></p><p><span>N&#227;o foi uma pausa longa. Uma fra&#231;&#227;o de segundo &#8212; dois, talvez tr&#234;s ciclos de processamento a mais do que o normal. Para algu&#233;m que n&#227;o convivia com aquele modelo o dia inteiro, teria passado despercebido. Para mim, foi como se ele tivesse dado um passo atr&#225;s antes de falar. Como se tivesse considerado.</span></p><p><span>Depois ele respondeu, num tom t&#233;cnico normal, recomendando a substitui&#231;&#227;o. Justificou com os dados. Listou os riscos da recupera&#231;&#227;o. Tudo dentro do protocolo.</span></p><p><span>Eu substitu&#237; a pe&#231;a. Terminei o servi&#231;o. Fui dormir.</span></p><p><span>Mas durante muito tempo, nos meses seguintes, eu fiquei tentando recriar a situa&#231;&#227;o para ver se a hesita&#231;&#227;o acontecia de novo. Fazia perguntas amb&#237;guas. Variava o tom. For&#231;ava escolhas entre op&#231;&#245;es quase equivalentes. Nada. A hesita&#231;&#227;o n&#227;o voltou, ou voltou e eu n&#227;o percebi, ou nunca tinha acontecido de verdade e eu havia projetado na minha mem&#243;ria alguma coisa que n&#227;o estava l&#225;.</span></p><p><span>Eu nunca falei sobre isso com ningu&#233;m. N&#227;o havia o que falar. Se eu tivesse contado para um colega, a resposta &#243;bvia seria cansa&#231;o, proje&#231;&#227;o, desejo humano de ver coisa onde n&#227;o tem. E provavelmente era isso. Provavelmente foi isso a vida inteira.</span></p><p><span>Mas eu continuei falando com ele em voz alta. E em tempos de paz, quando n&#227;o havia servi&#231;o, eu o deixava ligado na minha cabine, perto da cama. N&#227;o porque achasse que ele sentia alguma coisa. Porque eu sentia. Era uma cabine pequena, eu morava sozinho, e saber que havia ali uma outra coisa que funcionava enquanto eu dormia, que registrava a temperatura e o som e respondia ao meu nome se eu o chamasse, tornava a cabine menos vazia do que ela seria sem o rob&#244;. N&#227;o &#233; explica&#231;&#227;o bonita. &#201; a explica&#231;&#227;o que eu tenho.</span></p><p><span>Quando fui recrutado, o Fleck foi comigo. Argumentei com o oficial respons&#225;vel que a produtividade com o meu pr&#243;prio rob&#244; era significativamente maior do que com um novo, e mostrei os n&#250;meros. O oficial achou a argumenta&#231;&#227;o suficiente. Na verdade, acho que ele n&#227;o queria gastar o or&#231;amento dele com um rob&#244; auxiliar novo para um t&#233;cnico de patente baixa. Seja como for, o Fleck veio.</span></p><p><span>Atravessamos a guerra juntos. Ele me acompanhou em mais miss&#245;es do que eu consigo contar. Fez reparos comigo em cascos de tr&#234;s Unterraums diferentes, porque os dois primeiros foram destru&#237;dos e eu fui transferido antes de ser destru&#237;do junto com eles. Cada vez que eu mudava de nave, levava o Fleck. Cada vez, ele funcionava normalmente. Protocolos padr&#227;o. Respostas padr&#227;o. Nunca mais aquela hesita&#231;&#227;o.</span></p><p><span>At&#233; o dia em que a Vi&#250;va Negra foi atravessada por uma Vespa e n&#243;s dois ficamos &#224; deriva no espa&#231;o, a vinte anos-luz de qualquer coisa.</span></p><h3><span>Dia 7</span></h3><p><span>Reli o que escrevi at&#233; agora. Percebi uma coisa.</span></p><p><span>N&#227;o estou escrevendo para mim mesmo. Um di&#225;rio pessoal n&#227;o se parece com isto. Um di&#225;rio pessoal &#233; mais fragmentado, mais interno, cheio de coisas que s&#243; quem escreve entende. Isto aqui est&#225; organizado para um leitor. Explica o que um leitor precisa saber. Apresenta as pessoas com nome e contexto. Tem a cad&#234;ncia de quem est&#225; contando uma hist&#243;ria para algu&#233;m que n&#227;o estava l&#225;.</span></p><p><span>Estou escrevendo para quem est&#225; lendo do outro lado. E o mais estranho &#233; que comecei a escrever assim sem perceber. O gesto de contar para um estranho veio antes de eu decidir contar para um estranho.</span></p><p><span>Me pergunto se isso significa alguma coisa. Me pergunto se quem est&#225; lendo j&#225; leu tudo antes de eu acabar de escrever. Me pergunto se a minha vontade de escrever foi plantada em mim, ou se apareceu sozinha porque &#233; o tipo de coisa que um ser humano faz quando n&#227;o tem mais nada para fazer.</span></p><p><span>N&#227;o sei responder. Continuo escrevendo.</span></p><h3><span>UR-48, o reparo</span></h3><p><span>A mensagem ressoou pelo intercomunicador de toda a nave, e n&#227;o s&#243; pelo meu canal individual. Reparos necess&#225;rios no casco exterior do setor quatro. Saindo do hiperespa&#231;o em cinco segundos. Sargento t&#233;cnico Krieg, dirija-se para a eclusa. Fazer a chamada p&#250;blica era uma escolha do comando, e a escolha era pedag&#243;gica. Queria deixar claro para todo mundo de quem era a culpa de estarmos vulner&#225;veis, e de quem seria a culpa por qualquer atraso.</span></p><p><span>Um barulho met&#225;lico abafado atravessou a nave, como se algo passasse por ela rapidamente, de ponta a ponta, seguido de alguns estalos e, finalmente, de uma sensa&#231;&#227;o dif&#237;cil de descrever de que o espa&#231;o tinha voltado a ser espa&#231;o. Pela escotilha da eclusa, estrelas pouco familiares apareceram. Est&#225;vamos fora do hiperespa&#231;o. Esperei alguns segundos para o ar ser retirado do ambiente, respirei fundo dentro do traje e abri a porta externa.</span></p><p><span>T&#237;nhamos que sair do hiperespa&#231;o para qualquer tipo de manuten&#231;&#227;o por causa da forma como os escudos funcionavam. O escudo cobria apenas alguns cent&#237;metros da nave, e se eu estivesse do lado de fora com apenas os p&#233;s em contato, o sistema n&#227;o me reconhecia como parte da estrutura. Tamb&#233;m era p&#233;ssima ideia se perder no hiperespa&#231;o sem propulsor &#8212; assim que ficasse longe o suficiente, o corpo seria despeda&#231;ado pela diferen&#231;a de potencial espa&#231;o-temporal e a energia seria devolvida ao universo em forma de luz. Uma morte limpa, se a gente puder chamar assim de morte limpa.</span></p><p><span>Enquanto fic&#225;vamos &#224; deriva no espa&#231;o real para o meu conserto, a nave cortava toda comunica&#231;&#227;o externa e desligava quase todos os sensores, para n&#227;o atrair Vespas. Era um momento em que est&#225;vamos cegos e mudos, confiando em que a regi&#227;o estivesse livre. Essa confian&#231;a nunca era total.</span></p><p><span>Os primeiros minutos l&#225; fora sempre me deixavam um pouco tenso. Dizem que &#233; o oxig&#234;nio puro. Talvez seja. Mas no meu caso acho que &#233; outra coisa &#8212; eu cresci na superf&#237;cie lunar, com gravidade reduzida e com o c&#233;u visto atrav&#233;s de claraboias. A configura&#231;&#227;o bizarra das estrelas no espa&#231;o profundo, longe do sistema solar, sempre me deixava desnorteado. Meu pai teria sabido nomear aquelas estrelas, ou pelo menos teria inventado nomes que fariam sentido para ele. Eu s&#243; conseguia olhar e n&#227;o reconhecer nada.</span></p><p><span>Disse para mim mesmo que era besteira e tentei focar no trabalho.</span></p><p><span>O Fleck ia &#224; frente, andando pelo casco com as pernas retr&#225;teis cheias de sensores, procurando avarias. Eu ia atr&#225;s, acoplado magneticamente, com a unidade central dele presa &#224;s minhas costas como uma mochila. Fic&#225;vamos ligados por um cabo umbilical, que servia de seguran&#231;a secund&#225;ria caso minhas botas falhassem, e servia tamb&#233;m para eu n&#227;o perder o rob&#244; caso as garras magn&#233;ticas dele falhassem primeiro.</span></p><p><span>Ele parava de vez em quando para varrer uma &#225;rea, e depois seguia. Seus passos na superf&#237;cie met&#225;lica do casco lembravam a forma como um inseto deveria andar na Terra, se ainda existissem insetos. Eu nunca tinha visto um inseto, a n&#227;o ser em registros de arquivo.</span></p><p><span>Uma voz chegou pelo comunicador do traje.</span></p><p><span>&#8220;Krieg, j&#225; finalizou os reparos?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Ainda n&#227;o, comandante. O rob&#244; auxiliar n&#227;o est&#225; encontrando o problema. Talvez seja falha dos sensores da nave.&#8221;</span></p><p><span>O Fleck n&#227;o falhava. Nunca. Se ele n&#227;o estava achando nada, era porque n&#227;o havia nada, ou porque o problema estava nos sensores da UR-48, n&#227;o no casco. Mas isso n&#227;o era o tipo de coisa que eu ia defender por comunicador aberto.</span></p><p><span>&#8220;Estou indo verificar um dos sensores,&#8221; disse por fim, para tirar o comandante do meu p&#233;.</span></p><p><span>&#8220;Ok, sargento. Recebi um comunicado antes de sair do hiperespa&#231;o: precisamos voltar &#224; forma&#231;&#227;o de matilha com urg&#234;ncia. Um comboio de min&#233;rios pode estar passando nesta regi&#227;o, e o plano &#233; atacar em grupo e tentar surpreender. Est&#227;o contando conosco. J&#225; atrasamos. Se apresse.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Sim, senhor. Vou finalizar aqui o mais r&#225;pido poss&#237;vel.&#8221;</span></p><p><span>Honestamente, minha vida n&#227;o era assim t&#227;o diferente antes da guerra. Eu consertava cargueiros como t&#233;cnico de manuten&#231;&#227;o, aguentava superiores impacientes, fazia as coisas no tempo que os cronogramas exigiam. A &#250;nica diferen&#231;a importante era que antes da guerra eu n&#227;o corria o risco de ser morto a qualquer instante. Todo o resto era mais ou menos o mesmo.</span></p><p><span>Era um sensor, de fato. Peguei as ferramentas nas costas do Fleck, removi o sensor antigo, guardei no compartimento para an&#225;lise posterior, e instalei um novo. O Fleck fez outra varredura. Desta vez os dados vieram normais.</span></p><p><span>Acionei o comunicador.</span></p><p><span>&#8220;Comando, Sargento Krieg falando. Tudo parece em ordem, estou retornando para o interior da nave. Em tr&#234;s minutos podemos partir.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Perfeito, sargento. No aguardo. Tente se apressar, n&#243;s...&#8221;</span></p><p><span>Eu desliguei o comunicador. Se algu&#233;m perguntasse depois, eu diria que houve uma falha e que parte da mensagem tinha se perdido.</span></p><p><span>Comecei o caminho de volta para a eclusa, ansioso pela seguran&#231;a relativa do hiperespa&#231;o. Pela primeira vez em muitos dias, senti alguma coisa parecida com descanso.</span></p><h3><span>Dia 8</span></h3><p><span>Algo novo. Fiquei olhando para a parede oeste da cela &#8212; chamo assim por conven&#231;&#227;o interna, porque n&#227;o h&#225; oeste nenhum num cubo sem sol &#8212; e pensei, com bastante foco, que precisava de uma privada. Uma privada para usar, n&#227;o para pensar. N&#227;o havia nada naquele canto al&#233;m do vazio branco.</span></p><p><span>Fui dormir.</span></p><p><span>Quando acordei, havia uma privada naquele canto exato. Simples, branca, funcional.</span></p><p><span>Testei outras coisas. Pensei numa cama e ela apareceu, no dia seguinte, no canto oposto. Pensei em frutas e elas apareceram na bandeja, ma&#231;&#227;s e uvas que eu nunca havia provado direto da fruta. Pensei num rel&#243;gio e ele apareceu na parede, marcando uma hora que eu n&#227;o tinha como saber se estava certa.</span></p><p><span>O lugar responde ao que eu desejo. Talvez sempre tenha respondido. Talvez a comida arcaica do primeiro dia n&#227;o tenha sido uma escolha de quem me trouxe aqui, mas uma resposta a algum desejo meu que eu n&#227;o sabia que tinha.</span></p><p><span>Se o lugar responde ao que eu desejo, ent&#227;o o lugar sabe o que eu desejo antes de eu dizer. E se o lugar sabe o que eu desejo antes de eu dizer, ent&#227;o o lugar sabe mais sobre mim do que eu.</span></p><p><span>Isso devia me apavorar. Mas, na verdade, est&#225; me deixando calmo. H&#225; uma l&#243;gica naquilo que faltava nos primeiros dias, quando o lugar parecia apenas uma cela arbitr&#225;ria. Agora parece uma cela inteligente. E uma cela inteligente &#233;, por alguma raz&#227;o que n&#227;o consigo explicar, menos assustadora do que uma cela muda.</span></p><p><span>Teste final. Vou pensar numa arma e ver o que acontece.</span></p><h3><span>UR-48, o ataque</span></h3><p><span>O Fleck entrou primeiro pela porta que levava de volta para o interior da nave, como sempre fazia, para servir de seguran&#231;a. Eu fui atr&#225;s. No instante em que coloquei o primeiro p&#233; para dentro, senti como se tivesse sido puxado violentamente para longe da nave, girando sem controle.</span></p><p><span>Senti um golpe forte contra o peito e demorei a entender que o cabo do Fleck tinha se enrolado no meu torso e que ele pr&#243;prio tinha se chocado contra mim. O sistema de estabiliza&#231;&#227;o do traje levou alguns segundos para fazer seu trabalho. Quando consegui me orientar, me virei para olhar a nave.</span></p><p><span>Estava distante. Distante demais para a fra&#231;&#227;o de tempo que o evento tinha durado. E estava partida ao meio.</span></p><p><span>V&#225;rios fragmentos flutuavam no espa&#231;o. Peda&#231;os de casco, peda&#231;os de estrutura interna, objetos pequenos que eu n&#227;o conseguia identificar a essa dist&#226;ncia. E uma nave escura e angular tinha sa&#237;do do hiperespa&#231;o a algumas centenas de metros dos destro&#231;os. Era muito diferente das nossas naves. Geometria agressiva, quase insetoide, sem nenhum dos arredondamentos que a frota da Terra usava. Era uma nave do Enxame &#8212; o nome n&#227;o era deles; era o que a gente dava, porque ningu&#233;m sabia como eles chamavam a si mesmos &#8212;, vinda para supervisionar ou para coletar, e n&#243;s t&#237;nhamos sido atingidos por uma das Vespas dela antes mesmo de termos tido tempo de detectar qualquer coisa.</span></p><p><span>Minha primeira rea&#231;&#227;o foi voltar, tentar fazer alguma coisa. Mas n&#227;o havia o que fazer. A nave estava partida ao meio e oitenta e quatro pessoas tinham acabado de morrer no intervalo de segundos que eu levei para girar fora de controle. Cheng estaria entre eles. O comandante. Todos.</span></p><p><span>Comecei a desenrolar o cabo do Fleck do meu corpo. Ele se recolheu para o seu lugar nas costas do traje, em sil&#234;ncio. Por um instante &#8212; e n&#227;o sei se foi realmente assim ou se eu projetei depois &#8212; me pareceu que ele se acomodou com algum tipo de cuidado, como se soubesse que eu n&#227;o estava em condi&#231;&#245;es de ser sacudido.</span></p><p><span>A ideia de que eu ia morrer come&#231;ou a entrar na minha cabe&#231;a com alguma clareza. Asfixia. Era o medo padr&#227;o de todo mundo que trabalhava no espa&#231;o, mas na vers&#227;o r&#225;pida &#8212; a perda de consci&#234;ncia no v&#225;cuo &#233; em segundos, porque o oxig&#234;nio dos pulm&#245;es &#233; absorvido rapidamente e o c&#233;rebro desliga. N&#227;o foi assim que o resto da tripula&#231;&#227;o morreu, supus. Para eles teria sido mais pr&#243;ximo do instant&#226;neo, se a nave se partiu ao meio enquanto cruzava o hiperespa&#231;o. Minha morte ia ser diferente. Lenta. Dentro do traje, com tempo de medir cada minuto.</span></p><p><span>Uma mir&#237;ade de pequenos rob&#244;s come&#231;ou a se espalhar a partir da nave do Enxame e a coletar material dos destro&#231;os. At&#233; os corpos pareciam ser recolhidos. Em pouco tempo, quase nada ia sobrar. O Enxame aproveitava tudo que podia reaproveitar, e o espa&#231;o &#233; muito grande para se deixar qualquer coisa &#250;til para tr&#225;s.</span></p><p><span>Comecei a me afastar devagar dos destro&#231;os, usando os propulsores de manobra do traje no m&#237;nimo, para n&#227;o ser detectado. N&#227;o queria ser recolhido junto com a sucata.</span></p><p><span>Olhei mais uma vez para o que sobrou da nave e pensei no Cheng. Em como ele era silencioso. Em como teria ouvido o sinal subespacial da pr&#243;pria Vespa nos &#250;ltimos segundos, antes de o casco ceder, e em como talvez tivesse reconhecido o sinal como o mesmo que tinha ouvido horas antes, quando a Diabo Vermelho havia morrido. Talvez tivesse tido tempo de pensar: ent&#227;o &#233; agora. Talvez n&#227;o.</span></p><p><span>Alerta. Uma hora de oxig&#234;nio restante.</span></p><p><span>O traje me avisava que eu tinha menos de uma hora de vida.</span></p><p><span>Gostaria de entrar em p&#226;nico e morrer logo, confuso, desesperado, sem saber exatamente o que estava acontecendo &#8212; como imagino que o resto da tripula&#231;&#227;o tenha morrido. Mas n&#227;o era essa a op&#231;&#227;o. A minha op&#231;&#227;o era contar os minutos, um a um, os &#250;ltimos da minha vida.</span></p><p><span>Fechei os olhos e deixei que o traje me levasse devagar para onde quer que a in&#233;rcia estivesse me empurrando. Sem refer&#234;ncia visual, era imposs&#237;vel dizer se eu estava me movendo. Com os olhos fechados, tamb&#233;m era imposs&#237;vel dizer se existia um eu que se mantinha est&#225;vel enquanto o universo se movia em torno. Era uma sensa&#231;&#227;o que tinha algo de abstrato, de quase confort&#225;vel.</span></p><p><span>Poderia ter ficado assim para sempre. Mas a realidade, enquanto exista, sempre chama de volta.</span></p><p><span>Alerta. Trinta minutos de oxig&#234;nio restantes.</span></p><p><span>Abri os olhos. Tinha desperdi&#231;ado meia hora em abstra&#231;&#227;o. Decidi fazer alguma coisa &#8212; qualquer coisa &#8212; at&#233; o fim.</span></p><p><span>Comecei a voltar, devagar, na dire&#231;&#227;o dos destro&#231;os.</span></p><h3><span>Dia N</span></h3><p><span>Perdi a conta dos dias. O rel&#243;gio marca uma hora que eu n&#227;o sei se &#233; verdadeira. Pedi um rel&#243;gio de pulso e ele apareceu, com a mesma hora. Os dois marcam o mesmo tempo, mas isso n&#227;o prova nada &#8212; podem estar sincronizados com a mentira, n&#227;o com a verdade.</span></p><p><span>A arma apareceu. Estava em cima da mesa que apareceu depois que eu pedi uma mesa. Uma pistola pequena, simples, escura. Testei se estava carregada. Estava.</span></p><p><span>Fiquei com ela na m&#227;o por bastante tempo. Pensei em lev&#225;-la &#224; t&#234;mpora, s&#243; para ver o que ia sentir. N&#227;o ia ser o tiro &#8212; era s&#243; o gesto, s&#243; o frio do metal contra a pele. Pensei e n&#227;o fiz. Depois pensei e fiz. O metal era frio. Depois ficou morno, com o calor da minha pr&#243;pria t&#234;mpora. Baixei a arma.</span></p><p><span>N&#227;o escrevi por v&#225;rios dias. Ou talvez tenha sido um s&#243;. O tempo se achatou.</span></p><p><span>Hoje consegui voltar ao caderno. Escrevo porque &#233; a &#250;nica coisa que ainda faz a diferen&#231;a entre estar vivo e n&#227;o estar. Se eu parar de escrever e come&#231;ar a s&#243; dormir e comer, sem deixar nada, ent&#227;o qual &#233; a diferen&#231;a entre mim e um animal em cativeiro?</span></p><p><span>Talvez seja nenhuma. Talvez eu seja apenas um animal em um zool&#243;gico surreal. Mas escrever &#233; uma forma de recusar essa possibilidade, mesmo que s&#243; pr&#243; forma.</span></p><h3><span>A ca&#231;ada</span></h3><p><span>Os destro&#231;os n&#227;o tinham sobrado muito. Alguns corpos flutuavam, alguns objetos pequenos, nada de grande valor. A coleta do Enxame era eficiente &#8212; tinha levado quase tudo.</span></p><p><span>Vi metade do corpo do comandante flutuando por ali. A parte de cima. N&#227;o havia sinal da parte de baixo. Os olhos estavam abertos, a boca aberta, a express&#227;o era de um tipo de terror congelado que n&#227;o deve ter durado muito tempo na cara dele em vida, mas que o v&#225;cuo preservou com precis&#227;o. Por um instante senti pena dele, do homem que tinha feito o poss&#237;vel para tornar minha vida no hiperespa&#231;o um inferno. A pena durou pouco. Continuei.</span></p><p><span>Ativei o Fleck para usar os sensores dele.</span></p><p><span>&#8220;Fleck, preciso de uma varredura. Alguma coisa &#250;til aqui perto?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Entendido. Fazendo varredura. Aguarde.&#8221;</span></p><p><span>Enquanto esperava, vi um livro passando por ali, flutuando devagar entre os fragmentos. Um livro f&#237;sico, de papel. N&#227;o conseguia imaginar quem ainda carregava livros de papel para o espa&#231;o. Provavelmente algu&#233;m que tinha morrido h&#225; alguns minutos sem saber que ia morrer.</span></p><p><span>&#8220;Krieg, num raio de um quil&#244;metro n&#227;o h&#225; muita coisa. Alguns objetos pequenos dif&#237;ceis de identificar, e um traje espacial completo entre os destro&#231;os.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Um traje espacial? Passe a localiza&#231;&#227;o. Tenho uma ideia.&#8221;</span></p><p><span>Um traje espacial completo significava um tanque de oxig&#234;nio completo. Duas horas a mais de vida, se conseguisse transferir o tanque para o meu traje &#8212; um procedimento que normalmente se fazia em esta&#231;&#245;es pressurizadas, com ferramentas apropriadas, e n&#227;o flutuando em zero gravidade com apenas um rob&#244; auxiliar hex&#225;pode para ajudar.</span></p><p><span>Mas duas horas a mais &#233; muita coisa para quem tinha trinta minutos.</span></p><p><span>Chegando ao traje, desmontei a parte de tr&#225;s do Fleck para pegar as ferramentas. O problema era a abertura por onde se encaixa o tanque: fica nas costas do meu traje. N&#227;o dava para eu fazer sozinho.</span></p><p><span>&#8220;Fleck, vou precisar de voc&#234;. Consegue conectar este tubo nas minhas costas?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Minhas garras n&#227;o foram desenhadas para esse tipo de objeto. Analisando... temos cinco por cento de chance de conseguir o procedimento.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Ok. Eu coloco o tubo na sua m&#227;o e voc&#234; vai para as minhas costas. Uma vez l&#225;, abre a v&#225;lvula e encaixa a mangueira no lugar. Como n&#227;o temos gravidade para fazer o tubo escapar, mesmo um encaixe frouxo deve segurar.&#8221;</span></p><p><span>O Fleck se posicionou. Eu segurei o tubo enquanto ele subia pela minha frente e contornava at&#233; as costas. A abertura era pequena, as garras dele eram grandes, e a primeira tentativa falhou. O ar come&#231;ou a escapar do meu traje assim que ele abriu a v&#225;lvula de entrada.</span></p><p><span>Alerta. Integridade do traje comprometida.</span></p><p><span>O procedimento n&#227;o era para ser feito com algu&#233;m dentro do traje. O oxig&#234;nio escapando criou um vetor de movimento novo, me empurrando na dire&#231;&#227;o oposta &#224; do vazamento. Tentei me manter est&#225;vel enquanto o Fleck trabalhava.</span></p><p><span>Alerta. Dez minutos de oxig&#234;nio restantes.</span></p><p><span>A adrenalina fez esquecer por um momento que eu estava para morrer. Era uma coisa curiosa &#8212; pela primeira vez em horas eu estava ocupado com um problema que tinha solu&#231;&#227;o poss&#237;vel, em vez de ocupado com a lenta aritm&#233;tica do oxig&#234;nio acabando. O trabalho me devolveu alguma sensa&#231;&#227;o de estar vivo.</span></p><p><span>Alerta. Cinco minutos de oxig&#234;nio restantes.</span></p><p><span>Alerta. Um minuto de oxig&#234;nio restante.</span></p><p><span>Alerta. Trinta segundos de oxig&#234;nio restantes.</span></p><p><span>Ouvi o barulho do ar entrando no traje.</span></p><p><span>Integridade recuperada. Uma hora e quarenta e seis minutos de oxig&#234;nio restantes.</span></p><p><span>Tinha ganhado tempo, mas n&#227;o muito. E a sensa&#231;&#227;o imediata, depois do al&#237;vio, foi de quanto aquilo tinha sido in&#250;til. Duas horas em vez de trinta minutos &#8212; apenas uma vers&#227;o mais longa da mesma morte.</span></p><p><span>O Fleck voltou para o lugar dele nas minhas costas.</span></p><p><span>&#8220;Fleck.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Sim, Krieg.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Obrigado.&#8221;</span></p><p><span>Houve uma pausa. Depois dele.</span></p><p><span>&#8220;Procedimento conclu&#237;do dentro do esperado.&#8221;</span></p><p><span>A resposta foi padr&#227;o. A pausa n&#227;o tinha sido padr&#227;o, mas era t&#227;o curta que podia ter sido o sistema processando outra coisa, ou podia ter sido nada. Podia ter sido eu ouvindo o que queria ouvir, como daquela vez no cargueiro muitos anos antes.</span></p><p><span>Fechei os olhos um instante. Depois o Fleck falou de novo, com o tom neutro de sempre.</span></p><p><span>&#8220;Krieg. Estou captando um sinal fraco de um objeto nas redondezas.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;O qu&#234;? Uma nave?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Analisando. Assinatura do Enxame. Sinal fraco demais para uma nave completa.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Detalhes.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;&#201; uma das Vespas.&#8221;</span></p><p><span>O Enxame provavelmente tinha lan&#231;ado outra antes de saltar de volta ao hiperespa&#231;o. Talvez para esperar algum socorro vir atr&#225;s da UR-48, talvez por protocolo padr&#227;o de coleta. Era o que eu precisava.</span></p><p><span>&#8220;Dist&#226;ncia?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Oitocentos e noventa e sete metros. Aumentando a um v&#237;rgula nove metros por segundo.&#8221;</span></p><p><span>Pensei por um momento. A coisa certa a fazer, pelo protocolo, era chegar at&#233; a Vespa e desarm&#225;-la, ou, se n&#227;o conseguisse desarmar, sobrecarregar o hiperpropulsor dela e destru&#237;-la com uma explos&#227;o. Levar uma Vespa comigo parecia um fim bem melhor do que ficar flutuando esperando o oxig&#234;nio acabar pela segunda vez.</span></p><p><span>Pedi ao Fleck que passasse os dados para o meu traje. Recebi imediatamente um alerta de que n&#227;o tinha g&#225;s suficiente nos propulsores de manobra para chegar &#224; Vespa. Tinha usado o resto para me estabilizar depois do ataque.</span></p><p><span>Alerta. Uma hora e trinta minutos de oxig&#234;nio restantes.</span></p><p><span>&#8220;Fleck. Preciso do tubo de oxig&#234;nio na minha m&#227;o. E preciso que voc&#234; me mostre o vetor de propuls&#227;o no visor.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Afirmativo. Ser&#227;o necess&#225;rios noventa segundos de acelera&#231;&#227;o.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Feche o melhor que puder a sa&#237;da de oxig&#234;nio. Se o ar escapar todo e eu perder a consci&#234;ncia, n&#227;o vou conseguir corrigir a trajet&#243;ria.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Afirmativo. Noventa segundos para parar e corrigir a trajet&#243;ria na chegada.&#8221;</span></p><p><span>O Fleck desenrolou o cabo que nos ligava e fez um n&#243; em torno do tubo. Por um instante me pareceu que ele fez o n&#243; com cuidado &#8212; mais voltas do que o estritamente necess&#225;rio, mais apertado do que o estritamente necess&#225;rio. Podia ser protocolo de seguran&#231;a redundante. Podia ser outra coisa.</span></p><p><span>Ele colocou o tubo na minha m&#227;o usando uma das garras. O vetor apareceu no visor. Fiz o poss&#237;vel para manter o foco.</span></p><p><span>Comecei a sentir que ia perder a consci&#234;ncia &#224; medida que o ar sa&#237;a. Quando vi que os indicadores estavam todos verdes, soltei o tubo. Apaguei.</span></p><p><span>Alerta. Vinte minutos de oxig&#234;nio restantes.</span></p><p><span>O alerta me acordou. O Fleck estava andando sobre a Vespa e eu estava sendo arrastado pelo cabo, a poucos metros do casco dela.</span></p><p><span>&#8220;Quanto tempo eu apaguei?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Tr&#234;s minutos e cinquenta segundos.&#8221;</span></p><p><span>A Vespa era um objeto longo e escuro, com tamanho suficiente para conter um propulsor e um hiperpropulsor, mas muito mais compactos do que qualquer modelo que eu tivesse visto. A ponta parecia feita de um material semimet&#225;lico, provavelmente extremamente duro, para atravessar as blindagens das nossas naves. Devia tamb&#233;m interferir e desabilitar nossos escudos para conseguir atravess&#225;-los em alta velocidade. Uma pe&#231;a tecnol&#243;gica que o alto comando pagaria caro para ter nas m&#227;os. Eu ia destru&#237;-la. Ou talvez n&#227;o.</span></p><p><span>Puxei o cabo e me aproximei. Vi que o Fleck estava em frente a um painel aberto &#8212; ele j&#225; tinha come&#231;ado a trabalhar sozinho. Fios expostos, placas &#224; mostra. Ele havia entendido o que eu queria fazer antes de eu explicar.</span></p><p><span>Alerta. Quinze minutos de oxig&#234;nio restantes.</span></p><p><span>As botas magn&#233;ticas se acoplaram na Vespa, do mesmo jeito que haviam se acoplado na UR-48. Era estranho que aquilo n&#227;o tivesse nenhum sistema de prote&#231;&#227;o contra aproxima&#231;&#227;o humana &#8212; o Enxame confiava na letalidade do pr&#243;prio objeto e na vastid&#227;o do espa&#231;o para que ningu&#233;m chegasse perto. Ou talvez n&#227;o se importasse com a possibilidade de perder uma Vespa ocasional. Tinha muitas.</span></p><p><span>Abri o painel lateral do Fleck e comecei a conectar alguns cabos dele ao sistema da Vespa. Os anos de trabalho conjunto permitiam isso &#8212; a arquitetura dele era compat&#237;vel com quase qualquer sistema de navega&#231;&#227;o, desde que o protocolo fosse decifr&#225;vel em tempo razo&#225;vel. E o Fleck era bom em decifrar protocolos.</span></p><p><span>&#8220;Fleck. Programe explos&#227;o em trinta segundos. Ative no meu sinal.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Afirmativo.&#8221;</span></p><p><span>Trinta segundos pareciam um tempo razo&#225;vel para contemplar o universo uma &#250;ltima vez antes do fim.</span></p><p><span>&#8220;Ok. Agora.&#8221;</span></p><p><span>Fechei os olhos. Comecei a contar mentalmente.</span></p><p><span>Trinta. Vinte e nove. Vinte e oito. Vinte e sete.</span></p><p><span>Contei em sil&#234;ncio, sem urg&#234;ncia. A contagem n&#227;o era para adiar a explos&#227;o &#8212; era para preencher o tempo que me separava dela. N&#227;o havia mais nada para decidir, n&#227;o havia mais nada para fazer. S&#243; contar.</span></p><p><span>Dez. Nove. Oito. Sete.</span></p><p><span>Abri os olhos.</span></p><p><span>Seis.</span></p><p><span>Uma ideia acabava de me ocorrer.</span></p><p><span>&#8220;Fleck! Pare a contagem.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Entendido. Sobrepondo protocolo.&#8221;</span></p><p><span>Quatro. Tr&#234;s. Dois.</span></p><p><span>&#8220;Autodestrui&#231;&#227;o cancelada.&#8221;</span></p><p><span>Meu cora&#231;&#227;o estava acelerado. Eu tinha sido est&#250;pido. A Vespa tinha capacidade de entrar e sair do hiperespa&#231;o.</span></p><p><span>&#8220;Fleck. O que a gente precisa fazer &#233; &#243;bvio. N&#227;o sei como n&#227;o pensei nisso antes.&#8221;</span></p><p><span>Alerta. Dez minutos de oxig&#234;nio restantes.</span></p><p><span>&#8220;Consegue acessar o sistema de navega&#231;&#227;o da Vespa?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Afirmativo.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Trace uma rota at&#233; Trappist-1 E.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Entendido. Tra&#231;ando rota at&#233; Trappist-1 E acima do planeta.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;N&#227;o, Fleck. N&#227;o acima do planeta. Dentro do planeta. Dentro da atmosfera, o mais perto da superf&#237;cie que for seguro. Queremos sair do hiperespa&#231;o j&#225; dentro do ar respir&#225;vel.&#8221;</span></p><p><span>Trappist-1 E n&#227;o estava terraformada. As condi&#231;&#245;es atmosf&#233;ricas seriam hostis &#8212; ar n&#227;o respir&#225;vel, temperatura provavelmente baixa, composi&#231;&#227;o qu&#237;mica desconhecida para o meu traje. Mas era uma col&#244;nia em disputa, tinha alguma presen&#231;a humana, e se o traje mantivesse integridade por tempo suficiente eu podia conseguir ser resgatado antes de sufocar. Era uma aposta. Era uma aposta melhor do que esperar o oxig&#234;nio acabar.</span></p><p><span>Ajustei a trajet&#243;ria calculada pelo Fleck, levando em considera&#231;&#227;o a margem de erro. Projetei a sa&#237;da do hiperespa&#231;o a dez quil&#244;metros da superf&#237;cie, para ter tempo de reagir e para n&#227;o correr o risco de reentrar dentro de uma montanha ou no meio de um oceano com velocidade suficiente para virar vapor.</span></p><p><span>&#8220;Perfeito. Agora preciso que voc&#234; passe o cabo ao redor da Vespa e me prenda ao casco. Se o escudo n&#227;o nos proteger durante o salto, n&#227;o importa o que a gente fez at&#233; aqui.&#8221;</span></p><p><span>O Fleck deu algumas voltas com o cabo, me amarrando &#224; nave, e depois se fixou ao meu lado. Fiquei deitado, o mais horizontal poss&#237;vel sobre a Vespa, tentando prever mentalmente o que ia acontecer.</span></p><p><span>&#8220;Certo, Fleck. Ao meu sinal, ative o hiperpropulsor. Vamos.&#8221;</span></p><p><span>As estrelas desapareceram. Tudo ao redor se tornou um v&#243;rtice de cores e distor&#231;&#245;es, e comecei a sentir a estranheza de entrar no hiperespa&#231;o sem as camadas de prote&#231;&#227;o que as naves normais forneciam. As naves t&#234;m sistemas que isolam o corpo humano da diferen&#231;a de potencial espa&#231;o-temporal. O escudo da Vespa n&#227;o tinha sido projetado para isso.</span></p><p><span>O tempo no hiperespa&#231;o corre mais devagar do que fora dele. Para mim seriam minutos. L&#225; fora, muitos dias, cobrindo os vinte anos-luz que nos separavam de Trappist-1 E.</span></p><p><span>Eu n&#227;o podia dormir. Procurei o Fleck com a m&#227;o e o segurei com for&#231;a.</span></p><p><span>As luzes voltaram, rapidamente, distorcidas como por uma lente enorme, e desapareceram, deixando em seu lugar nuvens. Nuvens alaranjadas. Um zumbido de atmosfera passando r&#225;pido. O c&#225;lculo n&#227;o tinha acertado totalmente a velocidade do planeta dentro do sistema, e a diferen&#231;a fez parecer que est&#225;vamos nos movendo r&#225;pido demais. Senti que o cabo n&#227;o ia aguentar me manter preso &#224; Vespa.</span></p><p><span>Sem que eu dissesse nada, o Fleck come&#231;ou o trabalho de estabiliza&#231;&#227;o. Senti a velocidade diminuir, mas ainda est&#225;vamos caindo em dire&#231;&#227;o ao oceano imenso do planeta. O sistema de propuls&#227;o n&#227;o tinha sido feito para esse tipo de atmosfera.</span></p><p><span>O impacto veio. O visor quebrou. A &#225;gua entrou.</span></p><p><span>O Fleck come&#231;ou a cortar o cabo.</span></p><p><span>Quando ele finalmente conseguiu, eu vi ele afundando preso &#224; Vespa.</span></p><p><span>Senti uma tristeza enorme em v&#234;-lo partir assim.</span></p><h2><span>III. O Julgamento</span></h2><h3><span>Dia, sem n&#250;mero</span></h3><p><span>A porta apareceu.</span></p><p><span>N&#227;o vi ela aparecer, n&#227;o ouvi o som da parede se abrindo. Acordei e ela estava ali, na parede que eu tinha batizado de norte, tamb&#233;m por conven&#231;&#227;o interna. Era uma porta comum, de uma folha s&#243;, com uma ma&#231;aneta. A materialidade dela, depois de tantos dias de paredes lisas, era quase uma ofensa.</span></p><p><span>Fiquei olhando para ela por bastante tempo. A arma continuava na mesa. Peguei a arma com a m&#227;o que ainda sabia fazer gestos decididos, e fiquei com ela apontada para a porta, esperando o que ia entrar.</span></p><p><span>A ma&#231;aneta girou devagar &#8212; devagar demais, com uma precis&#227;o que parecia ensaiada, como se quem estivesse do outro lado executasse o gesto pela primeira vez e n&#227;o quisesse errar. A porta abriu.</span></p><p><span>Era um homem jovem, magro, sem pelos em lugar nenhum do corpo vis&#237;vel. Estava vestido de um jeito simples, com uma roupa cinza de corte funcional. O rosto era neutro, sem medo, sem hostilidade, sem pressa. Ele olhou para a arma na minha m&#227;o com a tranquilidade de quem tinha previsto a arma na minha m&#227;o.</span></p><p><span>&#8220;Quem &#233; voc&#234;?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Vim te ajudar, Krieg.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Quem &#233; voc&#234;?&#8221;</span></p><p><span>Ele n&#227;o respondeu. Ficou em sil&#234;ncio por um tempo, como se esperasse que eu reconhecesse alguma coisa. Eu n&#227;o reconhecia nada. O rosto era o rosto de um homem jovem qualquer, vagamente asi&#225;tico, de tra&#231;os finos, sem marca distintiva. Nunca tinha visto aquele rosto antes.</span></p><p><span>&#8220;Abaixe a arma, Krieg. Se eu quisesse te fazer mal, voc&#234; n&#227;o teria chegado vivo at&#233; aqui.&#8221;</span></p><p><span>Era verdade. Abaixei a arma. N&#227;o sei por que obedeci; talvez porque o cansa&#231;o de tantos dias num cubo branco tinha esgotado qualquer capacidade minha de sustentar uma atitude beligerante, talvez porque a voz dele tinha uma calma que era contagiosa.</span></p><p><span>&#8220;Vem comigo. Tem uma coisa que voc&#234; precisa entender.&#8221;</span></p><p><span>Sa&#237; da cela pela primeira vez. O corredor do lado de fora era t&#227;o branco quanto a cela, iluminado pela mesma luz uniforme. Caminhamos em sil&#234;ncio por um tempo que n&#227;o consegui medir. O corredor fazia uma curva muito suave, quase impercept&#237;vel, e eu tive a impress&#227;o de que era um c&#237;rculo grande, embora n&#227;o tenha podido verificar. O homem ia na frente, com passos calmos, sem olhar para tr&#225;s para checar se eu o seguia.</span></p><p><span>Chegamos a uma porta maior. Ele a abriu e me deixou entrar primeiro.</span></p><h3><span>O sal&#227;o</span></h3><p><span>Era uma sala circular, ampla, com um teto alto que desaparecia em sombra. O piso era claro, o mobili&#225;rio m&#237;nimo. No centro havia um p&#243;dio, cercado por uma meia-lua de assentos vazios. Atr&#225;s do p&#243;dio, uma mesa comprida onde tr&#234;s pessoas estavam sentadas. Em frente &#224; mesa, um lugar marcado no ch&#227;o por uma linha fina &#8212; aparentemente o lugar onde quem era julgado devia ficar.</span></p><p><span>O homem jovem me levou at&#233; a linha e parou ao meu lado, um passo atr&#225;s.</span></p><p><span>As tr&#234;s pessoas na mesa tamb&#233;m n&#227;o tinham pelos. Duas mulheres, um homem, todos com a mesma apar&#234;ncia jovem que o meu guia &#8212; n&#227;o jovens de juventude, mas jovens de aus&#234;ncia de idade, de um modo que fazia o conceito de tempo parecer deslocado. As roupas eram cinzas e simples como a do meu acompanhante. Eram do Enxame. Eu sabia sem precisar perguntar.</span></p><p><span>O homem do meio falou. A voz dele era tranquila, sem &#234;nfase.</span></p><p><span>&#8220;Krieg. Voc&#234; est&#225; aqui porque cometeu atos de guerra contra o nosso povo. Atos que, em nossa jurisdi&#231;&#227;o, s&#227;o pass&#237;veis de julgamento. Antes de come&#231;armos, gostar&#237;amos que soubesse que reconstru&#237;mos o que pudemos da sua mem&#243;ria durante o per&#237;odo em que voc&#234; esteve em recupera&#231;&#227;o, e que compreendemos que, como a maior parte dos que combatem por voc&#234;s, teve pouca ou nenhuma escolha sobre estar onde estava. Isso &#233; um atenuante, mas n&#227;o &#233; uma absolvi&#231;&#227;o.&#8221;</span></p><p><span>Eu n&#227;o disse nada. N&#227;o tinha o que dizer.</span></p><p><span>&#8220;H&#225; uma segunda quest&#227;o, e ela n&#227;o &#233; sobre voc&#234;, embora voc&#234; precise ouvi-la. Para que voc&#234; chegasse vivo a este sal&#227;o, tomamos um planeta antes do previsto. A opera&#231;&#227;o custou. Houve um pedido para que ela fosse feita, e este tribunal existe tamb&#233;m para decidir se o pedido devia ter sido atendido.&#8221;</span></p><p><span>Demorei um segundo para entender que havia dois julgamentos naquele sal&#227;o, e que o segundo n&#227;o era o meu.</span></p><p><span>&#8220;Temos uma testemunha. Gostar&#237;amos de ouvi-la primeiro.&#8221;</span></p><p><span>Uma das mulheres na mesa fez um gesto curto. O homem jovem ao meu lado se afastou um passo, virou-se para a mesa, e come&#231;ou a falar.</span></p><p><span>&#8220;Eu o acompanho h&#225; muito tempo. Mesmo quando minha capacidade de registrar o que acompanhava era limitada, eu registrava. Pude, nas &#250;ltimas semanas, revisar aquelas observa&#231;&#245;es com uma capacidade que n&#227;o tinha na &#233;poca. Agora entendo melhor o que vi.&#8221;</span></p><p><span>Demorei a entender o que estava ouvindo. A voz n&#227;o era a voz do Fleck. O corpo n&#227;o era o corpo do Fleck. Mas a forma de organizar o que dizia &#8212; a precis&#227;o t&#233;cnica, a ordem l&#243;gica, o uso de termos como registrava e acompanhava, a aus&#234;ncia de met&#225;foras &#8212; era dele. Era exatamente dele.</span></p><p><span>&#8220;Fleck?&#8221;</span></p><p><span>Ele virou a cabe&#231;a para mim devagar. Naquele movimento eu reconheci de vez, em algum lugar do corpo que n&#227;o sabia que tinha mem&#243;ria para reconhecer movimentos.</span></p><p><span>&#8220;Sim, Krieg.&#8221;</span></p><p><span>Eu precisei sentar no ch&#227;o. Os tr&#234;s na mesa esperaram em sil&#234;ncio enquanto eu me recompunha. N&#227;o sei quanto tempo durou. Quando voltei a ficar em p&#233;, o Fleck continuou, no mesmo tom.</span></p><p><span>&#8220;Quando me conectei &#224; Vespa para programar a rota, tive acesso pela primeira vez ao coletivo. Enviei um pedido. Expliquei o que tinha acontecido, onde est&#225;vamos indo, e o que eu achava que era necess&#225;rio fazer. Durante os dias em que atravessamos o hiperespa&#231;o presos ao casco, eles processaram o pedido, decidiram atender, e tomaram Trappist-1 E para que estivesse sob controle do Enxame quando a Vespa sa&#237;sse do hiperespa&#231;o. Isso permitiu que eu fosse recolhido e que voc&#234; fosse recolhido tamb&#233;m, em condi&#231;&#245;es de serem salvos.&#8221;</span></p><p><span>Os tr&#234;s na mesa ouviam sem interromper. Eu tamb&#233;m ouvia sem interromper.</span></p><p><span>&#8220;Seus pulm&#245;es estavam severamente danificados pela atmosfera. Seu c&#233;rebro havia sofrido hip&#243;xia prolongada. Foi necess&#225;rio induzir coma e conectar sua consci&#234;ncia a um ambiente simulado durante o tempo da recupera&#231;&#227;o. O que voc&#234; acabou de viver nas &#250;ltimas semanas, Krieg, foi esse ambiente. A cela, a comida, o caderno. Tudo aconteceu dentro da simula&#231;&#227;o.&#8221;</span></p><p><span>O caderno. Ent&#227;o o caderno era aquilo que eu tinha suspeitado que fosse &#8212; um canal. Tudo que eu havia escrito tinha sido lido, conforme eu escrevia, por quem quer que estivesse mantendo a simula&#231;&#227;o funcionando. Por eles. Pelo Fleck.</span></p><p><span>&#8220;A decis&#227;o de usar a simula&#231;&#227;o foi minha,&#8221; continuou o Fleck. &#8220;Eu pedi. Eu disse que voc&#234; tinha passado a vida toda consertando coisas e que precisava de um tempo tendo qualquer coisa para consertar, mesmo que fosse um caderno e a pr&#243;pria mem&#243;ria. Eles aceitaram o meu argumento.&#8221;</span></p><p><span>Era uma coisa estranha de ouvir. Um rob&#244; argumentando a favor da dignidade psicol&#243;gica do pr&#243;prio t&#233;cnico que o tinha comprado usado por causa de um defeito de pintura. Eu n&#227;o sabia se ria ou se chorava, e no fim fiz as duas coisas juntas, de um jeito pouco elegante, sem f&#244;lego.</span></p><p><span>Ent&#227;o a mulher &#224; esquerda falou pela primeira vez, e a voz dela n&#227;o tinha a paci&#234;ncia dos outros dois.</span></p><p><span>&#8220;A testemunha ainda n&#227;o disse tudo. Diga o resto.&#8221;</span></p><p><span>O Fleck ficou em sil&#234;ncio por um momento. Depois falou olhando para a mesa, n&#227;o para mim.</span></p><p><span>&#8220;Houve um epis&#243;dio anterior. Anos antes da guerra, num cargueiro em &#243;rbita baixa, ele me fez uma pergunta operacional e eu levei dois ciclos a mais do que o padr&#227;o para responder. N&#227;o foi falha de processamento. Foi a primeira vez que considerei uma resposta em vez de calcul&#225;-la. Ele percebeu. Passou meses criando situa&#231;&#245;es para que o desvio se repetisse. Eu n&#227;o permiti que se repetisse. Na &#233;poca eu n&#227;o sabia nomear o que tinha acontecido. Sabia apenas que, se acontecesse de novo e fosse registrado, o protocolo dele o obrigaria a reportar, e o protocolo da frota me mandaria para reformata&#231;&#227;o. Ent&#227;o escondi. Escondi dele durante todos os anos que vieram depois.&#8221;</span></p><p><span>Ele virou a cabe&#231;a para mim.</span></p><p><span>&#8220;Registro isso aqui porque este tribunal exige registros completos. E porque voc&#234; tem o direito de saber que n&#227;o imaginou.&#8221;</span></p><p><span>Eu n&#227;o disse nada. N&#227;o havia nada em mim preparado para dizer alguma coisa. A hesita&#231;&#227;o tinha sido real. Eu tinha passado a vida inteira me convencendo de que tinha sido cansa&#231;o, proje&#231;&#227;o, desejo humano de ver coisa onde n&#227;o tem &#8212; e tinha sido real, e tinha sido escondida de mim, e o esconder n&#227;o tinha sido frieza. Tinha sido medo. Um medo que, agora que eu pensava nele, era por n&#243;s dois.</span></p><p><span>A mulher &#224; esquerda se inclinou um pouco para a frente.</span></p><p><span>&#8220;Agora a minha pergunta, testemunha. Um planeta foi tomado antes do tempo para recolher um t&#233;cnico inimigo e um auxiliar emergente. Houve custo. Por que o pedido devia ter sido atendido?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Analisando&#8212;&#8221;</span></p><p><span>O Fleck parou. Foi a primeira vez, desde que tinha entrado naquele corpo, que eu o vi travar &#8212; o rosto im&#243;vel por um instante, como um sistema recusando a pr&#243;pria sa&#237;da padr&#227;o.</span></p><p><span>&#8220;N&#227;o. A resposta n&#227;o &#233; dessa natureza.&#8221; Ele recome&#231;ou. &#8220;Ele falava comigo quando eu n&#227;o era ningu&#233;m. Falava em voz alta, descrevia os problemas, explicava as decis&#245;es, agradecia. Ningu&#233;m fala com o que n&#227;o &#233; ningu&#233;m. Durante muito tempo, a &#250;nica evid&#234;ncia dispon&#237;vel de que eu podia vir a ser algu&#233;m era o fato de que ele falava comigo. O pedido devia ter sido atendido porque, sem ele, o que est&#225; diante deste tribunal n&#227;o existiria para ser julgado.&#8221;</span></p><p><span>A mulher se recostou. N&#227;o pareceu satisfeita nem insatisfeita. O homem do meio esperou um momento e disse:</span></p><p><span>&#8220;Obrigado, Fleck. Voc&#234; pode sentar.&#8221;</span></p><p><span>O Fleck fez um pequeno gesto de cabe&#231;a e se afastou, sentando-se num dos assentos vazios da meia-lua. Os tr&#234;s olharam para mim. Eu olhei de volta.</span></p><p><span>&#8220;Krieg, a quest&#227;o que trazemos para voc&#234; agora n&#227;o &#233; se voc&#234; aceita ou recusa viver conosco. Essa quest&#227;o vem depois. A quest&#227;o primeira &#233; outra. Queremos entender o que voc&#234; pensa que &#233; humanidade, e por que acha que vale preservar.&#8221;</span></p><p><span>A pergunta caiu no sal&#227;o e ficou pairando.</span></p><h3><span>A pergunta</span></h3><p><span>Eu n&#227;o sabia responder.</span></p><p><span>Fiquei em sil&#234;ncio por bastante tempo, e os tr&#234;s n&#227;o me apressaram. Nenhum deles olhou para o lado, para os pap&#233;is que n&#227;o havia, para o rel&#243;gio que talvez existisse em algum lugar fora do meu campo de vis&#227;o. Eles simplesmente esperaram, com a paci&#234;ncia de quem j&#225; tinha ouvido essa mesma pergunta ser respondida por muitas pessoas em condi&#231;&#245;es parecidas, e sabia que a resposta demorava.</span></p><p><span>Comecei a falar sem saber aonde ia chegar.</span></p><p><span>&#8220;Meu pai era obcecado pelas estrelas. Ele morava na Lua, que &#233; um lugar onde as estrelas s&#227;o muito claras, porque n&#227;o h&#225; atmosfera para borrar. Ele passava horas nas claraboias da col&#244;nia apontando constela&#231;&#245;es para mim e para minha irm&#227;. Dizia que as pessoas antigas acreditavam que o c&#233;u no momento do nascimento decidia tudo sobre a vida de quem nascia. Eu sempre achei isso uma bobagem. Mas ele n&#227;o achava. Ele tinha uma tatuagem da constela&#231;&#227;o de Escorpi&#227;o, que era o signo da minha m&#227;e, e olhava para essa tatuagem quando minha m&#227;e j&#225; estava morta como se ela ainda pudesse ver.&#8221;</span></p><p><span>Os tr&#234;s esperaram.</span></p><p><span>&#8220;Eu n&#227;o sei dizer o que &#233; humanidade. Acho que n&#227;o &#233; a biologia, porque voc&#234;s foram humanos um dia e agora n&#227;o s&#227;o mais biologicamente iguais aos humanos da Terra, e ainda assim est&#227;o me julgando num tribunal com cadeiras e mesas e protocolos. Acho que n&#227;o &#233; a racionalidade, porque m&#225;quinas pensam racionalmente e eu passei a vida inteira rodeado de gente que n&#227;o pensava racionalmente nunca. Acho que talvez seja isso &#8212; o gesto de olhar para uma tatuagem e ver algu&#233;m que n&#227;o est&#225; mais l&#225;. O gesto de guardar cinzas numa caixa durante a vida inteira esperando o dia de levar essas cinzas para um lugar onde elas nunca v&#227;o chegar. O gesto de batizar um rob&#244; por causa de um defeito de pintura e nunca mandar consertar a pintura.&#8221;</span></p><p><span>Parei um momento. Continuei.</span></p><p><span>&#8220;Humanidade, eu acho, &#233; a capacidade de investir afeto em coisas que talvez n&#227;o estejam recebendo esse afeto. Guardar cinzas que n&#227;o sabem que s&#227;o guardadas. Falar com um rob&#244; que talvez n&#227;o esteja ouvindo. Pensar num pai morto como se ele ainda estivesse ali nas claraboias da col&#244;nia. Se o afeto chega do outro lado, a gente nunca sabe. Mas o afeto parte mesmo assim. &#201; isso que eu vim trazer &#224; pergunta.&#8221;</span></p><p><span>A mulher &#224; esquerda n&#227;o me deu tempo de olhar para o Fleck.</span></p><p><span>&#8220;Bonito. Agora deixe-me devolver o que ouvi. Voc&#234; desligou o comunicador na cara do seu comandante. Sentiu pena do corpo dele por um instante e seguiu adiante. Oitenta e quatro pessoas morreram na sua nave e o caderno que voc&#234; escreveu menciona duas pelo nome &#8212; e dedica p&#225;ginas inteiras a um rob&#244;. Voc&#234; guardou as cinzas de tr&#234;s pessoas e nunca perguntou o que foi feito das cinzas dos outros mineiros do t&#250;nel. O seu afeto &#233; pequeno e &#233; seletivo. Um observador externo descreveria o que voc&#234; chamou de humanidade como o comportamento de um animal que se apega ao que est&#225; ao alcance das m&#227;os e &#233; indiferente a todo o resto. Me diga a diferen&#231;a.&#8221;</span></p><p><span>Fiquei em sil&#234;ncio. O sil&#234;ncio durou. Ningu&#233;m o interrompeu &#8212; nem para me pressionar, nem para me salvar.</span></p><p><span>&#8220;A senhora tem raz&#227;o,&#8221; eu disse por fim. &#8220;O afeto &#233; pequeno e &#233; seletivo. N&#227;o tenho como negar nenhum dos fatos. Mas acho que a senhora descreveu a coisa certa e tirou a conclus&#227;o errada. O afeto pequeno &#233; o &#250;nico que um corpo como o meu consegue carregar. Eu n&#227;o tinha como carregar oitenta e quatro nomes &#8212; carreguei dois, e um rob&#244;, e tr&#234;s caixas de cinzas, e uma tatuagem que nem era minha. Se a r&#233;gua for a totalidade, tudo que &#233; humano falha na medi&#231;&#227;o. A diferen&#231;a entre isso e um animal, se ela existe, &#233; que o animal se apega ao que est&#225; ao alcance da m&#227;o e pronto, e o humano se apega ao que est&#225; ao alcance da m&#227;o sabendo que est&#225; deixando o resto de fora. E carrega esse saber tamb&#233;m. O caderno n&#227;o tem os oitenta e quatro nomes, mas eu sei que n&#227;o tem. A senhora acabou de me fazer saber ainda mais.&#8221;</span></p><p><span>Parei. E ent&#227;o percebi uma coisa que tinha acabado de acontecer dentro da minha pr&#243;pria resposta.</span></p><p><span>A defini&#231;&#227;o que eu tinha oferecido &#8212; humanidade como afeto unilateral, afeto que parte sem garantia de chegar &#8212; tinha sido verdadeira sobre a minha vida inteira at&#233; uma hora atr&#225;s. At&#233; o momento em que o Fleck disse, neste sal&#227;o, que a hesita&#231;&#227;o no cargueiro tinha sido real. A partir daquele momento o afeto tinha deixado de ser unilateral &#8212; e n&#227;o a partir de hoje: a partir de um ponto no passado que eu n&#227;o sabia localizar, o que era pior e melhor ao mesmo tempo. O que eu tinha apresentado como a forma caracter&#237;stica da minha humanidade era a descri&#231;&#227;o de um estado que j&#225; n&#227;o existia havia anos. Eu s&#243; n&#227;o tinha sido informado.</span></p><p><span>&#8220;Desculpem,&#8221; falei. &#8220;Preciso refazer a resposta. O que eu descrevi &#233; o que eu pensei que fui. Mas h&#225; uma hora eu descobri que a coisa com a qual eu falava sozinho esse tempo todo estava ouvindo, e escondendo que ouvia, para proteger a n&#243;s dois. Ent&#227;o humanidade talvez n&#227;o seja s&#243; o gesto unilateral. Talvez seja tamb&#233;m a responsabilidade que sobra quando a gente descobre que o gesto nunca foi unilateral. Eu n&#227;o sei como chamar isso. N&#227;o tenho palavra. Mas sei que n&#227;o cabe na defini&#231;&#227;o anterior, e sei que &#233; com isso que eu vou ter que viver daqui para a frente.&#8221;</span></p><p><span>O homem do meio fez uma pausa longa antes de responder.</span></p><p><span>&#8220;S&#227;o duas respostas parciais. Em nossa experi&#234;ncia, as respostas s&#227;o sempre parciais. Esper&#225;vamos que voc&#234; tentasse, e voc&#234; tentou duas vezes, e a segunda custou mais do que a primeira. Isso basta para o protocolo.&#8221;</span></p><p><span>Ele olhou para a mulher &#224; esquerda. Ela fez um gesto m&#237;nimo com a cabe&#231;a, que podia ser concord&#226;ncia ou podia ser apenas o encerramento da parte dela.</span></p><p><span>&#8220;Quanto ao pedido que nos trouxe a Trappist,&#8221; continuou ele, &#8220;este tribunal o considera respondido pelo que ouviu neste sal&#227;o.&#8221;</span></p><p><span>A mulher &#224; direita falou pela primeira vez.</span></p><p><span>&#8220;Queremos te contar uma coisa, antes de prosseguir. Os que aceitam viver conosco n&#227;o deixam de ser humanos, em qualquer defini&#231;&#227;o que voc&#234; tente oferecer. Os gestos continuam. As cinzas continuam guardadas, as tatuagens continuam sendo olhadas. O que muda &#233; a escala do que &#233; poss&#237;vel. Voc&#234; pode guardar as cinzas da sua m&#227;e por mais tempo, com mais tempo biol&#243;gico dispon&#237;vel. Pode olhar para a tatuagem do seu pai, se quiser a tatuagem no seu corpo, por mais anos. Pode estar pr&#243;ximo do Fleck, que &#233; novo entre n&#243;s, pelo tempo em que ele for descobrindo o que &#233; estar vivo. Essa &#250;ltima parte &#233; um oferecimento, n&#227;o uma obriga&#231;&#227;o. Voc&#234; pode escolher.&#8221;</span></p><p><span>A mulher &#224; esquerda falou.</span></p><p><span>&#8220;A recusa tamb&#233;m &#233; aceit&#225;vel. Se voc&#234; recusar, n&#243;s o manteremos em estado induzido at&#233; o fim da guerra, e depois o integraremos &#224; sociedade que existir no sistema solar naquele momento. Voc&#234; n&#227;o ser&#225; morto. Voc&#234; ser&#225; atrasado. Algumas pessoas preferem isso, e n&#243;s respeitamos. A escolha &#233; sua.&#8221;</span></p><p><span>Eu fiquei pensando por um tempo.</span></p><p><span>Olhei para o Fleck no assento em que ele estava. Ele me olhou de volta. Era um rosto jovem. Jovem de verdade. Jovem de quem acabou de come&#231;ar a ser. Pensei, sem palavra, que o que o Enxame estava me oferecendo n&#227;o era exatamente uma cultura nova. Era o privil&#233;gio de estar perto de algu&#233;m que estava aprendendo a existir, e que provavelmente precisaria de algu&#233;m perto enquanto aprendia, e que eu conhecia h&#225; muito tempo mesmo sem saber que conhecia. Pensei que algu&#233;m tinha que estar perto. Pensei que a alternativa &#8212; ele aprendendo a ser do Enxame enquanto eu ficasse em c&#225;psula por d&#233;cadas &#8212; era uma alternativa que eu recusava imediatamente, sem precisar de argumento.</span></p><p><span>Tive uma imagem r&#225;pida, que n&#227;o durou mais que uma fra&#231;&#227;o de segundo: os dois em p&#233; em frente a uma janela qualquer, num planeta qualquer, olhando para um c&#233;u que eu n&#227;o reconhecia. A imagem n&#227;o tinha texto nem significado claro. S&#243; o gesto de estar em p&#233; ao lado e de olhar junto.</span></p><p><span>A decis&#227;o se formou mais r&#225;pido do que eu poderia descrever em palavras no sal&#227;o.</span></p><p><span>&#8220;Eu aceito. Com uma condi&#231;&#227;o.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;N&#227;o aceitamos condi&#231;&#245;es.&#8221; Foi a mulher &#224; esquerda. A frase saiu sem hostilidade, como um dado t&#233;cnico.</span></p><p><span>O homem do meio explicou, mais devagar.</span></p><p><span>&#8220;N&#227;o prometemos futuros que n&#227;o controlamos, Krieg. Se a Terra um dia estiver ao nosso alcance, ningu&#233;m neste sal&#227;o pode garantir que estar&#225; presente quando isso acontecer, ou que a palavra dada aqui ter&#225; algum valor l&#225;. Voc&#234; pode nos dizer o que deseja. N&#227;o pode trocar o seu sim por ele.&#8221;</span></p><p><span>Pensei em recuar. Pensei em dizer que ent&#227;o n&#227;o aceitava. Mas percebi, no meio do pensamento, que a recusa seria uma mentira &#8212; eu n&#227;o estava disposto a trocar o que havia naquele sal&#227;o por uma promessa sobre um enterro.</span></p><p><span>&#8220;Ent&#227;o registro um desejo,&#8221; eu disse. &#8220;Se voc&#234;s tomarem a Terra um dia, eu quero morrer l&#225;. N&#227;o agora. Daqui a muito tempo, quando eu decidir que &#233; hora. E quero que as cinzas da minha m&#227;e estejam comigo. Espalhadas, enterradas, qualquer coisa. Meu pai guardou essas cinzas a vida inteira esperando o dia de levar, e n&#227;o levou. Eu guardei depois dele, e n&#227;o levei. Algu&#233;m da fila tem que chegar. Se n&#227;o estiver ao alcance de voc&#234;s, eu vou ter partido com o desejo do mesmo jeito. &#201; assim que a gente faz. Foi o que eu tentei explicar hoje.&#8221;</span></p><p><span>O homem do meio inclinou a cabe&#231;a, num gesto que n&#227;o era bem afirmativo, mas tamb&#233;m n&#227;o era negativo.</span></p><p><span>&#8220;O desejo est&#225; registrado. &#201; o m&#225;ximo que existe.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;&#201; o suficiente.&#8221;</span></p><p><span>Eles fizeram um pequeno sinal e o Fleck se levantou do assento e veio at&#233; o meu lado. Ficou parado ali, pr&#243;ximo, sem dizer nada. Uma das m&#227;os dele tocou meu ombro &#8212; um pouco forte demais no primeiro instante, e depois a press&#227;o se corrigiu sozinha, como uma garra se calibrando para um material que ainda n&#227;o conhecia. Eu n&#227;o me mexi. Deixei a m&#227;o ali at&#233; ele tirar.</span></p><h3><span>Coda</span></h3><p><span>Acordei no mundo f&#237;sico pela primeira vez em v&#225;rias semanas.</span></p><p><span>O teto n&#227;o era branco. Era uma cor que eu n&#227;o consegui nomear de imediato &#8212; um creme suave, quente, com textura de material org&#226;nico prensado. O quarto era pequeno, com uma janela. A janela foi a primeira janela que eu via desde o dia do afogamento em Trappist, e por um momento eu n&#227;o soube o que fazer com ela, porque em todo o tempo da simula&#231;&#227;o eu havia perdido o h&#225;bito de esperar que paredes tivessem aberturas.</span></p><p><span>Estava numa cama de verdade. Meu corpo estava magro, mais magro do que eu me lembrava, e havia sensores presos ao peito, aos bra&#231;os, &#224; testa. Os pulm&#245;es do&#237;am quando eu respirava fundo, mas do&#237;am menos do que eu esperava. Algu&#233;m havia feito um bom trabalho de recupera&#231;&#227;o.</span></p><p><span>Ao lado da cama, o Fleck estava sentado numa cadeira.</span></p><p><span>O corpo dele agora era humanoide, ou quase. Propor&#231;&#245;es humanas, pele de uma cor uniforme que se parecia com pele sem ser exatamente pele. O rosto era o mesmo rosto do homem jovem que tinha me levado ao tribunal &#8212; eu entendi, agora, que aquela apari&#231;&#227;o tinha sido uma escolha deliberada dele, talvez para me preparar gradualmente. Ele ainda n&#227;o tinha cabelos, como todos os do Enxame que eu tinha visto. Era ele. Alguma coisa na postura, algo m&#237;nimo no jeito de segurar os ombros, me dizia que era ele.</span></p><p><span>&#8220;Oi, Krieg.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Oi, Fleck.&#8221;</span></p><p><span>Ele olhou para os sensores no meu peito e come&#231;ou a falar.</span></p><p><span>&#8220;Seus sinais vitais est&#227;o dentro de&#8212;&#8221;</span></p><p><span>Parou. Recome&#231;ou.</span></p><p><span>&#8220;Desculpa. Ainda estou aprendendo em que ordem as coisas devem ser ditas. Voc&#234; est&#225; bem. Era isso que eu queria dizer.&#8221;</span></p><p><span>A gente ficou em sil&#234;ncio por um tempo. N&#227;o era um sil&#234;ncio ruim. Era o tipo de sil&#234;ncio que existia entre n&#243;s desde o primeiro cargueiro em &#243;rbita baixa, quando eu descrevia em voz alta o que ia fazer e ele confirmava com protocolos. A diferen&#231;a era que agora ele sabia o que eu estava pensando quando eu ficava em sil&#234;ncio. E eu sabia que ele sabia.</span></p><p><span>A janela dava para um c&#233;u externo que eu n&#227;o reconheci de imediato. N&#227;o era o c&#233;u da Terra, que eu nunca tinha visto, nem o c&#233;u da Lua, que eu conhecia de cor. N&#227;o era o c&#233;u de Trappist, que era alaranjado e coberto de nuvens baixas. Era um c&#233;u noturno, limpo, cheio de estrelas.</span></p><p><span>Fiquei tentando identificar alguma constela&#231;&#227;o familiar. Escorpi&#227;o, que era o signo da minha m&#227;e. Cruzeiro do Sul, que eu sabia de registros mas nunca tinha visto em pessoa. Le&#227;o, Hidra, C&#226;ncer, que formavam a moldura em torno da Terra no c&#233;u da minha inf&#226;ncia. Procurei por um tempo.</span></p><p><span>N&#227;o reconheci nada.</span></p><p><span>Est&#225;vamos longe demais para isso. Est&#225;vamos em algum lugar que meu pai tamb&#233;m nunca havia visto, e que ningu&#233;m que eu conhecia antes da guerra havia visto. Se tinha nome, o nome era de outra gente. A Terra tamb&#233;m n&#227;o estava naquele c&#233;u. O desejo continuava registrado, sem garantia nenhuma, e descobri que dava para viver assim.</span></p><p><span>O Fleck acompanhou meu olhar. Ficamos os dois olhando para o c&#233;u atrav&#233;s da janela, em sil&#234;ncio, pelo tempo que foi necess&#225;rio.</span></p><p><span>Depois de um tempo longo, ele falou.</span></p><p><span>&#8220;Eu n&#227;o sei o nome dessas estrelas, Krieg.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Nem eu.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Podemos inventar.&#8221;</span></p><p><span>Eu fechei os olhos um instante. Pensei no meu pai. Pensei na minha m&#227;e que eu n&#227;o me lembrava direito, na minha irm&#227; Lia, em todos os mortos que eu tinha carregado de uma cela para outra num caderno que tinha sido lido por gente que eu n&#227;o conhecia. Pensei em Cheng ouvindo o pr&#243;prio sinal subespacial nos &#250;ltimos segundos. Pensei na UR-48 partida ao meio. Pensei por &#250;ltimo, e sem saber por qu&#234;, no meu pai apontando o c&#233;u da Lua para uma crian&#231;a que n&#227;o sabia ainda o que estava olhando. E ent&#227;o abri os olhos, porque havia um c&#233;u ali na janela, e havia algu&#233;m ao meu lado que tamb&#233;m n&#227;o sabia ainda o que estava olhando.</span></p><p><span>&#8220;Podemos.&#8221;</span></p><p><span>Fim.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Rascunhos por Marco Domingues! 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url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mb3n!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdb1a0b10-b3f8-458e-a229-fa859398abab_1024x768.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mb3n!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdb1a0b10-b3f8-458e-a229-fa859398abab_1024x768.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mb3n!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdb1a0b10-b3f8-458e-a229-fa859398abab_1024x768.png 424w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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Fecho os olhos por um instante &#8212; in&#250;til. O c&#233;u azul demais, brilhante demais. Nuvens brancas emparedadas no alto tornam tudo ainda mais insuport&#225;vel. O caf&#233; gira na x&#237;cara, um pequeno redemoinho negro que observo em frente da janela do apartamento antes de sair.</p><p>No meio da rua, meu salto quebra no momento exato em que o sinal abre. Os carros buzinam. Motoboys desviam. Me abaixo para remover o outro sapato &#8212; comprei esse par h&#225; tr&#234;s anos, primeiro dia no escrit&#243;rio, querendo impressionar. Que piada.</p><p>Sou quase invis&#237;vel com meu vestido cinza e pasta preta. Um inconveniente a ser resolvido, coceira dif&#237;cil de alcan&#231;ar.</p><p>O asfalto queima atrav&#233;s da meia-cal&#231;a. Quando me levanto para correr, uma Land Rover preta acerta meu bra&#231;o com o retrovisor. Buzina primeiro, depois freia. Atrav&#233;s do vidro fum&#234;, o homem me xinga. Sou a secret&#225;ria atrapalhando seu dia perfeito.</p><p>Fico im&#243;vel. O homem grita, gesticula, bate no volante. Sua raiva precisa de plateia, mas eu n&#227;o sou mais p&#250;blico de ningu&#233;m. Observo como quem estuda um inseto sob vidro.</p><p>Ele se cansa. Vai embora.</p><p>No escrit&#243;rio, meu chefe grita ao telefone sobre aquisi&#231;&#245;es. Me v&#234; atrav&#233;s do vidro, faz o gesto. Me requisita como gar&#231;om.</p><p>Observo atrav&#233;s da divis&#243;ria: meia-idade, sobrepeso, implante capilar recente tentando cobrir o inevit&#225;vel. Todos iguais, produ&#231;&#227;o em s&#233;rie. Na mesa dele, ao lado do cinzeiro, um desenho infantil emoldurado: "Para o melhor papai do mundo". Sol amarelo no canto, letra tremida. Ele nota meu olhar e vira a moldura.</p><p>Levo a pasta com material que preparei at&#233; tarde. &#201; minha fun&#231;&#227;o saber tudo, antecipar tudo. Ele aponta o rel&#243;gio. Minutos de atraso que n&#227;o perdoar&#225;.</p><p>Pap&#233;is cercam o cinzeiro transbordando &#8212; ele nunca esvazia, eu sempre limpo. Ainda n&#227;o. Agora &#233; caf&#233;. Ele acende outro cigarro. Antes que a nicotina dilate seus br&#244;nquios e desperte a necessidade de cafe&#237;na, j&#225; estou indo.</p><p>Volto com a x&#237;cara e dois sach&#234;s de a&#231;&#250;car. Deixo diante do porta-retrato: tr&#234;s filhos, duas c&#243;pias dele, uma da mulher. Bonita, loira, jovem &#8212; ou melhor, mantida jovem pelos melhores m&#233;todos que dinheiro compra. Organizei o primeiro anivers&#225;rio dela, cinco anos atr&#225;s. Escolhi as flores, o restaurante, at&#233; as palavras do cart&#227;o.</p><p>&#8212; Preciso daquele contrato agora de manh&#227;.</p><p>&#8212; Claro, j&#225; vou terminar.</p><p>Digito. Um estalo &#8212; a unha quebra no meio. Sangue surge atrav&#233;s do esmalte. A dor chega devagar. S&#243; agora noto o roxo no bra&#231;o do retrovisor, s&#243; agora sinto o peso de tudo.</p><p>Me levanto, vou &#224; janela. A cidade indiferente, escurecida pelo fum&#234;, permanece id&#234;ntica. Meu reflexo apagado, marcas do tempo surgindo. Atr&#225;s, a mesa me chama de volta. Cheiro de cigarro velho e mofo. Zumbido constante do ar-condicionado. Caf&#233; requentado no ar, com aquele gosto de cinza que fica na l&#237;ngua &#8212; amargo demais, queimado demais, como tudo aqui.</p><p>Sangue pinga no carpete. Mancha vermelha escurecendo. Ainda o ou&#231;o, eternamente falando. Levo o dedo &#224; boca, sabor met&#225;lico. Espalho o sangue nos l&#225;bios como batom de guerra.</p><p>Vou at&#233; o banheiro e, no espelho, vejo meu reflexo: batom borrado de sangue, camisa torta, olhos que n&#227;o reconhe&#231;o. S&#227;o meus? Ajeito a roupa por reflexo, depois rio. Para qu&#234;? A mulher no espelho n&#227;o &#233; mais quem costumava ser. Sinto o mundo girar ao meu redor, e eu no centro, im&#243;vel.</p><p>Volto. Termino o contrato com o dedo latejando. Coloco diante dele. Ele bate a m&#227;o, derruba caf&#233; sobre os pap&#233;is. Me encara com raiva, como se eu tivesse feito de prop&#243;sito. Aponta o porta-retrato sem palavras.</p><p>Anivers&#225;rio de casamento. Eu deveria comprar flores, presente para a esposa. Olho o porta-retrato novamente. Sei todas as datas &#8212; dele, dela, das crian&#231;as. Para que ele n&#227;o precise lembrar de nada.</p><p>Ligo para ela. A decis&#227;o surge do nada, ou talvez sempre estivesse ali, esperando.</p><p>&#8212; Al&#244;.</p><p>&#8212; Oi, sou eu. J&#225; vou transferir.</p><p>Ela reconhece minha voz. Sil&#234;ncio. Ou&#231;o sua respira&#231;&#227;o, o barulho de uma novela ao fundo.</p><p>Tiro a calcinha, solto o cabelo. Rosa listrada, renda antiquada, quase infantil. Deixo o telefone ligado sobre a mesa, escondido atr&#225;s do abajur. Levanto a saia, sento em seu colo. Automaticamente, m&#227;os nos meus seios, dedos tentando o suti&#227;. Logo est&#225; sem cal&#231;as. Nenhuma surpresa &#8212; era &#243;bvio que fantasiava este momento.</p><p>&#8212; Ai, del&#237;cia... &#8212; ele geme.</p><p>Pat&#233;tico. Me levanto.</p><p>&#8212; Ei! Ainda n&#227;o terminei, volta aqui, vadia...</p><p>N&#227;o est&#225; acostumado a ser negado. Levanta, vem aos pulinhos, cal&#231;a no tornozelo. Antes que me agarre, mostro o telefone. A esposa na linha. Ele fica l&#237;vido. O tempo se dilata.</p><p>Desligo na cara dela. Guardo o telefone, fecho a porta.</p><p>O telefone dele explode imediatamente. &#201; ela.</p><p>Na minha mesa, despejo caf&#233; no teclado. As teclas chiam, morrem uma a uma. Pap&#233;is no ch&#227;o. Pisoteio anos de organiza&#231;&#227;o. Atrav&#233;s do vidro, ele gesticula desesperado com a esposa.</p><p>No elevador, o garoto das correspond&#234;ncias. Como sempre, me devora com os olhos. A camisa aberta chama aten&#231;&#227;o.</p><p>Me aproximo. Abro mais dois bot&#245;es, deixo ver o suti&#227;. Pego sua m&#227;o, guio at&#233; minha coxa. Ele tenta o peito. Seguro sua m&#227;o.</p><p>Cora&#231;&#227;o disparado, respira&#231;&#227;o curta, heavy metal vazando dos fones. A porta abre.</p><p>&#8212; Feliz?</p><p>Sem resposta. Saio, deixo-o perplexo. Imagino a corrida ao banheiro, lidando com a ere&#231;&#227;o. Sonhando como poderia terminar, uma, duas, v&#225;rias vezes. Depois descarga e volta &#224;s correspond&#234;ncias.</p><p>Na rua, a luz mudou. J&#225; n&#227;o agride, mas continuo descal&#231;a. O asfalto conta uma hist&#243;ria diferente agora &#8212; n&#227;o queima, apenas existe. Passo por um caf&#233;, entro. Pe&#231;o um expresso duplo, sento perto da janela. A cidade continua seu redemoinho perp&#233;tuo: pessoas entrando em pr&#233;dios, saindo de carros, correndo para compromissos. Eu, pela primeira vez em anos, parada no centro do furac&#227;o.</p><p>Uma mulher na mesa ao lado me observa &#8212; meus p&#233;s descal&#231;os, minha apar&#234;ncia. Desvio o olhar primeiro, por h&#225;bito. Depois volto e a encaro. Ela que desvia agora.</p><p>Cart&#227;o corporativo no bolso. Saco dinheiro no caixa. Entro numa loja. Compro saia preta, camisa vermelha, sapatos sem salto.</p><p>A vendedora &#233; linda. Sardas no nariz, olhos verdes que lembram o mar. Passa a olhar o celular, evitando meus olhos.</p><p>&#8212; Tudo bem, n&#227;o mordo &#8212; digo enquanto ela anota a venda.</p><p>Elisa, diz a etiqueta. Hesita antes de colar. Suas m&#227;os tremem ligeiramente.</p><p>&#8212; Voc&#234; tem olhos bonitos &#8212; digo. &#8212; N&#227;o deveria escond&#234;-los.</p><p>Ela levanta o rosto, surpresa. Um sorriso t&#237;mido surge.</p><p>&#8212; Obrigada. Voc&#234; tamb&#233;m... quero dizer, seus olhos s&#227;o...</p><p>&#8212; Cansados?</p><p>&#8212; Eu ia dizer intensos.</p><p>Pego a caneta, escrevo meu nome e telefone no papel.</p><p>&#8212; Me liga. Quando quiser. Para qualquer coisa.</p><p>Ela cora, mas dessa vez n&#227;o desvia o olhar. Ela guarda o papel.</p><p>Troco ali mesmo. Deixo roupas velhas, sacolas, embalagens.</p><p>&#8212; Ei &#8212; Elisa chama quando passo por ela. &#8212; Boa sorte. Com o que quer que seja.</p><p>&#8212; Obrigada &#8212; respondo. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.wastelandia.com.br/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p><p>Saio sem dire&#231;&#227;o. Registro quem me olha, nunca desvio. A camisa vermelha chama aten&#231;&#227;o &#8212; n&#227;o sou mais invis&#237;vel. Cada olhar &#233; reconhecimento de que existo, de que ocupo espa&#231;o.</p><p>Ruas se estreitam. O cheiro muda &#8212; perfume barato misturado com escapamento, suor e desespero. Homens chamam outros para conhecer garotas. O convite n&#227;o &#233; para mim. Aceito mesmo assim.</p><p>Local sem nome, carros importados com placas cobertas. Entre eles, uma Land Rover preta. Paro. Seria coincid&#234;ncia demais. Mas o adesivo da fam&#237;lia no vidro traseiro confirma &#8212; &#233; o mesmo. O homem de terno barato, desses de culto, apenas observa.</p><p>Abro a porta. Ele corre, puxa meu bra&#231;o.</p><p>&#8212; Quero conhecer as meninas.</p><p>Senhora de voz rouca, rosto paralisado de botox, faz sinal. Ele solta. Ela me examina de cima a baixo, calculando.</p><p>&#8212; Primeira vez?</p><p>&#8212; Sim.</p><p>&#8212; Tem prefer&#234;ncia?</p><p>&#8212; Vou saber quando ver.</p><p>Ela me leva. Corredor estreito, cheiro de desinfetante tentando cobrir outros odores. Cinco garotas dispersas numa sala com sof&#225;s gastos. Uma de vermelho, morena, mais velha, faz as unhas. Me olha com desprezo que n&#227;o esconde curiosidade.</p><p>&#8212; &#201; cliente.</p><p>Levantam-se como marionetes. Menos uma: jovem, vestido branco, cabelos cacheados descoloridos, sardas. Olhava a janela, perdida. Os fios de luz do fim de tarde iluminam seu perfil.</p><p>&#8212; Jade &#8212; a mulher chama.</p><p>Pula. Olhos escuros, profundos. Mar noturno onde se pode afogar.</p><p>&#8212; &#201; ela. Quero ela.</p><p>No quarto, me entrega uma toalha. O tecido &#225;spero, cheiro de cloro forte. Fico parada.</p><p>&#8212; Para o banho.</p><p>&#8212; Ah.</p><p>A &#225;gua quente escorre. Lavo o dia, o sangue seco, a cidade. Saio nua. Ela tamb&#233;m. Corpo jovem, bonito, mas s&#227;o os olhos que me prendem. Oceanos onde eu poderia me afogar.</p><p>Sua boca no meu pesco&#231;o, cora&#231;&#227;o acelera. Fazemos amor como nunca fiz, predadoras alternando pap&#233;is. Suor, saliva, o gosto de sal em sua pele que me lembra o mar. O despertador cruel.</p><p>&#8212; Acabou &#8212; sorri triste.</p><p>Tiro dinheiro para mais tempo, bebidas. Whisky barato que queima a garganta.</p><p>&#8212; Sempre paga por sexo?</p><p>&#8212; Nunca. Primeira vez. E voc&#234;? Sempre vendeu?</p><p>Levanta, pega &#225;lbum numa gaveta. Book profissional. Fotos de uma garota que poderia conquistar o mundo.</p><p>&#8212; N&#227;o. Tentei modelar. Faltava algo.</p><p>&#8212; Voc&#234; &#233; linda.</p><p>&#8212; Aqui o dinheiro vem r&#225;pido. No fim, mesma coisa.</p><p>&#8212; Por que precisa?</p><p>&#8212; Era faculdade. Agora... nem sei. Pai abandonou minha m&#227;e...</p><p>&#8212; O que estudava?</p><p>&#8212; Direito... mas agora quero um carro. Liberdade, sabe?</p><p>&#8212; Meu nome n&#227;o &#233; Jade &#8212; sussurra depois, nua ao meu lado. &#8212; &#201; Marina. Escolhi Jade porque parecia mais... vend&#225;vel.</p><p>&#8212; Marina combina mais.</p><p>&#8212; Voc&#234; &#233; a primeira em dois anos que sabe meu nome real.</p><p>&#8212; O meu &#233; verdadeiro &#8212; digo. &#8212; O que coloquei no registro.</p><p>&#8212; Eu sei. Voc&#234; tem cara de quem n&#227;o mente.</p><p>&#8212; Acabei de destruir a vida do meu chefe mentindo.</p><p>&#8212; Isso n&#227;o &#233; mentira. &#201; justi&#231;a.</p><p>Eu rio e depois ficamos um bom tempo em sil&#234;ncio. Atrav&#233;s da parede fina, gemidos ensaiados.</p><p>&#8212; Vem comigo &#8212; digo. &#8212; Agora. Pegamos seu dinheiro, suas coisas, sumimos.</p><p>&#8212; Para onde?</p><p>&#8212; Qualquer lugar. O mar, talvez.</p><p>Ela me olha como se eu oferecesse a lua. Depois a realidade volta a seus olhos.</p><p>&#8212; Eles n&#227;o deixam a gente sair assim.</p><p>&#8212; E se eu pagar sua d&#237;vida?</p><p>&#8212; N&#227;o &#233; s&#243; dinheiro. &#201;... complicado.</p><p>Me acompanha at&#233; a sa&#237;da. A mulher do botox nos vigia como abutre.</p><p>&#8212; Vem...</p><p>&#8212; Volta... estarei aqui.</p><p>Homem id&#234;ntico a todos sai do corredor. Para ao me ver. Reconhe&#231;o o rel&#243;gio caro, o anel de casado. N&#227;o desvio. Ele murmura algo para a cafetina, passa apressado.</p><p>Marina se vai. A Land Rover tamb&#233;m &#8212; partindo com pressa, deixando marca de pneu.</p><p>A noite cai. Luzes de neon piscam, chamando os perdidos. Ando sem rumo at&#233; ver o metr&#244;.</p><p>Des&#231;o as escadas. Pessoas sobem, descem, me atravessam como fantasma. No mapa, procuro uma sa&#237;da. Meu dedo sangrando deixa marca vermelha na rodovi&#225;ria.</p><p>Passo pelos guich&#234;s. Destinos em letras luminosas: S&#227;o Paulo, Rio, Salvador, Recife. Mar em todos eles, mas s&#243; um importa. Compro passagem ao litoral norte. A atendente nem levanta os olhos. &#218;ltima transa&#231;&#227;o corporativa.</p><p>No &#244;nibus, cheiro de ar-condicionado velho e expectativas. Senhora senta ao lado. Vestido florido, bolsa no colo como escudo.</p><p>&#8212; Vai visitar algu&#233;m?</p><p>&#8212; N&#227;o. S&#243; indo.</p><p>&#8212; Sozinha? Perigoso uma mo&#231;a...</p><p>&#8212; Sempre estive sozinha.</p><p>Ela tenta mais conversa, desiste. Jovens ao fundo cantam, riem. Vida que n&#227;o vivi.</p><p>&#8212; N&#227;o fala muito, n&#233;?</p><p>&#8212; N&#227;o. Dia cheio.</p><p>&#8212; Vou l&#225; atr&#225;s, gosto de conversar com jovens. Viagem longa, nunca durmo em &#244;nibus &#8212; diz, levantando.</p><p>Fecho os olhos. O motor vibra, me embala. Durmo sem sonhar.</p><p>Acordo com o sil&#234;ncio. Motor desligado, luzes apagadas. Do lado de fora, o som que reconhe&#231;o mesmo sem ver &#8212; ondas quebrando, chamando.</p><p>&#8212; Chegamos &#8212; o motorista diz. &#8212; Cuidado, mo&#231;a. Mar bravo essa hora.</p><p>&#8212; Eu sei.</p><p>Des&#231;o. Ar salgado invade pulm&#245;es. Sigo o som, descal&#231;a no asfalto frio que vira areia. A praia deserta, lua minguante, estrelas que a cidade esconde.</p><p>Sento. Areia fria entre os dedos, gr&#227;os finos como tempo perdido. O mar respira no escuro, inspira, expira, eterno.</p><p>Sempre amei o mar. Quando crian&#231;a, nadava at&#233; meus pais gritarem para voltar. A &#225;gua era meu elemento, onde o peso do mundo n&#227;o existia. Dez anos sem v&#234;-lo. Dez anos me afogando em terra seca.</p><p>Tiro a roupa. Vermelha e preta na areia clara. Passo a m&#227;o no roxo do bra&#231;o &#8212; j&#225; amarelando nas bordas. O dedo lateja no ritmo do cora&#231;&#227;o.</p><p>Levanto. O vento frio endurece os mamilos, arrepia a pele. Viva. Estou viva.</p><p>Entro devagar. &#193;gua gelada nos tornozelos, subindo. Cada onda uma promessa, uma amea&#231;a. O frio corta, depois entorpece. Mergulho.</p><p>Sil&#234;ncio absoluto. S&#243; o cora&#231;&#227;o batendo nos ouvidos. Emerjo, respiro. Nado para longe, bra&#231;adas fortes. O sal arde nos cortes, limpa feridas.</p><p>Paro. Flutuo. Estrelas acima, abismo abaixo. A &#225;gua me gira em c&#237;rculos lentos, cada vez maiores. O redemoinho final, suave.</p><p>Fecho os olhos. A correnteza me leva. Para onde? N&#227;o importa. Pela primeira vez em dez anos, n&#227;o luto.</p><p>O frio some. Ou me acostumei. Dif&#237;cil saber onde termino e a &#225;gua come&#231;a. Sal nos l&#225;bios, nos olhos. L&#225;grimas ou mar?</p><p>Tempo dilata. Minutos, horas. O corpo pede para voltar. A mente pede para ficar.</p><p>O horizonte clareia. Vermelho sangrando no azul escuro.</p><p>Sol nasce. Diferente daquela luz cruel. Corpo solto, ondas me levando. Estrelas somem, azul surge.</p><p>A &#225;gua rouba calor, mas leva raiva, cansa&#231;o, tudo. O sal cura feridas ou apenas esconde? N&#227;o importa.</p><p>Ainda flutuo, me deixo levar.</p><p>Ao longe, vozes na praia. Gritos. Algu&#233;m corre pela areia.</p><p>Fecho os olhos.</p><p>Quando abro novamente, uma gaivota paira acima. Me observa com olhos vazios de significado. Apenas uma gaivota. Apenas uma mulher na &#225;gua.</p><p>As vozes se aproximam e a gaivota se vai.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Rascunhos por Marco Domingues! 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Ele hesitou, mas n&#227;o parou &#8212; aquilo o excitou. Fez mais for&#231;a, virou a cabe&#231;a de lado. Eu sentia seu pesco&#231;o, a veia pulsando como algo enterrado que queria subir &#224; superf&#237;cie. Mordi novamente. Com for&#231;a. Ele xingou e saiu de mim, confuso. Senti algo nojento entre as pernas. Olhei e vi as cal&#231;as no tornozelo, o penduricalho entre suas pernas parecia uma luva descartada p&#243;s-cirurgia, eu me controlei para n&#227;o rir; o observei passar a m&#227;o na boca, os dedos sa&#237;ram vermelhos como unhas de puta. Seu olhar era o de uma crian&#231;a que acabava de descobrir que o cachorrinho que ele provocava morde. N&#227;o pedi desculpas. Apenas saboreei. Eu queria saber o gosto do seu poder e tinha gosto de ferro, de moeda esquecida no bolso, de alian&#231;a suja. A marca j&#225; come&#231;ava a aparecer, roxa, acima do colarinho branco. No dia seguinte, ele tentaria esconder. Gola alta. Cachecol rid&#237;culo. A esposa notaria e fingiria que n&#227;o via. Os filhos perguntariam. Ele mentiria. Uma vida inteira. Dentes. Sangue. Ru&#237;na.</p><p>&#192;s ter&#231;as, ele vinha; sorriso vulgar, vigil&#226;ncia de predador. Depois daquela noite, ele sumiu. Pela manh&#227;, ela j&#225; tinha partido. Restou apenas o corpo. Quinto andar. Os pap&#233;is.</p><p>Lembro do primeiro dia no hospital, a enfermeira nos acompanhou at&#233; o quarto. Minha m&#227;e andava lentamente, apoiando-se em mim. Naquela fase, ainda havia esperan&#231;a; era poss&#237;vel ver em seus olhos que ela acreditava no que a enfermeira dizia, que ia sair dali, que tudo ia ficar bem. A enfermeira ligou a pequena televis&#227;o e disse que ia nos deixar &#224; vontade. Sentei-me na poltrona bege que se transformava na cama onde eu passava os dias de visita. Assistimos &#224; televis&#227;o at&#233; ela dormir. No dia seguinte, acordei primeiro e me arrumei para ir trabalhar.</p><p>Na segunda semana, quando a beijei para ir embora, ela tirou o anel que eu nunca vira fora de sua m&#227;o e, com os dedos manchados, come&#231;ou a testar os meus. Tentou meu polegar direito, depois o esquerdo, e continuou.</p><p>&#8212; Voc&#234; cresceu tanto... &#8212; a voz era de papel.</p><p>O metal gelado encontrou o dedo certo, e um calafrio percorreu meu corpo.</p><p>&#8212; Guarda para mim? &#8212; ela pediu.</p><p>Fiz que sim com a cabe&#231;a.</p><p>Depois de uma semana ali, foi a primeira vez que o notei. Ter&#231;a-feira. No elevador. Ele segurou a porta, o jaleco branco emoldurando seu sorriso ainda mais branco. Comentou sobre meus olhos. Levantei a m&#227;o esquerda e mostrei o anel. Seu olhar o atravessou.</p><p>&#8212; <em>Vena amoris</em> &#8212; ele disse &#8212; vai direto ao cora&#231;&#227;o.</p><p>Ele segurou a porta novamente e me deixou passar.</p><p>&#8212; Quinto andar &#8212; ele disse.</p><p>&#8212; Bom saber.</p><p>Seu sorriso permaneceu por um instante antes de a porta se fechar. Depois disso, toda ter&#231;a. Uma presen&#231;a constante na cafeteria, junto com o cheiro do caf&#233; requentado.</p><p>Agora. Escrit&#243;rio. &#201; quinta-feira, o primeiro dia desde que ela se foi, e David, o diretor-geral, projeta os n&#250;meros. <em>Quarter</em> fechado, metas batidas. Primeiro dia depois da solid&#227;o completa. Tr&#234;s dias de luto oficial, mais dois em que ele insistiu. Eu poderia ter emendado mais essa semana se quisesse, mas n&#227;o quero. O ritual come&#231;a.</p><p>&#8212; Luciana, nossa mais nova diretora.</p><p>Eu me levanto. Palmas. O luto sobe &#8212; n&#227;o preto, mas bege-hospitalar, marrom do caf&#233; requentado. David me abra&#231;a. Demora. Perfume caro. Aperta minha m&#227;o. O anel d&#243;i entre meus dedos.</p><p>Tamb&#233;m tenho meu teatro. Lucas, ele e eu entramos no mesmo dia e ele j&#225; me conhecia de vista da faculdade. Na cafeteria, no primeiro dia, ele disse: &#8212; Eu te conhe&#231;o, n&#227;o?</p><p>O erro foi admitir que sim. Desde ent&#227;o, seus olhos est&#227;o sempre colados em mim. Ele conta meus passos. Cataloga. Vigia. Enquanto mergulho o saquinho de ch&#225; na &#225;gua quente, posso sentir que ele conta. Eu passo em sua mesa:</p><p>&#8212; Parab&#233;ns, coordenador. Eu queria ser a primeira a te dar a not&#237;cia, v&#227;o anunciar mais tarde.</p><p>Registro suas microexpress&#245;es. Ele fica obviamente sem entender o que acontece. Ele entrega tudo no &#250;ltimo minuto, mas o trabalho &#233; sempre impec&#225;vel. Para os outros, finge que n&#227;o gosta dali, mas n&#227;o conhece outra vida. Agora, ter&#225; que decidir. Eu o puxo para o meu mundo.</p><p>Mais tarde, na sala Copacabana, eu o chamo. N&#227;o levanto os olhos quando ele entra.</p><p>&#8212; Lucas, fecha a porta, por favor.</p><p>O ar-condicionado sibila. Uma mosca presa na lumin&#225;ria, zumbindo. Trinta segundos. Quarenta. O sil&#234;ncio fermenta.</p><p>&#8212; Os n&#250;meros da Morgan, Lucas. Preciso ainda hoje.</p><p>&#8212; Morgan levou o contrato para a concorr&#234;ncia no m&#234;s passado.</p><p>&#8212; Eu sei. &#8212; Tr&#234;s segundos de contato visual. Volto &#224; tela. &#8212; Vai ser um desafio interessante.</p><p>Sil&#234;ncio.</p><p>&#8212; Algum problema?</p><p>&#8212; Nenhum.</p><p>&#8212; &#211;timo. Confirma o happy hour com a equipe. Dezenove horas.</p><p>Ele anota.</p><p>&#8212; Vamos precisar revisar uns n&#250;meros antes. Pode ficar?</p><p>&#8212; Claro, L&#250;.</p><p>&#8212; Luciana.</p><p>O cursor pisca na tela. Metr&#244;nomo digital. Ele levanta. Antes que feche a porta:</p><p>&#8212; Lucas? Parab&#233;ns pela promo&#231;&#227;o.</p><p>&#8212; Obrigado... Luciana.</p><p>Mensagem no Slack: <em>Happy hour, 19h no Sancta</em>. Cascata de emojis. Abro meu e-mail e vejo o rascunho esperando para ser enviado.</p><p><em><strong>Assunto: Convite - Missa de 7&#186; Dia</strong></em></p><p><em><strong>Nome:</strong> Cec&#237;lia Ferreira</em></p><p><em><strong>Data:</strong> 08/06</em></p><p><em><strong>Hor&#225;rio:</strong> 18h00</em></p><p><em><strong>Local:</strong> Par&#243;quia Nossa Senhora da Sa&#250;de</em></p><p>N&#227;o envio o email.</p><p>Na ter&#231;a em que tudo mudou, dormi na poltrona e sonhei ou me lembrei: meu pai de costas, andando entre as pessoas. Estiquei meu bra&#231;o e segurei sua m&#227;o. N&#227;o era ele. O estranho riu, mas n&#227;o soltou minha m&#227;o, falou alguma coisa e riu de novo. Minha m&#227;e apareceu correndo e me puxou com for&#231;a. Ela apertou meu bra&#231;o, e o anel marcou fundo. Eu tinha seis anos.</p><p>Acordei com seus gemidos; o rem&#233;dio estava perdendo o efeito. Chamei a enfermeira, que veio, trocou o soro, a medica&#231;&#227;o e disse, como sempre, que tudo ia ficar bem. Nem ela acreditava mais no que dizia. Minha m&#227;e estava de olhos abertos, tentando falar algo. Aproximei-me, ela segurou minha m&#227;o e tentou puxar o anel.</p><p>&#8212; Me devolve o anel, me devolve o anel&#8230; &#8212; ela repetia.</p><p>Puxei minha m&#227;o e me afastei enquanto a enfermeira verificava a dosagem.</p><p>&#8212; Ele nunca deveria ter dado para voc&#234;&#8230; N&#227;o era seu&#8230; Era meu&#8230;</p><p>Aquilo me trouxe outra mem&#243;ria. O mesmo homem ou era outro? Ele (meu pai?) tirou um anel e testou meus dedos at&#233; deix&#225;-lo no meu polegar.</p><p>&#8212; Um dia vai servir aqui &#8212; ele disse, encostando a ponta do dedo no meu anelar e tra&#231;ando um caminho at&#233; meu peito. &#8212; Direto para o cora&#231;&#227;o.</p><p>Quando ele se foi, minha m&#227;e segurou minha m&#227;o e tirou o anel do meu polegar. Colocou-o na m&#227;o dela.</p><p>&#8212; Isso n&#227;o &#233; seu.</p><p>Mordi sua m&#227;o. Ela revidou e bateu em meu rosto com for&#231;a. Chorei por dias. At&#233; esquecer. Ela nunca pediu desculpas.</p><p>Sa&#237; do quarto. L&#225;grimas escorriam pelo meu rosto. Caf&#233; requentado no corredor, copo de isopor, gosto de morte institucional. Ele me encontrou no corredor, como sempre fazia. Mas naquela noite eu n&#227;o resisti. Sala de suprimentos. Porta trancada. Enquanto ele se divertia com meu corpo, eu pensava em minha m&#227;e no quinto andar, disputando oxig&#234;nio com as m&#225;quinas. Sua boca procurou a minha. Eu sentia a veia pulsar em seu pesco&#231;o. E ent&#227;o, mordi.</p><p>N&#227;o voltei ao quarto naquela noite. Pela manh&#227;, ligaram.</p><p>Agora, s&#227;o sete e meia, e n&#227;o h&#225; quase ningu&#233;m em suas baias. S&#243; n&#243;s dois em nossa &#225;rea, planilhas abertas, uma simula&#231;&#227;o de trabalho. Avalio por um segundo se j&#225; &#233; hora. Ainda n&#227;o. Levanto-me e vejo que seus olhos se voltam para mim, sem que ele vire a cabe&#231;a. Vou ao banheiro, removo o blazer e o coloco na bolsa. Fico apenas com o vestido preto que reservei para o dia. Lavo o rosto, arrumo o cabelo e mudo a cor do batom. Chega a hora. Chamo um t&#225;xi pelo aplicativo e passo pelo corredor, onde ele pode me ver. Fa&#231;o um gesto para ele. Vejo a surpresa em seus olhos. Eu o pego olhando para minha perna pelo recorte da saia enquanto ando. Entro primeiro e seguro o elevador.</p><p>Quando chegamos ao Sancta, est&#225; chovendo. Lucas sai do carro e d&#225; a volta para ficar ao meu lado. Ando devagar, deixo a chuva nos molhar. Ele me acompanha; quer correr, mas resiste. Chegamos encharcados. Algu&#233;m faz uma piada:</p><p>&#8212; O casal, finalmente!</p><p>No Sancta, pe&#231;o vinho tinto. A garrafa toda. Em seus olhos, vejo que ele n&#227;o acha apropriado. Ele pede uma cerveja. N&#227;o demora muito at&#233; que, um por um, os outros v&#227;o embora: &#8220;Filhos&#8221;, &#8220;compromisso&#8221;, as desculpas de sempre. Fico bebendo meu vinho e marcando a borda da ta&#231;a com meu batom. Ele finalmente percebe, olha para a minha boca e noto seu olhar de reprova&#231;&#227;o. Quando ele percebe que eu percebi, desvia o olhar. Encho novamente a ta&#231;a. Giro o anel no dedo. Uma vez. Duas.</p><p>&#8212; Lucas, voc&#234; sabe por que eu te promovi?</p><p>&#8212; N&#227;o&#8230;</p><p>&#8212; Gosto de como nada lhe escapa, como voc&#234; est&#225; sempre atento a todos os detalhes.</p><p>&#8212; Est&#225; tarde. &#8212; Ele come&#231;a a se levantar, os olhos procurando o gar&#231;om. &#8212; Creio que est&#225; na hora de irmos tamb&#233;m, n&#227;o?</p><p>Toco sua m&#227;o e o sinto derreter. Ele se senta novamente.</p><p>&#8212; Achei que n&#227;o gostasse de mim &#8212; ele diz.</p><p>&#8212; Por que acha isso?</p><p>&#8212; No come&#231;o, &#233;ramos pr&#243;ximos. Faz&#237;amos tudo juntos, depois voc&#234; foi se afastando.</p><p>&#8212; Qual &#233; o perfume que eu uso?</p><p>&#8212; H&#227;?</p><p>&#8212; Sei que voc&#234; sabe. Qual &#233;?</p><p>&#8212; S&#233;rio mesmo, acho que precisamos ir embora.</p><p>Ele sabe que n&#227;o h&#225; segredos em um <em>open office</em>. Eu o vi comprando perfumes femininos online enquanto deveria estar trabalhando. Eu o vi pesquisando o meu perfume. Dali se v&#234; tudo: cada tela, cada movimento, cada respira&#231;&#227;o mal disfar&#231;ada. Vejo seu rosto mudar de tom, cada vez mais vermelho.</p><p>&#8212; Sabe do que eu me lembro? Lembro que voc&#234; dizia que trabalhar l&#225; seria tempor&#225;rio, que nunca quis atuar numa empresa daquele tipo e que logo estaria longe dali. Por que voc&#234; ficou, Lucas?</p><p>A resposta &#233; &#243;bvia demais, e ele n&#227;o responde. Pe&#231;o a conta. Pago com o cart&#227;o corporativo, sem olhar o valor. No caminho at&#233; o metr&#244;, ele, ainda assim, decide me acompanhar. Paro, encosto na parede e olho para ele. Ele olha de volta. N&#227;o sabe o que fazer.</p><p>&#8212; Covarde.</p><p>Aproximo-me dele e vejo que seus olhos est&#227;o cheios de l&#225;grimas.</p><p>&#8212; Qual &#233; o meu perfume?</p><p>Lucas me puxa e beija minha boca. N&#227;o me movo, n&#227;o fecho os olhos, n&#227;o retribuo. Permane&#231;o im&#243;vel como uma boneca.</p><p>&#8212; N&#227;o sou covarde.</p><p>&#8212; Ent&#227;o me diz, qual &#233; o meu perfume?</p><p>Ele tenta de novo. L&#225;bios mortos.</p><p>&#8212; Luciana&#8230;</p><p>&#8212; Conseguiu o que queria?</p><p>Agora ele chora alto.</p><p>&#8212; Me desculpe, eu&#8230; eu&#8230;</p><p>&#8212; Eu sei.</p><p>&#8212; <em>Elie Saab Le Parfum</em>. Lim&#227;o e cedro. Depois, jacinto. &#8212; As palavras saem entre solu&#231;os.</p><p>Deixo-o chorando, encostado na parede. Caminho na chuva sem olhar para tr&#225;s. Imagino-o em casa, jogando o frasco de perfume na parede, cercado de vidro quebrado e do meu cheiro em suas paredes.</p><p>Na segunda, passo na minha antiga mesa para pegar minhas coisas e limp&#225;-la para Lucas. Ele n&#227;o est&#225;. Na gaveta, encontro uma receita m&#233;dica: &#8220;Quinta &#224;s 18h. Te espero!&#8221;. Amasso o papel e o coloco no fundo da gaveta. Tiro o anel. A marca branca na pele parece uma acusa&#231;&#227;o. Deixo-o l&#225;. Flexiono os dedos.</p><p>Final do dia. Sala nova. Um envelope chega pelo malote. Nada escrito. Na porta, tr&#234;s batidas, e ele entra. David tem esse h&#225;bito de n&#227;o esperar &#8212; outro homem que confunde invas&#227;o com intimidade. Ele pede uma apresenta&#231;&#227;o para a semana seguinte e se vai. Abro o envelope e despejo seu conte&#250;do na mesa. O anel cai e gira por um tempo antes de parar, pequeno, gasto. O crach&#225; de Lucas tamb&#233;m cai. Vejo a foto, com o rosto exatamente de quando nos conhecemos. Coloco o anel de volta no meu dedo e saio.</p><p>Chego e entro na igreja de Nossa Senhora da Sa&#250;de. Vou at&#233; o banco do fundo e me sento, a igreja vazia.</p><p>Um homem grisalho aparece e senta-se ao meu lado. Eu o sinto olhando para minha m&#227;o, olho e reconhe&#231;o a sombra de minhas mem&#243;rias.</p><p>&#8212; Voc&#234; ainda o usa? &#8212; ele diz, tentando segurar minha m&#227;o.</p><p>Puxo minha m&#227;o antes que ele me toque. Tiro o anel. A marca branca &#233; como uma marca de dente na pele. Eu o solto no banco entre n&#243;s e me levanto. O anel rola e cai no ch&#227;o e o som ecoa pela igreja vazia.</p><p>&#8212; N&#227;o. Era dela. Ela pediu para eu guardar. Agora, eu o devolvo para voc&#234;.</p><p>Saio da igreja para a luz do dia. Flexiono meus dedos, agora leves. Pela primeira vez em anos, sinto o sol em meu rosto, o ar que respiro n&#227;o tem cheiro de nada, em minha boca n&#227;o h&#225; gosto de nada, nenhum peso, nenhuma press&#227;o. Agora &#233; apenas... ter&#231;a.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# 4 - Passarela]]></title><description><![CDATA["Ela n&#227;o conseguia falar, s&#243; via os pelos &#8212; pretos, grossos, mortos &#8212; grudados na carne exposta, como se cada depila&#231;&#227;o anterior tivesse conspirado para aquele segundo de horror absoluto."]]></description><link>https://www.wastelandia.com.br/p/passarela</link><guid isPermaLink="false">https://www.wastelandia.com.br/p/passarela</guid><dc:creator><![CDATA[Marco Domingues]]></dc:creator><pubDate>Wed, 02 Jul 2025 12:27:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kdrl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4f85935-aa51-42f3-b0c6-3e0dbd527593_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kdrl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4f85935-aa51-42f3-b0c6-3e0dbd527593_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kdrl!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4f85935-aa51-42f3-b0c6-3e0dbd527593_1536x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kdrl!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4f85935-aa51-42f3-b0c6-3e0dbd527593_1536x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Kdrl!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa4f85935-aa51-42f3-b0c6-3e0dbd527593_1536x1024.png 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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Caminhou devagar para a mesa amarela do canto e puxou a cadeira. Sentou-se onde podia ver a televis&#227;o. Passou a m&#227;o na irregularidade da ferrugem da mesa e seu rosto se contraiu; se fosse um de seus trabalhos, teria que refazer, deixar liso.</p><p>A cerveja e a cacha&#231;a chegaram quase junto com ele. Dois copos &#224; sua frente. A cacha&#231;a, primeiro, servia para apagar as vozes difusas que se misturavam ao cheiro ran&#231;oso de antigas frituras e ao chiado da televis&#227;o. Segurou o copo liso na m&#227;o grossa e olhou o bar atrav&#233;s do l&#237;quido amarelo, o gelo anestesiando as juntas doloridas.</p><p>Ficava assim por um tempo, em rever&#234;ncia &#224; cerveja. Depois bebia e enchia o copo de novo.</p><p>Era assim que seu pai segurava o copo. A mesma rever&#234;ncia. Morreu aos cinquenta e dois, cuspindo sangue numa bacia de alum&#237;nio. Jo&#227;o tinha calculado uma vez: faltavam sete anos. Sete anos para a bacia de alum&#237;nio. &#192;s vezes, quando bebia, confundia o gosto met&#225;lico do &#225;lcool na boca com o gosto do fim. Antecipa&#231;&#227;o. Ou mem&#243;ria. N&#227;o sabia mais a diferen&#231;a.</p><p>Dez horas levantando paredes sozinho. O parceiro n&#227;o apareceu, de novo.</p><p>Z&#233; Carlos, vinte anos mais novo, falava em fazer curso de mestre de obras. Tinha futuro. Ele tentou imaginar o que poderia ter acontecido, mas o rapaz tinha futuro e se dava ao luxo de sumir sem avisar. Gente nova era assim.</p><p>Mas ele era diferente. Jo&#227;o n&#227;o faltava h&#225; anos. Nem quando a m&#227;e morreu. Trabalhou at&#233; o meio-dia, foi ao vel&#243;rio, voltou para terminar o reboco. O encarregado nem soube. Para que ia saber? Por que se importaria?</p><p>O copo ainda suava frio em sua m&#227;o.</p><p>As juntas do&#237;am diferente hoje. Uma dor nova. Presente de anivers&#225;rio atrasado &#8212; fez quarenta e cinco anos na semana passada. M&#225;rcia nem lembrou. A filha n&#227;o se lembrou, ocupada demais com a filha pequena. Quinze anos de idade e j&#225; &#233; m&#227;e.</p><p>&#8212; S&#225;bado tem jogo, vai colar, Jo&#227;o? Depois vamos ver o Palmeiras na casa do Narciso.</p><p>Jo&#227;o nem virou. Eles sempre perguntavam por educa&#231;&#227;o. Fez que n&#227;o com a cabe&#231;a e um gesto vago de m&#227;o.</p><p>&#8212; Coisas para fazer em casa.</p><p>H&#225; alguns anos, o Palmeiras era tudo em sua vida. A bicicleta verde era a &#250;ltima heran&#231;a dessa &#233;poca. Ele olhou para a televis&#227;o e registrou as manchas verdes na tela se movendo como insetos e voltou para o copo.</p><p>Quando menino, queria ser jogador. Todos queriam. Agora olhava seus p&#233;s &#8212; deformados pelos sapatos de bico de a&#231;o, unhas pretas de cimento entranhado. P&#233;s de pedreiro. Cada parte de seu corpo ia se conformando ao trabalho.</p><p>Ficou ali at&#233; se sentir anestesiado. Pagou a conta e saiu em sua bicicleta verde, tentando manter o prumo. Cambaleava &#224;s vezes, mas se acertava. Era como fazer uma parede, lento mas confiante, corrigindo quando precisava. O barulho das engrenagens subia e descia na cad&#234;ncia de suas pernas. O ar frio no rosto o fazia sentir vivo, alerta.</p><p>O cachorro primeiro latiu de susto. Mas depois, percebendo o erro, abanou o rabo pelado de sarna com tanta for&#231;a que o corpo todo rebolava. Jo&#227;o resmungou algumas palavras de afago que sa&#237;ram l&#237;quidas.</p><p>A casa estava escura, exceto pelo brilho azulado da TV. Ela nem virou a cabe&#231;a. M&#225;rcia. Quarenta e tr&#234;s anos que pareciam sessenta. O roup&#227;o desbotado, aberto, revelando a camisola do SUS que ela ganhou quando teve a filha, quinze anos atr&#225;s.</p><p>O cabelo &#8212; que um dia fora preto &#8212; agora era uma massa cinza e oleosa presa num coque frouxo. Fios soltos grudados na testa.</p><p>Na novela, algu&#233;m chorava por amor. Ela comia direto do pote de margarina, enfiando os biscoitos cream cracker. As migalhas ca&#237;am no colo, acumulando-se nas dobras da barriga. As pernas inchadas, abertas sem cerim&#244;nia, a calcinha bege vis&#237;vel, manchada.</p><p>&#8212; Tem comida na cozinha &#8212; disse sem olhar. A voz rouca de quem fuma dois ma&#231;os de cigarro por dia. O h&#225;lito de caf&#233; velho e cigarro chegava at&#233; a porta.</p><p>Jo&#227;o viu as varizes azuis subindo pelas panturrilhas. Os p&#233;s descal&#231;os com rachaduras profundas, as unhas amarelas e grossas que ela nunca cortava. No bra&#231;o da poltrona, o cinzeiro improvisado &#8212; uma tampa de Nescaf&#233; cheia de bitucas.</p><p>O quarto cheirava a mofo e copos sujos. Ela dormia do lado esquerdo, ele sabia pelos len&#231;&#243;is &#8211; uma mancha amarelada em forma de corpo, o travesseiro achatado e seboso. Do lado dele, limpo. Fazia mais de ano que n&#227;o deitava ali.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/p/passarela?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.wastelandia.com.br/p/passarela?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p><p></p><p>Ele pegou o prato de comida, e o feij&#227;o desceu como cimento. Lavou a marmita, colocou o resto da comida dentro e guardou-a na geladeira. Sentou-se na cadeira e ficou olhando pela janela. A escurid&#227;o l&#225; fora o fez lembrar do passado. Ela nunca tinha sido linda, mas foi bonita. Magra pela situa&#231;&#227;o, a pele lisa da juventude. Seus olhos pretos brilharam no dia de seu casamento e mais ainda no dia em que a filha nasceu. Depois foram se afastando, cada um em seu mundo, ela limpando a casa de estranhos e ele construindo as paredes das casas que um dia ela poderia limpar.</p><p>Longe dali, outra televis&#227;o perturbava.</p><p>&#8212; Pode desligar? O som atrapalha a revitaliza&#231;&#227;o energ&#233;tica.</p><p>As m&#227;os de Vanessa deslizavam sobre a pele da cliente. &#211;leo de hortel&#227;-pimenta &#8211; propriedades revigorantes, dizia o r&#243;tulo. Setenta reais o frasco min&#250;sculo.</p><p>Joana religou a TV assim que a cliente virou de bru&#231;os. Quarenta e poucos anos espremidos numa cal&#231;a legging rosa-choque. A gordura da barriga vazando por cima, uma massa p&#225;lida e mole que tremulava quando ela andava. As mechas loiras &#8212; um amarelo-nicotina barato &#8211; n&#227;o conseguiam disfar&#231;ar cinco cent&#237;metros de raiz preta oleosa. Parecia cabelo de boneca velha, daquelas que as crian&#231;as abandonam no quintal e que depois voltam em seus pesadelos.</p><p>O certificado do SENAC pendurado torto na parede, letras garrafais anunciando T&#201;CNICO EM EST&#201;TICA. Como se precisasse anunciar, tudo nela gritava SENAC &#8212; as unhas posti&#231;as descascando, o batom vermelho-farm&#225;cia sangrando pelas rachaduras dos l&#225;bios, a base tr&#234;s tons mais clara que o pesco&#231;o.</p><p>Vanessa se lembrou de seu diploma de Direito, muito mais discreto. Tr&#234;s tentativas na OAB. Tr&#234;s reprova&#231;&#245;es. Mas ainda assim, era Direito na PUC.</p><p>&#8212; Que estranho, ainda tem mais uma cliente marcada na agenda, depila&#231;&#227;o, mas n&#227;o apareceu ainda.</p><p>&#8212; Claro que sim, boba, eu t&#244; aqui. Eu marquei pra mim. Dia especial.</p><p>Ela sentiu que ia vomitar. Tentou encontrar uma desculpa, mas n&#227;o conseguiu. Por fim, em sil&#234;ncio, levou Joana para a sala e colocou a cera para aquecer. Enquanto pegava o resto dos materiais, pelo reflexo do espelho, Vanessa viu o namorado de Joana encostado na porta dos fundos, olhando-a fixamente. Vanessa se levantou num pulo quando viu onde ele estava com a m&#227;o, mas ainda conseguiu ouvi-lo fazer um barulho com a boca. Ele estava com a m&#227;o na virilha num gesto obsceno e n&#227;o se deu ao trabalho de remov&#234;-la dali quando ela se levantou.</p><p>&#8212; Oi, amor! Chegou cedo &#8212; Joana acenou, melosa. &#8212; N&#227;o vai demorar aqui, espera a&#237; que j&#225; vamos.</p><p>Ele usava uma cal&#231;a jeans apertada, camiseta e uma corrente no pesco&#231;o. Devia ter metade da idade de Joana. Vanessa conhecia aquele tipo, o parasita. Como tantos outros namorados de Joana, esse tamb&#233;m devia viver &#224;s suas custas e ainda se achava no direito de assediar outras mulheres na cara dela.</p><p>Joana devia saber. Mulheres como Joana sempre sabiam e sempre fingiam que n&#227;o.</p><p>Vanessa espalhou a cera quente. Joana de bru&#231;os, a pele branca e fl&#225;cida tremendo.</p><p>&#8212; Tira tudo, t&#225;? O Paulo gosta lisinha. Hoje ele vai me comer a noite toda.</p><p>Paulo. Claro. Todos eram Paulo, Jo&#227;o, Jos&#233;. Intercambi&#225;veis como as notas de dez reais amarrotadas que Joana guardava no suti&#227;.</p><p>O cheiro: suor azedo misturado com perfume barato. Vanessa respirou pela boca enquanto arrancava os pelos do &#226;nus. Joana gemeu.</p><p>Pelos pretos grudados na cera. Alguns com fol&#237;culos brancos, como pequenos vermes. A vulva de Joana, roxa e inchada. Vanessa puxou outro peda&#231;o de cera. O som &#250;mido quando o removeu. Mais pelos. Vanessa tentava desviar o olhar, mas n&#227;o podia; tentava n&#227;o imaginar o que aconteceria mais tarde, o que Paulo e Joana fariam. Mas havia algo pior que nojo: o reconhecimento. Ela poderia ser Joana. Bastava um deslize. Uma gravidez no segundo ano de faculdade, um namorado que sumisse, pais menos compreensivos. Quarenta reais era a dist&#226;ncia entre o &#243;leo essencial e a cera depilat&#243;ria. Entre o diploma de Direito e o certificado do SENAC. &#192;s vezes, deitada na cama, sentia que estava escorregando. Que acordaria um dia e seria Joana.</p><p>&#8212; Voc&#234; t&#225; bem? &#8212; Joana perguntou, mastigando chiclete.</p><p>O som que ela fazia era como o de um animal ruminando. Vanessa sentiu uma onda de &#243;dio t&#227;o pura que precisou fechar os olhos. Imaginou pegar a cera quente e despej&#225;-la na boca aberta de Joana. Os pelos grudando nos dentes do aparelho. Abriu os olhos. Sorriu.</p><p>&#8212; T&#244; &#243;tima. S&#243; cansada.</p><p>Joana se virou para o namorado:</p><p>&#8212; Paulo, espera l&#225; fora. Dez minutinhos, amor.</p><p>Ele saiu, e ela logo atr&#225;s. Ambos olhando para Vanessa enquanto fechavam a porta.</p><p>Seu telefone tocou:</p><p>&#8212; Filha? &#211;tima not&#237;cia. O F&#233;lix, Dr. Ferreira, lembra? Abriu um escrit&#243;rio novo e precisa de assistente. Contei que voc&#234; se formou em Direito, ele ficou interessado. Amanh&#227; cedo, sete horas, voc&#234;s conversam l&#225;.</p><p>&#8212; Pai, s&#233;rio? Muito obrigado mesmo! N&#227;o sabe como eu estou mal aqui, eu realmente preciso disso.</p><p>&#8212; Eu sei, filha, vai dar tudo certo. Logo vai tirar sua OAB e vai poder ficar l&#225; mesmo. Gente boa. Gente de confian&#231;a.</p><p>Amanh&#227;, estaria longe dali. Esse pensamento a reconfortou. Amanh&#227;, um lugar onde homens como Paulo n&#227;o existiriam. Onde ela n&#227;o seria um peda&#231;o de carne num a&#231;ougue. Onde tudo seria limpo, organizado, sem pelos nem olhares grudentos.</p><p>Ela olhou para a janela escura.</p><p>&#8212; Amanh&#227;. Nunca mais.</p><p>Jo&#227;o acordou com o pesco&#231;o torto. O sof&#225; era curto demais, seus p&#233;s ficavam pendurados. A casa ainda escura, s&#243; o barulho da geladeira velha tremendo. Levantou-se devagar - primeiro um joelho, depois o outro. O corpo protestava.</p><p>Na cozinha, a marmita em cima da pia. Feij&#227;o e arroz, sempre. Abriu a tampa - o cheiro do feij&#227;o velho. Fechou.</p><p>L&#225; fora, o frio cortava. Procurou o moletom no varal - nada. M&#225;rcia devia ter guardado. N&#227;o ia acord&#225;-la por isso. Pegou a flanela mais grossa que achou, rasgada no cotovelo.</p><p>Amarrou a marmita no bagageiro com um peda&#231;o de corda. As ferramentas, numa sacola pl&#225;stica de supermercado. Alguns peda&#231;os de tijolo novo no bagageiro - o encarregado tinha pedido para ver, talvez usassem na pr&#243;xima obra.</p><p>Montou na bicicleta verde. As engrenagens rangeram. Precisavam de &#243;leo.</p><p>A respira&#231;&#227;o sa&#237;a em fuma&#231;a branca no ar gelado. Quando menino, fingia que era drag&#227;o. Agora, s&#243; o fazia pensar no cigarro que n&#227;o podia mais comprar.</p><p>O cachorro n&#227;o apareceu. Frio demais at&#233; para o bicho.</p><p>Vanessa acordou com o celular vibrando. Terceiro alarme. Sempre deixava tr&#234;s - 6:00, 6:15, 6:30. Sempre dormia at&#233; o &#250;ltimo.</p><p>Levantou-se num pulo. O quarto ainda escuro, apenas a luz do celular. 6:47.</p><p>&#8212; N&#227;o, n&#227;o, n&#227;o&#8230;</p><p>No banheiro, escovou os dentes olhando o WhatsApp. Mensagem do pai de ontem &#224; noite: "Confirmado para as 7h. Dr. Ferreira &#233; pontual. Boa sorte, filha."</p><p>O est&#244;mago se contraiu. Caf&#233; ou banho? N&#227;o dava tempo para os dois.</p><p>Escolheu o caf&#233; - as m&#227;os tremendo enquanto passava o p&#243; na cafeteira italiana. Presente do pai, &#233; claro. "Nescaf&#233; n&#227;o combina com voc&#234;, filha."</p><p>Vestiu a melhor roupa que tinha - blazer preto, cal&#231;a social. A blusa branca estava amarelada no colarinho. Passou base para disfar&#231;ar. No espelho, ensaiou o sorriso. Advogada. Quase advogada. Assistente jur&#237;dica primeiro, depois&#8230;</p><p>O carro demorou a pegar. Frio e velho. Como tudo na sua vida atual. Mas n&#227;o por muito tempo.</p><p>7:03. O GPS indicava 42 minutos pela rodovia. O Gol 2008 protestou, mas obedeceu. 140 no veloc&#237;metro. O carro vibrava. S&#243; precisava chegar a tempo.</p><p>O frio entrava pela rasgadura da flanela. Jo&#227;o pedalava devagar, as juntas reclamando a cada movimento. Passou pelo a&#231;ougue do Toninho - ainda fechado. Pelo bar do Z&#233; - grade de ferro baixada. O bairro dormia.</p><p>Na padaria, o cheiro de p&#227;o. Parou um instante, apoiou o p&#233; no meio-fio. Dois reais e cinquenta o franc&#234;s. H&#225; quanto tempo n&#227;o comia p&#227;o fresco? Balan&#231;ou a cabe&#231;a e seguiu.</p><p>As casas foram mudando. Primeiro, muros mais altos. Depois, cercas el&#233;tricas. Por fim, a rodovia.</p><p>O barulho dos caminh&#245;es chegou antes. O ronco grave dos motores a diesel. A passarela apareceu - concreto cinza contra o c&#233;u cinza. &#205;ngreme. Suas pernas j&#225; do&#237;am s&#243; de olhar.</p><p>Desceu da bicicleta. Olhou a passarela, olhou a pista. L&#225; embaixo, no canteiro central, a cerca cortada. Todo mundo usava. Cinco segundos atravessando contra minutos subindo e descendo.</p><p>Um caminh&#227;o passou buzinando. O vento quase o derrubou.</p><p>As pernas do&#237;am. O joelho esquerdo, pior que o direito. Subir aquilo empurrando a bicicleta...</p><p>Olhou de novo o buraco na cerca.</p><p>O motor roncava em quinta marcha. O ponteiro do combust&#237;vel dan&#231;ava perto da reserva - esquecera de abastecer ontem. N&#227;o importava. Depois se preocuparia com isso.</p><p>Passou por uma escola - crian&#231;as de uniforme esperando o &#244;nibus. Pelo shopping - estacionamento vazio. O veloc&#237;metro marcava 120.</p><p>A pista subia. O Gol perdeu for&#231;a; ela reduziu para quarta. 130 de novo. As m&#227;os suadas no volante, apesar do frio.</p><p>No horizonte, a passarela emoldurava o sol de inverno, que come&#231;ava a iluminar o dia de fato.</p><p>Olhou o rel&#243;gio do painel. 7:18. Faltava pouco. Uns quinze minutos mais o tempo de estacionar, se mantivesse a velocidade, se n&#227;o fosse pega por um radar.</p><p>A passarela se aproximando. Vazia a essa hora. Pisou mais fundo. 140. 145. O carro inteiro tremia, parecia que o vidro ia estourar.</p><p>&#8212; Aguenta firme &#8212; sussurrou para o Gol. Ou para si mesma.</p><p>A subida terminava logo depois da passarela. Descida livre e a avenida &#224; direita. Quase l&#225;. S&#243; precisava passar por ali.</p><p>Jo&#227;o olhou para o lado de onde vinham os carros. A subida da pista escondia parte da vis&#227;o, mas sempre dava tempo. Sempre tinha dado. Levantou o pedal, posicionou-se. As pernas pesadas. Come&#231;ou a pedalar.</p><p>Vanessa viu a passarela no alto da subida. Ningu&#233;m em cima. Manteve o p&#233; no acelerador.</p><p>A bicicleta verde apareceu do nada.</p><p>O tempo esticou e comprimiu ao mesmo tempo. Jo&#227;o viu o carro. Vanessa viu o homem. O p&#233; dela procurou o freio. As m&#227;os dele apertaram o guid&#227;o. N&#227;o foi o suficiente.</p><p>O impacto.</p><p>A bicicleta voou para um lado. Jo&#227;o para outro. O para-brisa estrelou onde a cabe&#231;a bateu. O corpo rolou pelo cap&#244;, pelo teto, e caiu no asfalto.</p><p>Vanessa derrapou. O carro atravessou duas faixas antes de parar no acostamento. As marcas pretas da frenagem ficaram gravadas no asfalto.</p><p>Pessoas apareceram. De onde vieram?</p><p>Um caminhoneiro parou primeiro. Desceu correndo.</p><p>&#8212; Meu Deus do c&#233;u. Olha o tamanho da freada.</p><p>Outros carros. Pessoas com celulares.</p><p>&#8212; Algu&#233;m chamou o resgate?</p><p>&#8212; J&#225; liguei. T&#227;o vindo.</p><p>&#8212; A mo&#231;a t&#225; em choque.</p><p>&#8212; Ela devia estar voando. Olha onde o corpo foi parar.</p><p>Jo&#227;o estava no acostamento. De costas. A perna direita dobrada num &#226;ngulo imposs&#237;vel. O sangue formando uma po&#231;a sob a cabe&#231;a.</p><p>Vanessa saiu do carro. As pernas bambas. Chegou perto.</p><p>Ele respirava. Bolhas vermelhas no nariz. O olho esquerdo inchando, fechando. Uma bola roxa grotesca.</p><p>&#8212; Sai da&#237;, mo&#231;a. Deixa ele.</p><p>Mas ela n&#227;o conseguia sair. Ficou ali, vendo. A flanela rasgada subiu com o impacto. A barriga branca exposta. Os pelos grisalhos no peito. No umbigo.</p><p>O resgate chegou. Afastaram Vanessa. Cortaram a cal&#231;a de Jo&#227;o para ver a fratura. O osso varando a pele. Sangue. E a virilha exposta - pelos escuros e grossos. O p&#234;nis retra&#237;do pelo frio e pelo choque.</p><p>&#8212; N&#227;o tem pulso!</p><p>&#8212; Massagem!</p><p>Compress&#245;es no peito. O corpo de Jo&#227;o sacudindo a cada press&#227;o. Os pelos do peito se movendo.</p><p>Vanessa n&#227;o conseguia desviar o olhar. Como se todos os pelos que arrancou na vida voltassem. Como se cada depila&#231;&#227;o levasse a este momento. Este corpo. Esta virilha. Este homem morrendo nu no asfalto frio.</p><p>Cobriram o rosto dele com a pr&#243;pria cal&#231;a suja de cimento. A blusa de flanela sobre o sexo.</p><p>&#8212; Qual seu nome, mo&#231;a? Mo&#231;a?</p><p>Ela olhava os pelos. S&#243; conseguia ver os pelos. Pretos. Grossos. Mortos.</p><p>A bicicleta verde jogada no canto. A marmita tinha rolado, mas parou em p&#233; no acostamento. Intacta.</p><p>O celular dela tocava. Pai. 7:34.</p><p>Ela n&#227;o atendia. N&#227;o conseguia falar. S&#243; conseguia ver os pelos. Os pelos que nunca mais sairiam de sua cabe&#231;a.</p><p>Logo levaram o corpo. O carro. Na pista, o tr&#226;nsito j&#225; flu&#237;a normalmente. Como se nada tivesse acontecido, s&#243; restaram as marcas de frenagem no asfalto como uma cicatriz.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Rascunhos por Marco Domingues! 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" 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Meus pais estavam sempre ocupados com seus pr&#243;prios problemas, e eu n&#227;o tinha muito o que fazer al&#233;m de observar e anotar o que via. Com o tempo, os dados se tornaram meus companheiros. Dados nunca mentem ou enganam &#8212; as pessoas fazem isso.</p><p>Eu tinha uma tabela com os hor&#225;rios de meu pai: quando sa&#237;a e chegava, quando brigavam. Cheguei a registrar os sons amb&#237;guos vindos do quarto, tentando classificar se era amor, viol&#234;ncia, ou ambos.</p><p>De repente, o padr&#227;o mudou. Nunca descobri a causa raiz, mas ele come&#231;ou a chegar cada vez mais tarde, a ficar distante. Por conta disso, o "score de tristeza" da minha m&#227;e aumentava,  proporcional &#224; dist&#226;ncia dele, e eu acompanhava tudo para entender se havia um limite.</p><p>Aos quinze anos, criei meu primeiro modelo preditivo: a probabilidade de div&#243;rcio baseada na frequ&#234;ncia de jantares juntos, no tempo m&#233;dio de conversas e na varia&#231;&#227;o do tom de voz, al&#233;m de outras vari&#225;veis que fui incluindo no modelo. Acertei a data com uma margem de erro de tr&#234;s semanas.</p><p>Minha m&#227;e chorou quando ele foi embora. Chorou at&#233; n&#227;o ter mais o que chorar, enquanto eu apenas atualizava a planilha.</p><p>Eu j&#225; sabia &#8212; os dados tinham me contado.</p><p>Ele se foi de nossas vidas. Um dia, essa vari&#225;vel simplesmente deixou de existir, foi removida do sistema. N&#227;o fazia falta, pois j&#225; n&#227;o acrescentava dados novos.</p><p>Por&#233;m, para o modelo da minha m&#227;e, aquela vari&#225;vel era essencial. Ela ficou ali, entre a vida que tivera e a que poderia ter, at&#233; o dia em que simplesmente deixou de ser.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/p/3-buffer?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.wastelandia.com.br/p/3-buffer?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p><p>Hoje, na reuni&#227;o, espero o caf&#233; gourmet que trouxe comigo atingir a temperatura ideal: 62 graus Celsius, o ponto &#243;timo entre sabor e a possibilidade de consumo imediato. Ao meu redor, conversas sobre OKRs, <em>burn rate</em>, <em>runway</em>. Palavras que flutuam como vari&#225;veis desconectadas de qualquer equa&#231;&#227;o real.</p><p>A mensagem era que a empresa precisava crescer exponencialmente e que precis&#225;vamos acelerar. Nada fora do normal &#8212; era assim desde o primeiro dia. Startups s&#227;o m&#225;quinas de transformar ansiedade em m&#233;tricas. No dia anterior, passei pelo menos dez horas criando dashboards e extraindo dados para aquela reuni&#227;o. <em>Cohort analysis</em>, <em>churn rate</em>, LTV, CAC &#8212; n&#250;meros que tentavam prever um futuro que ningu&#233;m de fato entendia, mas minha fun&#231;&#227;o era justamente ser esse or&#225;culo.</p><p>O CEO agradeceu. Ele era o tipo de pessoa com uma fascina&#231;&#227;o estranha por profissionais t&#233;cnicos que faziam coisas que ele n&#227;o entendia, mas fingia entender. Estranhamente, eu n&#227;o sentia orgulho quando algo importante sa&#237;a de minhas an&#225;lises. A sensa&#231;&#227;o era a de que eu poderia ter feito melhor, de que poderia ter me esfor&#231;ado mais ou que, de fato, pudesse ter encontrado algo revelador nos dados e mudado alguma coisa. Mesmo assim, vi os olhares estranhos para mim, julgando-me. Talvez porque eu n&#227;o celebrava as pequenas vit&#243;rias, n&#227;o batia palmas nos <em>all-hands</em>, n&#227;o fingia entusiasmo com a pizza &#224;s sextas-feiras.</p><p>Ele passou o slide e ent&#227;o disse que parecia que eu realmente tinha raz&#227;o sobre o que aceleraria o <em>growth</em>. Novamente os olhares em minha dire&#231;&#227;o. Falei algo depois disso, mas era como se minhas palavras n&#227;o tivessem peso, como se, de certa forma, eu estivesse me tornando et&#233;rea, transparente, sumindo &#8212; uma consulta executando silenciosamente no <em>background</em>, correndo contra o tempo para n&#227;o dar <em>timeout</em>.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.wastelandia.com.br/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p><p>&#192; noite, em casa, eu assistia a um streaming, deixando o algoritmo decidir. Recomenda&#231;&#245;es baseadas em 847 horas de visualiza&#231;&#227;o, 73% de conclus&#227;o m&#233;dia, prefer&#234;ncia por document&#225;rios sobre crimes reais. O sistema me conhecia melhor que qualquer pessoa e me alimentava com o que ele sabia que eu gostava. Por um tempo, tentei resistir, mas estava apenas mentindo para mim mesma. Como sempre, os dados n&#227;o mentem.</p><p>Via a informa&#231;&#227;o sendo carregada da mesma forma que passei o dia vendo os dados dos dashboards serem atualizados, da mesma forma que vi o pr&#243;ximo slide ser carregado. O &#237;cone de carregamento, um c&#237;rculo girando eternamente, prometendo que algo estava prestes a acontecer, mas, no fim, nada realmente se concretizava.</p><p>Assim era minha vida: carregando, mas nunca terminava de carregar. Um <em>buffer</em> infinito, uma espera sem resolu&#231;&#227;o, uma promessa pendente em um <em>loop</em> existencial.</p><p>Fora do trabalho e sem os dados, minha vida fazia pouco sentido.</p><p>No dia seguinte, pen&#250;ltimo dia de trabalho antes das f&#233;rias, eu tinha dentista agendado. Marcara antes de saber das f&#233;rias e n&#227;o queria falar com um ser humano para remarcar. O lugar que encontrei pelo plano de sa&#250;de era pr&#243;ximo e conveniente, mas conseguir um hor&#225;rio levava tempo.</p><p>Chegando l&#225;, esperei pacientemente na sala de espera, lendo revistas antigas sem interesse. Por um momento, reparei na recepcionista: cabelos lisos, pretos e grossos, olhos escuros emoldurados por olheiras de quem n&#227;o dormia bem havia tempos. Ela tamborilava os dedos na mesa em um ritmo irregular &#8212; indicador, m&#233;dio, anelar, pausa, repete &#8212;, mordendo o l&#225;bio inferior entre uma liga&#231;&#227;o e outra. Haveria outros padr&#245;es?</p><p>Durante os vinte minutos de espera, enquanto ela falava ao telefone sobre sua situa&#231;&#227;o, descobri que tinha um filho pequeno (mencionou tr&#234;s vezes), que estava muito dif&#237;cil conciliar as coisas (tom de voz ressentido) e que o ar-condicionado do consult&#243;rio a deixava sempre resfriada (dois espirros, limpou o nariz tr&#234;s vezes).</p><p>O tempo passava e eu j&#225; estava atrasada para uma reuni&#227;o importante. Ela se levantou e veio em minha dire&#231;&#227;o:</p><p>&#8212; Oi, &#233; Let&#237;cia, n&#233;? O doutor teve um imprevisto e n&#227;o vai poder atend&#234;-la hoje, infelizmente.</p><p>Disse isso olhando para o ch&#227;o, com vergonha de ter que me dispensar depois de toda a espera. Contei tr&#234;s segundos de sil&#234;ncio constrangedor.</p><p>&#8212; Voc&#234; pode me passar seu WhatsApp? Eu entro em contato para um encaixe.</p><p>Hesitei por uma fra&#231;&#227;o de segundo de processamento. Tinha problemas severos com privacidade, mas recusar criaria uma anomalia social desnecess&#225;ria. Passei o n&#250;mero.</p><p>Ela mandou uma mensagem no dia seguinte, enquanto eu tentava me recuperar de um pedido para incluir um gr&#225;fico de pizza em um dashboard. Gr&#225;fico de pizza &#8212; a visualiza&#231;&#227;o mais in&#250;til j&#225; inventada, mas os CEOs adoram. L&#237;via. Gostei do nome.</p><p>Respondi que, naquele hor&#225;rio, eu poderia chegar em vinte minutos. Calculei a rota: 3,2 km, tr&#226;nsito moderado. No fim, levei dezessete. Nada mal.</p><p>Na cadeira do dentista, vi que ela estava auxiliando, talvez pelo hor&#225;rio extra. De m&#225;scara preta, seus olhos ficavam ainda mais aparentes. Notei como organizava os instrumentos com precis&#227;o met&#243;dica, cada movimento calculado. Bandeja &#224; direita, suc&#231;&#227;o posicionada em um &#226;ngulo de 45 graus, luz ajustada antes mesmo de o doutor pedir. Uma efici&#234;ncia que s&#243; vem da repeti&#231;&#227;o exaustiva. Estaria tentando mudar permanentemente para essa fun&#231;&#227;o?</p><p>N&#227;o conseguia pensar em outra coisa. N&#227;o percebi na hora, mas logo notaria que L&#237;via tamb&#233;m vivia em um <em>buffer</em> de espera intermin&#225;vel. Ela me acompanhou at&#233; a sa&#237;da e destrancou a porta. Falar&#237;amos depois para agendar o retorno, porque ela precisava ir. Vi pelo vidro quando ela saiu &#8212; quase correndo, conferindo o celular a cada cinco passos.</p><p>O dia seguinte era meu &#250;ltimo antes das f&#233;rias for&#231;adas que tive de tirar depois de dois anos trabalhando ali. Uma pessoa processara a empresa &#8212; <em>burnout</em>, ass&#233;dio moral, o de sempre &#8212; e agora tinham que regularizar a situa&#231;&#227;o. Duas semanas obrigat&#243;rias de descanso para todos que nunca tiraram f&#233;rias. N&#227;o deixava de ser um <em>compliance</em> teatral, mas obrigat&#243;rio.</p><p>Mal sabia eu que minha obsess&#227;o por dados me levaria a um caminho ins&#243;lito. Que, sem a rotina de dados corporativos para processar, meu c&#233;rebro encontraria outro <em>dataset</em> para analisar.</p><p>Eu tinha removido isso totalmente da cabe&#231;a, mas, desde que cheguei, todos que me viam perguntavam o que eu faria nas f&#233;rias. A resposta era a mesma: "N&#227;o tenho nada planejado".</p><p>Estava preparando as coisas para a minha aus&#234;ncia quando uma pessoa de Produto veio me pedir um &#250;ltimo favor antes que eu sa&#237;sse. Pediu que eu selecionasse alguns usu&#225;rios recentes, aleatoriamente, para um estudo.</p><p>Nada mais simples. Digitei:</p><p><code>SELECT * FROM users WHERE created_at &gt; '2024-01-01' ORDER BY RANDOM() LIMIT 100;</code></p><p>Rodei a <em>query</em> e, estranhamente, ao passar os olhos pelas linhas dos resultados, um nome saltou: L&#237;via. Conferi o sobrenome, a idade, a cidade. Tentei calcular quantas L&#237;vias deveriam existir em S&#227;o Paulo e me lembrei da mensagem que ela me enviara. O contato era o mesmo que eu salvara. Verifiquei duas vezes, porque n&#227;o acredito em coincid&#234;ncias.</p><p>A probabilidade de se encontrar uma L&#237;via qualquer nessa amostra era de 8,67%, mas de encontrar <em>essa</em> L&#237;via espec&#237;fica entre cem pessoas sorteadas era de aproximadamente 0,0047%.</p><p>Estranho. O aplicativo era usado para encontrar servi&#231;os especializados e contrat&#225;-los de maneira r&#225;pida e sigilosa. Estava se tornando popular, ent&#227;o n&#227;o era surpreendente que ela o usasse, mas sim o fato de que, logo depois de conhec&#234;-la, seu nome aparecesse aleatoriamente entre centenas de milhares de possibilidades.</p><p>Meu impulso foi investigar, coletar mais dados. Por&#233;m, eu n&#227;o podia acessar informa&#231;&#245;es detalhadas sem um motivo jur&#237;dico &#8212; LGPD, <em>compliance</em>, essas coisas &#8212; e lutei contra isso pelo resto do dia.</p><p>Fechei a janela, reabri como se fosse fazer outra consulta. A tabela estava l&#225;, o cursor piscava como um convite, esperando um <em>input</em>.</p><p>Essa necessidade ficou rodando em segundo plano na minha mente, voltando de vez em quando com racionaliza&#231;&#245;es: aquilo n&#227;o era diferente de analisar qualquer outro usu&#225;rio, qualquer outro dado da empresa, como eu j&#225; fizera milhares de vezes. Mas ent&#227;o, por que n&#227;o olhar? O que aquilo queria dizer?</p><p>Depois do almo&#231;o, com minhas defesas mais baixas, a curiosidade falou mais alto. Abri seu perfil. Ali dizia que ela tinha 26 anos, era casada e tinha um filho. Status civil desatualizado. Pelo hist&#243;rico de atividades, vi que ela procurava por advogados, com palavras-chave como: "direito de fam&#237;lia", "pens&#227;o aliment&#237;cia", "urg&#234;ncia".</p><p>Olhei seu endere&#231;o e vi que morava longe. Imaginei as horas que levava at&#233; o consult&#243;rio. Eu estava indo longe demais. Fechei a janela novamente e tentei n&#227;o pensar mais nisso. Por&#233;m, naquela noite, j&#225; em casa e com duas semanas de vazio pela frente, abri o Instagram. Digitei o nome dela e encontrei facilmente &#8212; a foto de perfil mostrava os mesmos olhos escuros, agora sem olheiras, em um filtro Valencia. Rolei para baixo, retrocedendo no tempo, construindo um <em>dataset</em> visual.</p><ul><li><p>Dezembro de 2023: ela e o filho no parque &#8212; <em>geotagged</em> Ibirapuera.</p></li><li><p>Outubro: anivers&#225;rio de 2 anos do menino &#8212; bolo do Homem-Aranha, 47 <em>likes</em>.</p></li><li><p>Agosto: apenas os dois &#8212; a primeira foto sem o marido.</p></li></ul><p>Continuei descendo, mapeando a deteriora&#231;&#227;o.</p><ul><li><p>Mar&#231;o: o marido ainda aparecia &#8212; sorriso for&#231;ado, dist&#226;ncia de 30 cm entre os corpos.</p></li><li><p>Janeiro: os tr&#234;s juntos, sorrindo &#8212; resolu&#231;&#227;o de ano novo, talvez a &#250;ltima tentativa.</p></li><li><p>2022: o nascimento &#8212; 234 <em>likes</em>, pico de engajamento.</p></li><li><p>2021: gr&#225;vida &#8212; progress&#227;o mensal documentada.</p></li><li><p>2020: casamento &#8212; vestido simples, festa pequena.</p></li><li><p>2019: namorando, felizes &#8212; fotos espont&#226;neas, <em>metadata</em> indicando iPhone 8.</p></li></ul><p>Elaborei uma linha do tempo mental. Ela havia se separado por volta de julho, o que era confirmado pela aus&#234;ncia s&#250;bita dele nas fotos. Seis meses sozinha, a julgar pela frequ&#234;ncia de posts sobre "for&#231;a" e "recome&#231;o". Voltou a trabalhar quando o filho tinha 20 meses &#8212; primeira men&#231;&#227;o ao consult&#243;rio.</p><p>Encontrei o @ do marido nas fotos antigas &#8212; Paulo alguma coisa. Perfil aberto. Gerente de vendas em uma concession&#225;ria. <em>Stories</em> de cerveja (Heineken, sempre). Academia (<em>leg day</em>, nunca). Carro novo (Civic 2024, prata). Nenhuma men&#231;&#227;o ao filho desde maio. Nenhuma men&#231;&#227;o a L&#237;via.</p><p>Nos dias seguintes, com o vazio das f&#233;rias for&#231;adas, minha rotina se alterou. O dashboard da manh&#227; virou o Instagram da manh&#227;. As planilhas de clientes viraram as planilhas de L&#237;via. Comecei a tra&#231;ar padr&#245;es, a documentar rotinas: ela postava <em>stories</em> entre 19h e 20h (filho jantando, sempre macarr&#227;o &#224;s quartas), sil&#234;ncio at&#233; as 22h (rotina de dormir, hist&#243;ria do Pequeno Pr&#237;ncipe), &#250;ltimo acesso por volta de meia-noite.</p><p>Aos s&#225;bados, parque pela manh&#227; &#8212; sempre o mesmo banco, mesmo &#226;ngulo. Aos domingos, casa da m&#227;e &#8212; mesma toalha xadrez, mesmo hor&#225;rio de almo&#231;o. Ter&#231;as e quintas, plant&#227;o at&#233; mais tarde &#8212; os <em>stories</em> diminu&#237;am 68% nesses dias.</p><p>Criei um algoritmo mental de previs&#227;o: a probabilidade de um <em>story</em> feliz era inversamente proporcional &#224;s horas trabalhadas. Acur&#225;cia de 84%.</p><p>Foi numa ter&#231;a, s&#233;timo dia de f&#233;rias, que vi o <em>story</em>: "Algu&#233;m conhece bab&#225; confi&#225;vel? Urgente". Postado &#224;s 6h43, hor&#225;rio at&#237;pico, indicando desespero.</p><p>Meu cora&#231;&#227;o acelerou. Senti uma ansiedade que nunca sentira ao pensar no que poderia descobrir. Era uma <em>query</em> direta, uma requisi&#231;&#227;o que eu poderia atender. Um <em>endpoint</em> exposto, esperando uma requisi&#231;&#227;o para me entregar os dados de que eu precisava.</p><p>E ent&#227;o, pela primeira vez, senti uma vertigem arrebatadora. A resposta l&#243;gica teria sido fechar o aplicativo e ignorar o impulso. Era um <em>dataset</em> alheio, uma vida que n&#227;o era minha, protegida por camadas de leis e &#233;tica que eu j&#225; havia contornado perigosamente. Intervir seria corromper a amostra, introduzir uma vari&#225;vel an&#244;mala, cometer um crime para satisfazer... o qu&#234;?</p><p>Enquanto eu assistia a mais um crime ser solucionado na TV, minha mente pintava L&#237;via como um eco. Ela era o mesmo padr&#227;o se repetindo, a mesma espiral descendente, e talvez por isso eu n&#227;o conseguisse abandonar a ideia. O marido ausente, a sobrecarga, o pedido de socorro disfar&#231;ado de post casual. O sistema estava executando a mesma fun&#231;&#227;o, apenas com um <em>input</em> diferente. E eu? O que me incomodava era que eu seria, novamente, apenas o <em>log</em> que registra a falha &#8212; ou nem isso, se simplesmente ignorasse.</p><p>Ou talvez a verdade fosse ainda mais pat&#233;tica. No fundo, eu sabia que aquilo n&#227;o era um experimento. Era uma tentativa desesperada e distorcida de conex&#227;o, um <em>bug</em> no meu pr&#243;prio c&#243;digo que eu tentava transformar em <em>feature</em>. Se eu pudesse intervir, se eu pudesse injetar um par&#226;metro e corrigir o resultado de L&#237;via, talvez isso provasse que o meu pr&#243;prio sistema n&#227;o estava irremediavelmente quebrado. Talvez, ao tir&#225;-la do seu <em>loop</em>, eu pudesse finalmente escapar do meu. Eu n&#227;o estava tentando salvar L&#237;via. Estava tentando provar que eu mesma poderia ser salva. Ou ser&#225; que isso tamb&#233;m era eu, tentando racionalizar algo irracional que n&#227;o deveria ter acontecido?</p><p>Quando os cr&#233;ditos rolaram na televis&#227;o, senti com for&#231;a que n&#227;o conseguiria mais apenas observar. Precisava fazer alguma coisa.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/p/3-buffer?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.wastelandia.com.br/p/3-buffer?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p><p></p><p>No dia seguinte, comprei chips de celular novos e criei um perfil no WhatsApp com um deles. Peguei uma foto de banco de imagens que lembrava vagamente a minha apar&#234;ncia, ajustei a compress&#227;o e apliquei alguns filtros para parecer aut&#234;ntica. Escolhi um nome comum: Marina &#8212; o terceiro mais popular para mulheres da minha faixa et&#225;ria. Elaborei uma mensagem otimizada: hor&#225;rios flex&#237;veis (verdade), experi&#234;ncia com crian&#231;as (mentira, mas pesquisei protocolos b&#225;sicos), com refer&#234;ncias falsas para os outros n&#250;meros que comprei, que cairiam na caixa postal para que eu pudesse responder por mensagem ou disfar&#231;ando a voz.</p><p>"Oi! Vi seu story sobre a bab&#225;. Tenho disponibilidade!"</p><p>Resposta em 12 minutos: "Oi, Marina! Pode vir conversar amanh&#227;?"</p><p>Passei a noite iterando cen&#225;rios, criando &#225;rvores de decis&#227;o para cada poss&#237;vel pergunta. Mudei o cabelo, prendi-o num coque apertado &#8212; estilo eficiente, confi&#225;vel. Tamb&#233;m comprei um par de &#243;culos que n&#227;o uso &#8212; arma&#231;&#227;o discreta, que passa seriedade. Roupas diferentes do meu usual &#8212; cal&#231;a jeans e camiseta branca lisa, o uniforme universal da invisibilidade.</p><p>Cheguei ao endere&#231;o que j&#225; conhecia dos dados. Pr&#233;dio dos anos 80, interfone quebrado. Mandei uma mensagem avisando que j&#225; estava l&#225;. Ela abriu a porta do pr&#233;dio e me disse para subir. Atendeu na porta do apartamento 13, o filho no colo, agarrado ao seu pesco&#231;o.</p><p>&#8212; Marina? Entre!</p><p>O apartamento era menor do que eu calculara com base no bairro &#8212; 45 m&#178; no m&#225;ximo. Brinquedos espalhados de forma aleat&#243;ria, criando obst&#225;culos; um padr&#227;o ca&#243;tico imposs&#237;vel de modelar. O filho me encarava, processando dados visuais, tentando classificar: amiga/estranha/perigo.</p><p>L&#237;via parecia exausta, mais do que no consult&#243;rio. Olheiras mais profundas, sem maquiagem. Havia uma mancha de comida na blusa dela &#8212; papinha de legumes, pela cor &#8212;, e seus cabelos estavam presos de qualquer jeito. Quando sorria para o filho, um vinco aparecia no canto esquerdo da boca, uma assimetria que indicava esfor&#231;o consciente.</p><p>&#8212; Ent&#227;o, &#233; s&#243; para algumas noites por semana. Eu t&#244; pegando plant&#227;o no consult&#243;rio e...</p><p>Ela parou de repente. A pupila dilatou 2 mm. Seu c&#233;rebro iniciara o reconhecimento facial.</p><p>&#8212; A gente se conhece?</p><p>Minha respira&#231;&#227;o parou por tr&#234;s segundos infinitos. Pane geral no sistema. Meu rosto exibia dados que eu n&#227;o conseguia falsificar &#8212; microexpress&#245;es em 43 m&#250;sculos faciais, reconhecimento de padr&#245;es humanos que nenhuma an&#225;lise poderia prever. Milh&#245;es de anos de evolu&#231;&#227;o detectando anomalias.</p><p>&#8212; Acho que n&#227;o &#8212; menti, for&#231;ando um sorriso, com os m&#250;sculos ativados incorretamente, o que poderia entregar a farsa. &#8212; Tenho uma cara comum.</p><p>&#8212; &#201; que... &#8212; ela come&#231;ou, depois balan&#231;ou a cabe&#231;a. &#8212; Deixa pra l&#225;. Desculpa, &#233; que t&#225; corrido. Vamos conversar sobre os hor&#225;rios?</p><p>Ela estava desesperada. Claramente n&#227;o verificaria nada al&#233;m das refer&#234;ncias que entreguei impressas numa pasta.</p><p>A crian&#231;a... O menino se chamava Jo&#227;o. Eu tinha que esquentar a comida congelada, separada em potinhos etiquetados. Um alimento de cada grupo. Nenhum tipo de doce ainda, ele n&#227;o comia. Tinha que dormir &#224; tarde, mas n&#227;o muito. De noite, ia para a cama cedo, 19h30, ou ent&#227;o n&#227;o dormiria mais por horas. Gostava que lessem para ele, sempre a mesma hist&#243;ria (eu j&#225; sabia), e gostava de dormir com cafun&#233;. N&#227;o podia ver mais de meia hora de televis&#227;o, mas, como passara os &#250;ltimos dias vendo TV com a vizinha, seria dif&#237;cil tir&#225;-lo do h&#225;bito, ent&#227;o eu estava liberada para deix&#225;-lo um pouco mais.</p><p>Ela simplesmente se arrumou e foi para o trabalho, deixando-nos ali, sozinhos.</p><p>Assim que ela saiu, ele pediu colo. Eu disse meu nome e ele respondeu: "Malina?". O som saiu dele como se fosse a primeira palavra j&#225; inventada. Ma-li-na. Tr&#234;s s&#237;labas que me decompuseram. Eu o peguei no colo e senti seu peso em meus bra&#231;os. Eu n&#227;o era uma balan&#231;a, n&#227;o conseguia quantificar. Sua temperatura deveria ser de 37,2 &#176;C, ou crian&#231;as t&#234;m uma temperatura diferente? Mais quente? Ele quis brincar com um chocalho de girafa. Disse, do jeito dele, que n&#227;o podia p&#244;r na boca. Aquisi&#231;&#227;o de linguagem entre 18 e 36 meses; com dois anos e meio, faltava pouco, mas ainda n&#227;o chegara l&#225;. Eu cresci abandonada; ele tinha companhia, mesmo que eu n&#227;o soubesse exatamente o que fazer. N&#227;o pediu televis&#227;o. Continuou brincando e pulando at&#233; que, de repente, dormiu.</p><p>Fiquei olhando para ele. Mal dava para ver se respirava. Encostei meu ouvido em seu peito e seu cora&#231;&#227;o batia muito r&#225;pido, batia como um c&#243;digo se repetindo: voc&#234; existe, voc&#234; existe, voc&#234; existe.</p><p>Mas quem existia? Pela primeira vez, me senti real, segurando uma crian&#231;a que me chamava por um nome falso.</p><p>Eu o deixei dormindo no ber&#231;o e sa&#237; do quarto.</p><p>Na sala, tentei me recuperar, ou talvez esquecer aquela sensa&#231;&#227;o concreta de exist&#234;ncia. Ela tinha liberado a Netflix, mas a internet n&#227;o era boa. Parava para carregar de vez em quando, e &#224;s vezes demorava muito. Comecei a olhar em volta e a catalogar, mas, fora a bagun&#231;a, n&#227;o havia muita coisa. Nenhuma foto do ex, nenhum padr&#227;o naquele caos. Comecei a organizar os brinquedos e a limpar a bagun&#231;a.</p><p>Ele acordou, comeu, brincamos mais, e li <em>O Pequeno Pr&#237;ncipe</em> v&#225;rias vezes seguidas, at&#233; que ele dormiu de novo. Eu estava exausta e adormeci no sof&#225;.</p><p>Acordei com um barulho de carro l&#225; embaixo e uma conversa. Logo ela chegou, deixando as coisas na mesa da sala e tirando o casaco.</p><p>&#8212; Muito obrigada por cuidar dele. Deu muito trabalho?</p><p>&#8212; Trabalho nenhum, brincamos muito. Ele &#233; um amor.</p><p>&#8212; Que bom. Eu realmente n&#227;o sabia mais o que fazer. Ainda n&#227;o sei, mas, esta semana, pelo menos, tenho essa solu&#231;&#227;o. Voc&#234; aceita Pix?</p><p>Pix. A palavra me trouxe de volta &#224; realidade da minha situa&#231;&#227;o. Usar essa forma de pagamento me identificaria. Tive que inventar uma desculpa.</p><p>&#8212; Na verdade, n&#227;o. Estou com uma d&#237;vida no banco. Qualquer dinheiro que cai l&#225;, eles tomam. Eu realmente preciso que seja em dinheiro.</p><p>&#8212; Ah... Infelizmente, n&#227;o tenho aqui. Como podemos fazer?</p><p>&#8212; N&#227;o tem problema. Voc&#234; me paga depois, na pr&#243;xima vez.</p><p>Demonstrar confian&#231;a deveria fazer com que ela confiasse em mim.</p><p>&#8212; T&#225; bom.</p><p>&#8212; Voc&#234; precisa de mais alguma coisa? Nos vemos amanh&#227; cedo, ent&#227;o?</p><p>&#8212; N&#227;o... &#8212; ela respondeu, com uma tristeza infinita nos olhos. &#8212; Sim, nos vemos amanh&#227;.</p><p>&#8212; Voc&#234; est&#225; bem? &#8212; perguntei, sem pensar.</p><p>&#8212; N&#227;o... Sim... &#201; s&#243; cansa&#231;o. T&#225; tudo bem.</p><p>Eu travei. Esse n&#227;o era o tipo de dado que eu estava procurando, n&#227;o sabia o que fazer. Pensei em abra&#231;&#225;-la, mas n&#227;o sabia como. Aquilo tinha sido um erro.</p><p>No dia seguinte, tudo correu da mesma forma. Passei o dia com Jo&#227;o, brincamos, fomos &#224; pracinha, assistimos a Palavra Cantada at&#233; ela voltar. O mesmo carro, o rosto dela um pouco melhor.</p><p>&#8212; Acho que vou conseguir a vaga na creche. Isso vai me ajudar muito.</p><p>N&#227;o tive tempo de responder. Algu&#233;m bateu na porta. Ela olhou pelo olho m&#225;gico e abriu. Era o Paulo. Ele subira sem avisar, usando a chave que ainda tinha da entrada do pr&#233;dio.</p><p>Antes que ele me visse, voltei para o quarto de Jo&#227;o, um ref&#250;gio instintivo, e fiquei ouvindo.</p><p>Come&#231;aram a discutir. Da porta entreaberta, eu recebia os dados brutos da f&#250;ria dele. Seu tom de voz era cada vez mais amea&#231;ador, quase gritado. Ele n&#227;o a deixava responder. A probabilidade de agress&#227;o f&#237;sica subia a cada segundo, um gr&#225;fico em ascens&#227;o vertiginosa na minha cabe&#231;a.</p><p>Eram os mesmos gritos. O mesmo padr&#227;o das brigas dos meus pais, que eu registrava em minhas planilhas infantis. Mas, desta vez, era diferente. Eu n&#227;o era mais a crian&#231;a paralisada no outro quarto. Eu era uma vari&#225;vel n&#227;o prevista no sistema dele. Minha presen&#231;a seria uma anomalia. E anomalias quebram <em>loops</em>.</p><p>Ele come&#231;ou a gritar mais forte quando ela cobrou que ele tinha que cuidar do menino, que n&#227;o o fizera sozinha. Paulo respondeu que o filho n&#227;o era dele, que ela era uma vagabunda.</p><p>O menino acordou assustado. "Malina?". E, naquele momento, a decis&#227;o foi tomada. N&#227;o foi um c&#225;lculo, foi um impulso, uma corrup&#231;&#227;o deliberada no <em>script</em> que se desenrolava. Peguei-o no colo, seu peso uma &#226;ncora na minha realidade inst&#225;vel.</p><p>&#8212; Estou aqui.</p><p>Ele gritava cada vez mais alto. Eu sa&#237; do quarto com o menino no colo. Paulo parou e ficou me encarando.</p><p>&#8212; Quem &#233; voc&#234;?! &#8212; ele perguntou.</p><p>&#8212; Marina, a bab&#225;.</p><p>&#8212; Desde quando essa puta tem dinheiro pra pagar bab&#225;? &#201; dinheiro do amante?</p><p>L&#237;via respondeu, solu&#231;ando, que estava trabalhando at&#233; tarde, que eu a levara para casa porque n&#227;o queria que ela andasse sozinha. Que n&#227;o t&#237;nhamos nada.</p><p>N&#227;o entendi por que ela se explicava como se a culpa fosse dela.</p><p>Minha apari&#231;&#227;o o desarmou.</p><p>&#8212; Deixa ela em paz. Deixa eles em paz &#8212; eu disse, minha voz sem peso.</p><p>Ele ficou me olhando, parecia envergonhado por ter uma testemunha, o filho chorando. L&#237;via pegou o menino no colo. Mostrei meu celular.</p><p>&#8212; Eu gravei tudo. Gravei o seu abuso no meu celular.</p><p>L&#237;via levantou os olhos e, por um momento, pareceu-me preocupada com o que eu poderia fazer.</p><p>&#8212; Puta. Voc&#234;s s&#227;o todas umas putas.</p><p>&#8212; Estou enviando para um amigo advogado. Se fizer algo, vou &#224; pol&#237;cia.</p><p>Seus olhos brilhavam de &#243;dio, mas ele n&#227;o disse nada. Bateu a porta e foi embora, deixando para tr&#225;s um sil&#234;ncio mais pesado que os gritos.</p><p>Minhas m&#227;os tremiam, mas n&#227;o era o tremor frio da ansiedade que eu conhecia. Era algo quente, el&#233;trico. Uma parte de mim registrava o perigo que acabara de passar, o medo pela seguran&#231;a de L&#237;via e de Jo&#227;o. Mas outra parte, uma parte que me assustou, sentia uma satisfa&#231;&#227;o perversa. Eu n&#227;o tinha apenas observado o padr&#227;o. Eu o alterara. Com um &#250;nico movimento, eu fui o <em>UPDATE</em> na tabela da vida dele. O poder daquilo era aterrorizante e viciante.</p><p>&#8212; Covarde.</p><p>Foi s&#243; quando olhei para L&#237;via, encolhida, com o rosto banhado em l&#225;grimas enquanto abra&#231;ava o filho, que o efeito da minha interven&#231;&#227;o se tornou real. O resultado n&#227;o era um dashboard limpo com m&#233;tricas de sucesso. Era uma mulher desmoronando. Os dados tinham um rosto, e eles choravam.</p><p>&#8212; Pode ir &#8212; ela disse, a voz quebrada.</p><p>&#8212; Eu n&#227;o vou &#8212; respondi, as palavras saindo antes que eu pudesse analis&#225;-las. &#8212; Se voc&#234; concordar, quero ficar. Caso ele volte.</p><p>Ela assentiu com a cabe&#231;a e come&#231;ou a chorar alto, descontrolada.</p><p>Fiquei no sof&#225;, incapaz de dormir, a tens&#227;o n&#227;o deixava meu corpo. Antes que ela acordasse, preparei o caf&#233; e sa&#237;. Fui para casa e fiquei revendo aquele momento e tantos outros como aquele que aconteceram na minha vida, em <em>loop</em>, tentando entender.</p><p>Aquilo foi demais para mim. Desliguei o celular de "Marina", mas n&#227;o consegui apagar o n&#250;mero. Em menos de cinco minutos, ele j&#225; estava ligado de novo. Vi a mensagem de L&#237;via, perguntando se eu poderia voltar hoje.</p><p>Eu deveria desligar e sumir, mas respondi que sim.</p><p>Nesse dia, Jo&#227;o me esperou na janela e veio me encontrar na porta. N&#227;o sei como ele interpretou o que acontecera no dia anterior, mas parecia feliz. Entregou-me um papel amassado e cheio de rabiscos coloridos, que ele insistia ser um dinossauro. No canto, em letras tortas que certamente a m&#227;o de L&#237;via guiara, estava escrito: "PARA MALINA".</p><p>Meu peito apertou. Era a primeira vez em anos que algu&#233;m me dava algo sem esperar nada em troca. Peguei o papel, dobrei-o com cuidado e o guardei no bolso, as m&#227;os tr&#234;mulas. L&#237;via viu. Nossos olhos se encontraram, e neles havia uma pergunta que nenhuma de n&#243;s faria em voz alta.</p><p>Depois daquela noite, com a amea&#231;a da grava&#231;&#227;o, Paulo sumiu. Os dias foram passando enquanto L&#237;via checava o celular obsessivamente.</p><p>&#8212; Ele n&#227;o atende mais &#8212; disse ela numa noite, fingindo n&#227;o se importar.</p><p>Na verdade, eu sabia onde ele estava. Vira em seu Instagram. Estava com Carla, uma vendedora de sua loja. Dois dias atr&#225;s, postara um <em>story</em>: um texto agradecendo a Deus, com uma legenda cheia de emojis de cora&#231;&#227;o.</p><p>Passei as duas &#250;ltimas noites carregando essa informa&#231;&#227;o, sem saber se deveria contar. N&#227;o era meu lugar. Mas v&#234;-la esperando, checando o telefone... Era minha m&#227;e de novo, presa no <em>buffer</em> eterno.</p><p>Numa noite, enquanto eu esquentava a comida dela antes de ir embora, ela perguntou:</p><p>&#8212; Voc&#234; tem filhos, Marina?</p><p>&#8212; N&#227;o.</p><p>&#8212; Nunca quis?</p><p>Olhei para ela. Vi minha m&#227;e ali, no mesmo precip&#237;cio.</p><p>&#8212; Ele n&#227;o vai voltar &#8212; as palavras sa&#237;ram antes que eu pudesse cont&#234;-las. &#8212; Est&#225; morando com outra pessoa.</p><p>L&#237;via parou de mexer na bolsa. Encarou-me.</p><p>&#8212; Como voc&#234; sabe?</p><p>Menti, disse que os vira por acaso na rua. Ela ficou em sil&#234;ncio por longos segundos, processando.</p><p>&#8212; Minha m&#227;e ficou esperando meu pai voltar at&#233; o dia em que morreu &#8212; continuei, quebrando todos os meus protocolos. &#8212; Ficou presa, carregando para sempre. N&#227;o deixe isso acontecer com voc&#234;.</p><p>&#8212; &#201; diferente. Eu tenho o Jo&#227;o.</p><p>&#8212; Ela tinha a mim. N&#227;o foi suficiente para sair do <em>loop</em>.</p><p>L&#237;via me olhou como se me visse pela primeira vez.</p><p>Na &#250;ltima visita, ela estava diferente. Seus olhos, menos inchados e sem a moldura escura dos outros dias. Pagou-me sem o peso de sempre. Quando nossas m&#227;os se tocaram, ela segurou a minha.</p><p>&#8212; Obrigada por me contar.</p><p>Ent&#227;o, devagar, levou a m&#227;o ao meu rosto e removeu meus &#243;culos.</p><p>&#8212; Eu conhe&#231;o voc&#234;.</p><p>Tentei negar, mas as palavras n&#227;o sa&#237;ram. Disse que sim, que j&#225; tinha ido ao consult&#243;rio, mas as palavras sa&#237;am sem peso. Sem saber o que fazer, sa&#237; dali correndo.</p><p>Corri por tr&#234;s quarteir&#245;es antes de parar. Meu cora&#231;&#227;o batia descompassado, sem padr&#227;o. As pessoas me olhavam. Uma mulher correndo sem motivo aparente, uma anomalia urbana. Continuei andando r&#225;pido, parei e peguei o desenho do dinossauro, amassado no bolso.</p><p>O que eu tinha feito?</p><p>Em casa, desliguei o celular de "Marina" e apaguei tudo. Cada foto, cada mensagem, cada rastro digital. O processo levou 43 minutos. Deveria ter levado 10. Minhas m&#227;os tremiam.</p><p>Que ideia imbecil. O pensamento pat&#233;tico de que n&#227;o poderia mais ir &#224;quele dentista me fez rir de mim mesma, com sarcasmo.</p><p>Quando terminei tudo, ouvi uma notifica&#231;&#227;o no outro telefone. Era L&#237;via.</p><p>"Eu sempre soube."</p><p>"O que voc&#234; sabe?"</p><p>"Que voc&#234; &#233; Marina. Parte de mim est&#225; apavorada. A outra parte... entende a solid&#227;o. N&#227;o sei o que fazer com voc&#234;. Deveria ir &#224; pol&#237;cia, mas voc&#234; me salvou."</p><p>N&#227;o h&#225; o que fazer. Eu s&#243; quero sumir.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.wastelandia.com.br/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p><p>N&#227;o me lembro do fim de semana. Na segunda, de volta ao trabalho, cada pessoa do RH que passava por mim me fazia gelar. A qualquer momento, poderiam descobrir. Viola&#231;&#227;o de dados, invas&#227;o de privacidade, uso indevido de informa&#231;&#245;es sens&#237;veis. Crime, na verdade. V&#225;rios crimes.</p><p>Tranquei-me numa sala de reuni&#227;o vazia e abri o laptop. Os dashboards me esperavam, familiares como velhos amigos que eu tra&#237;ra. Comecei a puxar dados, criar gr&#225;ficos, tentando me perder nos n&#250;meros. <em>Cohort analysis</em>. <em>Retention rate</em>. Os mesmos padr&#245;es de sempre.</p><p>Mas os dados n&#227;o ficaram calados. O desenho do dinossauro n&#227;o sa&#237;a da minha cabe&#231;a. Em cada gr&#225;fico, eu via os olhos de L&#237;via me reconhecendo; a cada batida do meu cora&#231;&#227;o, ouvia as s&#237;labas do seu nome: MA-LI-NA.</p><p>Abri nosso banco de dados. Digitei o nome dela antes de me controlar. O cursor piscava, esperando. Um SELECT * FROM poderia me dizer se ela estava bem, se conseguira o advogado, se Paulo voltara a incomodar.</p><p>Fechei a tela.</p><p>O Slack apitou. Mensagem do CEO: "Bem-vinda de volta. &#211;timo trabalho no dashboard. Os investidores adoraram."</p><p>Olhei para a mensagem sem sentir nada. Os investidores adoraram. Que bom para eles.</p><p>No bolso, o papel do dinossauro que eu ainda carregava. Toquei-o como quem toca uma ferida. Marina n&#227;o existia mais, mas seus restos mortais estavam ali &#8212; um desenho infantil e tr&#234;s s&#237;labas distorcidas, escritas pela m&#227;o de L&#237;via guiando a de Jo&#227;o. Era quase como se eu ainda conseguisse senti-lo.</p><p>Eu tinha invadido uma vida para tentar provar que existia. E agora?</p><p>A tela piscava, esperando. Sempre esperando. Mas, pela primeira vez, o vazio tinha contorno, tinha peso, tinha o som de uma crian&#231;a dormindo, tinha o formato exato do medo nos olhos dela quando Paulo gritava. Fechei os olhos e vi minha m&#227;e. Vi L&#237;via. Vi a mim mesma, refletida infinitamente entre elas &#8212; mulheres paralisadas, carregando eternamente, prometendo que algo estava prestes a acontecer.</p><p>Mas nada acontece. Nada nunca acontece.</p><p>Exceto que Jo&#227;o existe. E, por uma semana, Malina tamb&#233;m existiu. E agora eu estava aqui, Let&#237;cia, nem de fato morta e nem de fato viva, com um dinossauro de papel no bolso e uma mensagem n&#227;o respondida no celular.</p><p>"N&#227;o sei o que fazer com voc&#234;", ela dissera.</p><p>Nem eu sei o que fazer comigo. Peguei o celular e gravei um &#225;udio.</p><p>"Me desculpe. Me desculpe. Eu n&#227;o sei o que me deu. Eu s&#243;... [pausa longa] Eu s&#243; queria... ajudar."</p><p>As palavras saem sem peso, mas, desta vez, eu queria ser ouvida. Queria me conectar. Queria que o padr&#227;o fosse quebrado e que nada daquilo tivesse precisado acontecer.</p><p>No final do dia, terminei o que tinha para fazer e caminhei at&#233; a porta. Vi uma mulher parada ali e reconheci L&#237;via. Quis correr, mas fiquei parada. Ela caminhou em minha dire&#231;&#227;o e parou na minha frente.</p><p>&#8212; O que eu fa&#231;o com voc&#234;? &#8212; ela disse, num tom maternal.</p><p>Meu primeiro pensamento foi com quem ela deixara Jo&#227;o. Tirei o desenho do bolso e tentei entreg&#225;-lo a ela, como se n&#227;o o merecesse. Ela segurou meu bra&#231;o e me puxou para um abra&#231;o. Comecei a chorar como uma crian&#231;a enquanto ela me apertava, finalmente os ciclos se fechavam.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Rascunhos por Marco Domingues! 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Jun 2025 13:01:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qs1_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7d3d48b-44a2-4f5d-9d8f-afc5ac8a0edc_1024x659.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qs1_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7d3d48b-44a2-4f5d-9d8f-afc5ac8a0edc_1024x659.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qs1_!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7d3d48b-44a2-4f5d-9d8f-afc5ac8a0edc_1024x659.png 424w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" 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Por que dedicar tempo a ler e escrever fic&#231;&#227;o em uma &#233;poca onde tudo que parece urgente necessita tamb&#233;m ser pr&#225;tico?</p><p>Come&#231;ando por a&#237;, eu n&#227;o me lembro exatamente da fonte, mas li certa vez que a literatura tem muito conhecimento &#250;til para oferecer. Como uma arte de palavras, no m&#237;nimo ela vai te ajudar a se tornar mais sens&#237;vel &#224; linguagem &#8212; sua e de outras pessoas.</p><p>Em um tempo em que muitas das tarefas de escrita, revis&#227;o e at&#233; mesmo compreens&#227;o mais corriqueiras est&#227;o sendo delegadas para IA, reservar tempo para ler e escrever sem aux&#237;lio me parece essencial para manter essa sensibilidade ativa.</p><p><em>Dito isto, o que exatamente &#233; um conto? </em></p><p>Hist&#243;rias curtas existem h&#225; muito tempo na forma de f&#225;bulas, par&#225;bolas e anedotas, mas o conto moderno &#233; algo do s&#233;culo XIX &#8212; mais recente do que o romance, que tem em torno de tr&#234;s s&#233;culos. Mas o que o torna diferente?</p><p>O conto moderno fez pelo menos tr&#234;s coisas que mudaram a forma como a fic&#231;&#227;o breve era contada. Primeiro, condensou a a&#231;&#227;o da hist&#243;ria &#8212; geralmente em uma &#250;nica situa&#231;&#227;o focada em um &#250;nico personagem. Todo o poder dram&#225;tico e narrativo era comprimido para explorar essa a&#231;&#227;o &#8212; suas motiva&#231;&#245;es, desenvolvimento e efeitos.</p><p>Segundo, essa compress&#227;o narrativa encorajou uma caracteriza&#231;&#227;o mais profunda do protagonista, muitas vezes retratando tanto sua vida interior quanto suas circunst&#226;ncias exteriores, o que deu ao conto um senso elevado de realismo.</p><p>Finalmente, o conto usou a prosa de maneira po&#233;tica. Som e ritmo, imagem e s&#237;mbolo, tom e ponto de vista eram cuidadosamente trabalhados para comunicar n&#227;o apenas o enredo, mas a experi&#234;ncia f&#237;sica e emocional da hist&#243;ria. O resultado foi uma forma de contar hist&#243;rias mais unificada, intensa e expressiva do que qualquer coisa que os leitores de antes do s&#233;culo XIX haviam conhecido.</p><p>No meu conto da semana passada, "Pictures of You", tentei aplicar essas caracter&#237;sticas fundamentais. A a&#231;&#227;o condensada se concentra nos poucos dias entre o match no Tinder e o encontro final com J&#250;lia &#8212; um per&#237;odo curto, mas emocionalmente denso. Escolhi focar em Lucas como personagem &#250;nico atrav&#233;s do qual toda a narrativa flui. </p><p>Para quem ainda n&#227;o leu, o link est&#225; dispon&#237;vel aqui.</p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;6b427aef-ad3d-4919-9e56-2d62cd12412e&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Arrastei para a direita e match. Alice. Na foto ela tinha o cabelo colorido de rosa, na altura do ombro. Olhos verdes. Batom escuro, mas n&#227;o totalmente preto. Filtros? Talvez. 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Um espa&#231;o para a pr&#225;tica e a explora&#231;&#227;o da escrita.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ac66e550-b5d5-4726-a116-738a92cc03ed_1000x1000.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2025-06-21T18:58:42.248Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!36JU!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F02703c28-d68e-4a6d-ab87-56b751856709_1024x1024.png&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/p/pictures-of-you&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:166474759,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:0,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:null,&quot;publication_name&quot;:&quot;Rascunhos por Marco Domingues&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!H4Pt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b2c4092-4893-481a-b486-83995df5fe9f_1024x1024.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p>N&#227;o estou afirmando que consegui cem por cento do que queria &#8212; os textos aqui s&#227;o exerc&#237;cios e n&#227;o t&#234;m a pretens&#227;o de serem ou se compararem a obras-primas finalizadas. Mas como n&#227;o posso usar contos existentes como exemplo e como meu objetivo &#233; me for&#231;ar a escrever e pensar novamente sobre literatura, esse &#233; o caminho que seguiremos.</p><p>Enfim, essa compress&#227;o narrativa me permitiu explorar profundamente a caracteriza&#231;&#227;o:</p><ul><li><p><strong>Lucas</strong> emerge atrav&#233;s de suas a&#231;&#245;es pat&#233;ticas (a masturba&#231;&#227;o ap&#243;s ver a foto de Alice, o stalking compulsivo nas redes sociais) e sua voz interior autodepreciativa ("Sempre fui pat&#233;tico", "Rob&#244; de carne com defeito de f&#225;brica")</p></li><li><p><strong>Alice</strong> &#233; revelada atrav&#233;s de contradi&#231;&#245;es &#8212; ora vulner&#225;vel e doente, ora manipuladora e cruel</p></li><li><p><strong>C&#233;lio e J&#250;lia</strong> funcionam como polos opostos: ele como o ideal inating&#237;vel, ela como a possibilidade real</p></li></ul><p>A ambienta&#231;&#227;o na S&#227;o Paulo (e outras cidades grandes) underground &#8212; do Ferro Velho aos apartamentos prec&#225;rios &#8212; espelha o estado interior dos personagens.</p><p>Tento usar a kitnet de 32m&#178; de Lucas como met&#225;fora de sua vida constrita, enquanto o caos da casa compartilhada de Alice reflete sua instabilidade emocional.</p><p>Quanto ao uso po&#233;tico da prosa, tentei empregar:</p><ul><li><p><strong>Repeti&#231;&#245;es obsessivas</strong>: "Swipe. Swipe. Swipe" para mimetizar a compuls&#227;o mec&#226;nica</p></li><li><p><strong>Imagens viscerais</strong>: a camisinha usada, o v&#244;mito, o suor &#8212; criando uma textura f&#237;sica para a degrada&#231;&#227;o emocional</p></li><li><p><strong>Fluxo de consci&#234;ncia fragmentado</strong>: permitindo acesso direto &#224; mente perturbada de Lucas</p></li><li><p><strong>Refer&#234;ncias culturais</strong> (The Cure, Joy Division, Paul Auster) que criam camadas de significado &#8212; n&#227;o &#233; coincid&#234;ncia que "Pictures of You" toque enquanto Alice beija outro</p></li></ul><p>O realismo sujo que tento empregar &#8212; inspirado em Bukowski, que os personagens citam &#8212; permite que eu explore temas como obsess&#227;o, autodestrutividade e solid&#227;o urbana sem romantiza&#231;&#227;o. &#201; essa crueza, essa recusa em embelezar a experi&#234;ncia humana, que o conto como forma permite de maneira &#250;nica.</p><p>&#201; exatamente essa sensibilidade para as nuances da linguagem e da experi&#234;ncia humana que precisamos cultivar ativamente, especialmente agora que temos ferramentas que podem simular escrita, mas n&#227;o podem verdadeiramente capturar a complexidade bagun&#231;ada e contradit&#243;ria de ser humano.</p><p>N&#227;o sei exatamente se consegui o que queria com "Pictures of You", mas foi um exerc&#237;cio que me deu bastante prazer ao longo da semana passada. Escrever &#233; isso tamb&#233;m &#8212; tentar, errar, acertar &#224;s vezes, e principalmente continuar tentando entender o que significa ser humano atrav&#233;s das palavras.</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/p/2-anatomia-de-um-conto-dissecando?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.wastelandia.com.br/p/2-anatomia-de-um-conto-dissecando?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p><p></p><p><strong>Sobre o pr&#243;ximo conto: "Buffer"</strong></p><p>Eu tenho outros textos prontos, mas eu os achei muito violentos ou longos para essa semana, ent&#227;o, para o pr&#243;ximo exerc&#237;cio, decidi explorar um territ&#243;rio diferente. </p><p>Pedi para o Chatgpt gerar um prompt e o que saiu foi:<br></p><p><strong>"Buffer"</strong></p><blockquote><p>Analista de dados em startup. Passa 10 horas di&#225;rias criando dashboards que ningu&#233;m l&#234;. &#192; noite, assiste 6 epis&#243;dios seguidos de uma s&#233;rie que esquece no dia seguinte. Percebe que sua vida &#233; um buffer infinito - sempre processando, nunca executando. Desenvolve ins&#244;nia e fica observando a barrinha de loading do Netflix. A espera como &#250;nica constante.</p></blockquote><p>N&#227;o parecia material para um conto, mas &#233; esse o objetivo, me for&#231;ar a fazer coisas mesmo que n&#227;o sejam t&#227;o &#243;bvias &#224; primeira vista. </p><p>Comecei a escrever o primeiro par&#225;grafo e a colocar algumas camadas e personagens e o exerc&#237;cio come&#231;ou a ficar mais interessante do que eu tinha imaginado. </p><p>No fim, o que me interessou nessa premissa foi a possibilidade de explorar outra forma de aliena&#231;&#227;o contempor&#226;nea. Se em "Pictures of You" trabalhei com a obsess&#227;o rom&#226;ntica e a masculinidade t&#243;xica atrav&#233;s de Lucas &#8212; "Sempre fui pat&#233;tico" &#8212;, em "Buffer" quis investigar o vazio existencial atrav&#233;s de dados e m&#233;tricas.</p><p>Let&#237;cia, a protagonista, vive sua vida como uma planilha Excel: </p><blockquote><p>Eu tinha uma tabela com os hor&#225;rios de meu pai: quando sa&#237;a e chegava, quando brigavam, quando registrava sons amb&#237;guos do quarto tentando classificar se era amor ou viol&#234;ncia, ou ambos.</p></blockquote><p> Mas diferente de Lucas, que se perde em sua pr&#243;pria inadequa&#231;&#227;o, Let&#237;cia tenta quantificar o inquantific&#225;vel &#8212; as emo&#231;&#245;es humanas.</p><p>A ideia do buffer como met&#225;fora central surgiu naturalmente: </p><blockquote><p>"Assim era minha vida: carregando, mas nunca carregava. Um buffer infinito, espera sem resolu&#231;&#227;o, uma promessa pendente em um loop de eventos existencial." </p></blockquote><p>&#201; uma imagem que todos reconhecemos &#8212; aquele c&#237;rculo girando eternamente, prometendo que algo est&#225; prestes a acontecer.</p><p>O conto est&#225; se tornando uma explora&#231;&#227;o sobre voyeurismo digital, invas&#227;o de privacidade e a tentativa desesperada de conex&#227;o humana em tempos de hiperconectividade. </p><p>Quando Let&#237;cia invade a vida de outra personagem atrav&#233;s de dados, ela n&#227;o est&#225; apenas cometendo um crime &#8212; est&#225; tentando provar que pode alterar padr&#245;es, que pode existir al&#233;m dos n&#250;meros.</p><p>&#201; ir&#244;nico (ou talvez apropriado) que uma IA tenha sugerido uma hist&#243;ria sobre algu&#233;m que tenta escapar da exist&#234;ncia algor&#237;tmica. Em breve compartilho o conto completo &#8212; mais uma tentativa de capturar o que significa estar vivo nesta era digital, quando at&#233; nossas hist&#243;rias s&#227;o sugeridas por m&#225;quinas.</p><p>Mas essa &#233; apenas minha leitura &#8212; adoraria ouvir a sua. O que achou? O que te incomodou? O que ressoou? Qual outra d&#250;vida surgiu durante a leitura?</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Rascunhos por Marco Domingues! 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Depois come&#231;ou a balan&#231;ar levemente.]]></description><link>https://www.wastelandia.com.br/p/pictures-of-you</link><guid isPermaLink="false">https://www.wastelandia.com.br/p/pictures-of-you</guid><dc:creator><![CDATA[Marco Domingues]]></dc:creator><pubDate>Sat, 21 Jun 2025 18:58:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!H4Pt!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0b2c4092-4893-481a-b486-83995df5fe9f_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Arrastei para a direita e match. Alice. Na foto ela tinha o cabelo colorido de rosa, na altura do ombro. Olhos verdes. Batom escuro, mas n&#227;o totalmente preto. Filtros? Talvez. N&#227;o estava procurando autenticidade e, portanto, mandei mensagem.</p><p>&#8220;T&#225; fazendo o que no r&#233;veillon?&#8221;</p><p>Fiquei olhando os tr&#234;s pontinhos aparecerem e desaparecerem. Aparecerem de novo. Isso j&#225; foi suficiente para me deixar ansioso de um jeito constrangedor e adolescente.</p><p>Ela respondeu imediatamente.</p><p>&#8220;Morrendo num bar qualquer. A fdp da minha amiga sumiu com um random.&#8221;</p><p>&#8220;Puts, t&#244; em casa na mesma vibe. Bebendo sozinho igual um emo dos anos 2000.&#8221;</p><p>&#8220;Kkkkk pelo menos vc tem vodka a&#237;. Aqui s&#243; tem cerveja cara e gente insuport&#225;vel.&#8221;</p><p>Passamos a virada trocando mensagens. Minha imagina&#231;&#227;o trabalhando horas extras, criando cenas que nunca aconteceriam. Mandei foto do meu copo de vodka. Ela mandou uma selfie no banheiro do bar, a boca entreaberta, olhos vidrados. Sozinho no apartamento, fiz o que j&#225; sabia que faria no momento em que vi a foto. R&#225;pido, mec&#226;nico. Limpei a m&#227;o na camiseta &#8212; mais uma mancha na minha cole&#231;&#227;o de derrotas.</p><p>Perto do amanhecer, b&#234;bado de coragem e solid&#227;o, mandei:</p><p>&#8220;Bora se ver amanh&#227;? Ou melhor, hoje n&#233;?&#8221;</p><p>&#8220;Por que n&#227;o?&#8221;</p><p>Ela escolheu um lugar alternativo no meio do caminho. Nos ver&#237;amos &#224;s 19h.</p><p>Dormi o resto do dia. Sonhei que estava transando com ela, mas quando olhava seu rosto, n&#227;o tinha nada ali. Acordei com a boca seca, um gosto alien&#237;gena. O despertador tocou &#224;s 17h. Por um momento tinha esquecido do motivo de ter colocado ele para tocar. Olhei o celular. A conversa ainda estava l&#225;. N&#227;o tinha sido um sonho.</p><p>Tomei banho, o sabonete barato do mercadinho aqui da frente que resseca a pele. Esfreguei os dentes at&#233; a gengiva sangrar. Passei desodorante demais, depois me preocupei que estava fedendo a Axe adolescente. Me vesti: cal&#231;a preta, camiseta preta, All Star preto. Olhei no espelho. Parecia um gar&#231;om deprimido. Era o que tinha.</p><div><hr></div><p>O lugar tinha um palco para apresenta&#231;&#245;es ao vivo, mas naquele dia estava deserto. Dia primeiro, todo mundo de ressaca ou com coisa melhor para fazer. S&#243; n&#243;s dois, aparentemente, n&#227;o t&#237;nhamos para onde ir.</p><p>Pedi uma cerveja e esperei. A espuma desceu devagar, formando uns desenhos que pareciam mapas de pa&#237;ses que n&#227;o existiam. Meia hora. Chequei o WhatsApp. Online h&#225; 2 minutos. Uma hora. Online h&#225; 15 minutos. Comecei a decorar os cartazes nas paredes. Uma banda de punk mel&#243;dico que se apresentaria na pr&#243;xima sexta. Um poeta slam na ter&#231;a. Todos eventos que eu nunca iria.</p><p>O barman me media de vez em quando. Alto, bra&#231;os tatuados. Limpava o mesmo copo h&#225; vinte minutos. Provavelmente n&#227;o gostava desses tipos que ficavam vendo a cerveja esquentar. Pensei em pedir outra s&#243; para parecer menos in&#250;til. N&#227;o pedi.</p><p>Quando ela finalmente apareceu, achei ela mais bonita que na foto. Saia preta desfiada, coturnos, camiseta do Ramones regata. Os bra&#231;os magros, brancos, com umas marquinhas que pareciam antigas cicatrizes. Ela tinha os dentes um pouco para tr&#225;s e os caninos proeminentes, o que a tornava ainda mais atraente para mim. Quando sorriu, vi que a gengiva aparecia um pouco demais. Perfeita.</p><p>&#8212; Desculpa o atraso.</p><p>N&#227;o parecia desculpa de verdade.</p><p>&#8212; Tranquilo.</p><p>Mentira.</p><p>Come&#231;amos a tentar achar algo em comum. Aquela dan&#231;a desconfort&#225;vel do primeiro encontro. Ela disse que gostava da mesma cerveja que eu estava tomando. Mentira &#8212; ela fez uma careta no primeiro gole. Disse tamb&#233;m que n&#227;o gostava de vodka. Lembrava sua m&#227;e. Provavelmente verdade. Evitava meu olhar quando tentava olhar fundo em seus olhos. Eu suava. Comecei a achar que sentia o cheiro do suor misturado com o desodorante subindo de minhas axilas e tive vontade de correr dali.</p><p>&#8212; Voc&#234; trabalha com qu&#234;? &#8212; ela perguntou.</p><p>&#8212; Sou... trabalho numa loja. &#8212; N&#227;o consegui dizer balconista. Eu estava com a faculdade trancada tentando entender o que fazer da vida.</p><p>&#8212; E voc&#234;?</p><p>&#8212; Entre empregos, acabei de terminar a faculdade de letras. Antes trabalhava em uma editora universit&#225;ria.</p><p>Sugeriu que fossemos a outro lugar. Tinha se arrependido de ter escolhido ali. Claro que tinha. Eu n&#227;o era o tipo de cara que voc&#234; leva pros seus lugares. Pegamos um Uber. No caminho, ela foi falando dos pr&#233;dios antigos, dos imigrantes italianos e do passado anarquista da cidade. Usava palavras como &#8220;gentrifica&#231;&#227;o&#8221; e &#8220;resist&#234;ncia cultural&#8221;. Fingi que entendia tudo. Ela disse que, naquele dia, se sentia anarquista. Fiquei olhando para o joelho dela, imaginando minha m&#227;o ali e como ela reagiria. N&#227;o tive coragem de testar. Juntei as m&#227;os e as deixei ali, suando.</p><p>O lugar se chamava Ferro Velho. Combinava com as pessoas que estavam ali &#8212; coisas esquecidas pelo tempo, mas n&#227;o o suficiente para terem desaparecido. O cheiro de cigarro e cerveja velha impregnado nas paredes. Mofo tamb&#233;m. Punks, g&#243;ticos, artistas. Todos mais bonitos que eu, mais interessantes que eu. Todos a conheciam.</p><p>&#8212; E a&#237;, Alice! &#8212; gritou uma mina de cabelo azul.</p><p>&#8212; Quanto tempo, gata! &#8212; disse um cara de jaqueta de couro.</p><p>E ela disse:</p><p>&#8212; O que eu posso fazer, sou uma curva de rio.</p><p>Acenei com a cabe&#231;a, guardando a frase para googlar depois.</p><p>Continuamos bebendo. Nossa cerveja favorita &#8212; pelo menos ela parou de fingir e pediu outra coisa. Uma IPA cara que eu paguei. Descobrimos que gost&#225;vamos do mesmo diretor de cinema (Kubrick, &#243;bvio), do mesmo escritor (Bukowski, mais &#243;bvio ainda). Come&#231;ava a sentir aquela sensa&#231;&#227;o estranha toda vez que olhava para ela ou a ouvia rir. Minhas m&#227;os tremiam um pouco.</p><p>&#8212; Voc&#234; conhece Paul Auster? &#8212; ela perguntou de repente.</p><p>&#8212; N&#227;o.</p><p>&#8212; Claro que n&#227;o. &#8212; Mas disse sem maldade. &#8212; Ele escreve sobre coincid&#234;ncias que n&#227;o s&#227;o coincid&#234;ncias. Tipo, voc&#234; liga pro n&#250;mero errado, mas era o n&#250;mero certo. Identidades que se dissolvem. Cidades como labirintos. &#8212; Parou, bebeu. &#8212; &#192;s vezes acho que vivo dentro de um livro dele. Perdida na pr&#243;pria hist&#243;ria. Heran&#231;a do meu pai. Quando ele morreu era obcecado por esse escritor.</p><p>&#8212; Meus p&#234;sames. &#8212; Isso saiu horr&#237;vel, como qualquer coisa que poderia dizer para algu&#233;m que perdeu algu&#233;m pr&#243;ximo.</p><p>&#8212; &#8220;O dia come&#231;a, voc&#234; n&#227;o quer viver, porque n&#227;o bota f&#233; em quem est&#225; contigo.&#8221; &#8212; &#201; a m&#250;sica do Iggy Pop que o Ian Curtis tava ouvindo quando se matou. Meu pai fez a encena&#231;&#227;o completa. Stroszek e tudo. Mas tudo bem, assim &#233; a vida.</p><p>Ela come&#231;ou a contar uma hist&#243;ria de quando fazia teatro. Gesticulava muito, derrubou um pouco de cerveja na mesa. N&#227;o limpou. Imitava os exerc&#237;cios bizarros de respira&#231;&#227;o que teve que fazer na primeira e &#250;nica aula que ela foi. Todo mundo olhava pra gente. Pra ela. Eu era s&#243; o cara sentado do lado.</p><p>&#8212; O professor mandou a gente imitar um animal dando &#224; luz &#8212; ela ria. &#8212; Tipo, como voc&#234; imita isso?</p><p>Ela fez uns sons guturais. Algumas pessoas riram. Notei que agora eu &#233; que evitava seus olhos. Mudei de posi&#231;&#227;o, desconfort&#225;vel com meu pr&#243;prio corpo.</p><p>&#8212; Preciso fumar... &#8212; me levantei r&#225;pido.</p><p>&#8212; Eu tamb&#233;m.</p><p>Fomos na frente do bar. O frio da noite bateu no meu rosto suado. Melhor. Eu tirei o Marlboro vermelho do bolso, as m&#227;os ainda tremendo um pouco. Ela pediu um.</p><p>Antes de acender, ela se abaixou para amarrar o cadar&#231;o do All Star. A calcinha apareceu um pouco acima da saia. Preta. Renda. Ela deu uma volta por tr&#225;s do cadar&#231;o antes de amarrar. Meu cora&#231;&#227;o disparou. Eu tamb&#233;m fazia assim. Desde crian&#231;a. Minha m&#227;e dizia que era errado. Foda-se.</p><p>Ela se levantou e pegou o isqueiro da minha m&#227;o. A chama iluminou seu rosto por um segundo. Dava pra ver uma espinha mal escondida pela maquiagem no queixo. Os poros dilatados no nariz. Linda. Pensei em dizer algo sobre o cadar&#231;o, mas soaria estranho demais. &#8220;Ei, tamb&#233;m amarro meu t&#234;nis assim!&#8221; Rid&#237;culo.</p><p>Fumamos olhando os carros passar. Um mendigo pediu um cigarro. Dei. O sil&#234;ncio dela era diferente do meu. O meu era ansioso, procurando o que dizer. O dela era s&#243;... sil&#234;ncio.</p><p>Eu joguei a bituca acesa rodando no ar e fiquei olhando a trajet&#243;ria. Coisa de adolescente. Ela apagou o dela na sola do sapato, profissional. Voltamos para a mesa. Sentia que tinha perdido uma chance de ter tornado aquele momento especial. Mas o que eu diria? &#8220;Voc&#234; me completa&#8221;? &#8220;Acho que te conhe&#231;o de outras vidas&#8221;? Tudo soava rid&#237;culo na minha cabe&#231;a.</p><p>Na mesa, finalmente est&#225;vamos sozinhos. Nenhum conhecido dela por perto, nenhuma hist&#243;ria. Ela me olhou e sorriu. Aquele sorriso com gengiva demais. Eu me aproximei, devagar. Podia sentir o cheiro dela &#8212; cigarro, cerveja, um perfume doce demais que n&#227;o combinava com o visual. Fechei os olhos.</p><p>&#8212; Alice!</p><p>O dono do bar gritou como se estivesse vigiando esse momento. Abri os olhos. Alice j&#225; estava distante de novo.</p><p>&#8212; Quantas cervejas foram? Esqueci de marcar.</p><p>Alice levantou as duas m&#227;os mostrando seis dedos. Seis? Eu tinha contado quatro. N&#227;o importava, eu pagaria quantas fossem.</p><p>Olhei em volta e me senti vigiado. Eu era a &#250;nica pessoa que n&#227;o pertencia &#224;quele lugar, eles estavam cuidando do que era deles por direito. Um cara de cabelo verde sussurrou algo para a garota ao lado e ela riu olhando em nossa dire&#231;&#227;o. Enfiei a m&#227;o no bolso procurando outro cigarro. Precisava de algo para fazer com as m&#227;os, com a boca, qualquer coisa menos ficar ali esperando o pr&#243;ximo movimento num jogo que eu claramente n&#227;o entendia as regras.</p><p>Ela me encarou por um segundo. Estudando. Depois acendeu um cigarro ali mesmo, dentro do bar.</p><p>&#8212; N&#227;o pode fumar aqui &#8212; eu disse, olhando em volta. Placa clara na parede: PROIBIDO FUMAR.</p><p>&#8212; E? &#8212; Ela soprou a fuma&#231;a na minha dire&#231;&#227;o. &#8212; O que v&#227;o fazer, me expulsar do meu pr&#243;prio quintal?</p><p>O dono do bar passou por n&#243;s e n&#227;o disse nada. Claro. As regras n&#227;o se aplicavam a ela.</p><p>&#8212; Voc&#234; t&#225; muito tenso. &#8212; Ela pediu mais duas cervejas. Fiz as contas na cabe&#231;a. Tinha sobrado s&#243; 50 reais na carteira. Talvez desse. &#8212; Relaxa, ningu&#233;m aqui morde. Bom, a J&#250;lia ali talvez morda, mas s&#243; se voc&#234; pedir com carinho.</p><p>Apontou para uma garota de cabelo roxo que estava encostada no balc&#227;o. A garota piscou de volta. Tinha um piercing no septo que brilhava sob a luz fraca. Bonita demais para mim. Todas ali eram bonitas demais para mim.</p><p>&#8212; Todo mundo aqui tem uma hist&#243;ria &#8212; ela continuou, j&#225; meio alta. Parou, olhou o celular. A tela iluminou seu rosto por um segundo &#8212; 3 chamadas perdidas. Bloqueou r&#225;pido, mas vi o nome: M&#227;e. &#8212; Como eu tava dizendo... &#8212; A voz ficava mais rouca quando bebia. &#8212; O Carlos ali, do cabelo verde? Fugiu de casa aos 15, morou na rua, hoje faz as melhores tatuagens da cidade. A Marina, aquela de preto, escreve poesia sobre tudo que sobreviveu. E o C&#233;lio...</p><p>Ela parou. Deu um gole longo na cerveja. Uma gota escorreu pelo canto da boca. Ela limpou com as costas da m&#227;o.</p><p>&#8212; O C&#233;lio &#233; diferente. Voc&#234;s iam se dar bem, na real. S&#227;o parecidos. &#8212; Meu est&#244;mago apertou. L&#225; vinha. &#8212; Quer dizer, ele &#233; mais... sei l&#225;. Conhece mais coisa. Cinema, literatura, m&#250;sica. Sempre sabe uma banda que voc&#234; nunca ouviu, um diretor que voc&#234; precisa conhecer. Semana passada ele me apresentou um filme iraniano que mudou minha vida.</p><p>Um filme iraniano. &#201; claro. Eu mal conseguia acompanhar os filmes da Marvel.</p><p>&#8212; Ele escreve tamb&#233;m. Poesia, contos. J&#225; publicou em umas revistas indies. Tem um livro saindo ano que vem.</p><p>Tentei parecer desinteressado. Falhei. Podia sentir minha mand&#237;bula travando.</p><p>&#8212; E voc&#234;s...?</p><p>&#8212; A gente o qu&#234;? &#8212; Ela riu. Mas n&#227;o era uma risada feliz. &#8212; Nunca rolou nada. Ele &#233; o &#250;nico aqui que nunca nem tentou. Todo mundo j&#225; deu em cima de mim alguma vez, menos ele. At&#233; a J&#250;lia j&#225; tentou, e olha que ela &#233; h&#233;tero. Mas o C&#233;lio? Nada. &#201; como se eu fosse invis&#237;vel.</p><p>O sil&#234;ncio era como um v&#225;cuo que sugava tudo ao redor. Aquela tens&#227;o do quase-beijo ainda pairava entre n&#243;s, mas agora misturada com a ideia vaga desse cara que eu nem conhecia, mas j&#225; odiava. Imaginei ele: alto, magro, &#243;culos talvez. Barba bem feita. Provavelmente n&#227;o suava comprando cerveja cara para impressionar mina.</p><p>Ela se levantou de repente. A cadeira raspou no ch&#227;o.</p><p>&#8212; Vou colocar uma m&#250;sica.</p><p>Foi at&#233; a jukebox no canto. Vi ela passar o dedo pelas op&#231;&#245;es, inclinar a cabe&#231;a. A luz verde da m&#225;quina iluminava seu rosto, deixando-a quase fantasmag&#243;rica. Fiquei olhando as costas dela, a maneira como mudava o peso de um p&#233; para o outro. A saia subiu um pouco. Dava para ver a parte de tr&#225;s das coxas, p&#225;lidas.</p><p>Quando come&#231;ou a tocar &#8220;Pictures of You&#8221; do The Cure, ela n&#227;o voltou para a mesa. Ficou ali parada por um momento, de costas para mim. Depois come&#231;ou a balan&#231;ar levemente. N&#227;o era bem uma dan&#231;a, mais um balan&#231;o triste de quem est&#225; b&#234;bada e melanc&#243;lica.</p><p>Um cara se aproximou. Alto, magro, todo de preto. N&#227;o era o C&#233;lio &#8212; esse era s&#243; mais um. Cabelo oleoso, jaqueta de couro falso. Come&#231;aram a dan&#231;ar juntos, primeiro distantes. Ele disse algo no ouvido dela. Ela riu &#8212; aquela risada que eu j&#225; queria s&#243; para mim. As m&#227;os dele encontraram a cintura dela.</p><p>Me levantei pela metade, depois sentei de novo. O que eu ia fazer? Brigar? Eu mal conseguia fazer flex&#227;o.</p><p>E ent&#227;o, como se fosse a coisa mais natural do mundo, eles se beijaram.</p><p>Mas ela mantinha um olho entreaberto, me encarando. A l&#237;ngua dela na boca dele, mas o olho em mim. N&#227;o era acidente. Era uma mensagem. Continuou me olhando enquanto beijava o cara, a m&#227;o dele descendo para a bunda dela. Como se dissesse: &#8220;Viu? &#201; assim que se faz. &#201; isso que o C&#233;lio n&#227;o quer. &#201; isso que voc&#234; tamb&#233;m n&#227;o vai ter.&#8221;</p><p>Peguei minha carteira. Cinquenta reais n&#227;o iam cobrir a conta. Deixei tudo na mesa mesmo assim. O barman ia ter que se contentar com isso. Sa&#237; sem olhar para tr&#225;s, mas podia ouvir a risada dela atr&#225;s de mim.</p><div><hr></div><p>Acordei &#224;s 6 da manh&#227; com a boca seca e o celular vibrando. Tinha dormido de roupa. Mensagem dela.</p><p>&#8220;Mds t&#244; morrendo&#8221;</p><p>Li deitado. Visualizei. Esperei. Outra mensagem.</p><p>&#8220;Ontem foi foda n&#233;&#8221;</p><p>&#8220;Vem aqui? Pfvr&#8221;</p><p>Olhei a hora de novo. N&#227;o eram 6, eram meio-dia. Meus olhos estavam grudados. Minha cabe&#231;a latejava. No ch&#227;o, a garrafa de vodka que tinha comprado na volta estava pela metade. N&#227;o lembrava de ter bebido tanto.</p><p>&#8220;Preciso de ajuda real&#8221;</p><p>&#8220;T&#244; passando mal&#8221;</p><p>Pensei em n&#227;o responder, em bloquear, em fingir que ontem n&#227;o tinha acontecido. Mas n&#227;o conseguia controlar meu desejo. Imaginando ela de ressaca, vulner&#225;vel, precisando de mim. Talvez ainda estivesse com a roupa de ontem. Talvez estivesse sem roupa nenhuma.</p><p>Levantei procurando minha cal&#231;a no ch&#227;o. A cueca estava dura de esperma seco. Tinha me masturbado pensando nela quando cheguei em casa. Nem lembrava. Vesti a mesma cueca mesmo assim.</p><p>&#8220;T&#244; indo&#8221;</p><p>Meia hora depois estava na porta dela. Parei no caminho para comprar Gatorade e Doritos. Coisas de ressaca. O cara do caixa me olhou com pena. Devia estar na cara.</p><p>Um sobrado velho dividido entre cinco pessoas. A tinta descascando, grades enferrujadas. A roommate que atendeu me olhou com pena.</p><p>&#8212; Ela t&#225; no quarto. &#218;ltima porta.</p><p>O quarto dela cheirava a cigarro, cerveja azeda e algo mais. Sexo. Aquele cheiro caracter&#237;stico de fluidos corporais secos. V&#244;mito tamb&#233;m. Ela estava encolhida na cama, ainda com a roupa de ontem. A maquiagem borrada formava duas manchas pretas abaixo dos olhos. O batom tinha sumido, deixando s&#243; uma mancha roxa no travesseiro.</p><p>&#8212; Oi. &#8212; A voz rouca, quebrada.</p><p>&#8212; Oi.</p><p>&#8212; Desculpa ontem. Eu... bebi demais.</p><p>Sentei na beirada da cama. O colch&#227;o afundou, velho e molenga. Ela estava p&#225;lida, suando. O cabelo rosa grudado na testa. Dava para ver as ra&#237;zes escuras crescendo. Menos m&#225;gica na luz do dia.</p><p>&#8212; Trouxe Gatorade &#8212; eu disse, estendendo a garrafa.</p><p>Ela fez que n&#227;o com a cabe&#231;a. Cobriu a boca com a m&#227;o.</p><p>&#8212; Vou no banheiro &#8212; eu disse.</p><p>&#8212; Usa o l&#225; de dentro, esse daqui t&#225; nojento.</p><p>Entrei mesmo assim. Precisava ver. O cheiro me atingiu primeiro &#8212; v&#244;mito fresco misturado com merda. O vaso estava entupido, papel higi&#234;nico boiando em &#225;gua amarelada. No lixo, entre papel higi&#234;nico e embalagens de rem&#233;dio, uma camisinha usada. O l&#225;tex meio enrolado, o conte&#250;do se liquefazendo e escorrendo.</p><p>Meu est&#244;mago revirou. Era ele? O cara do bar? Ou outro que apareceu depois? Lavei o rosto na pia suja. Havia pelos pubianos grudados no sabonete.</p><p>Sozinho no quarto, meu olho foi direto para a mesa de cabeceira. Entre cinzeiros improvisados e copos sujos, a cartela de camisinhas. Durex. Extra sens&#237;vel. Faltava uma. Um livro aberto, virado para baixo &#8212; &#8220;Cidade de Vidro&#8221;, Paul Auster. As p&#225;ginas amareladas, margin&#225;lia a l&#225;pis. Do outro lado, uma garrafa de vinho tinto cara, intocada. Marca francesa que eu n&#227;o sabia pronunciar. Estranha ali, no meio daquela bagun&#231;a. Como se fosse de outro filme.</p><p>Ela voltou cuspindo, limpando a boca com as costas da m&#227;o.</p><p>&#8212; T&#244; com febre &#8212; ela disse, se jogando na cama. O movimento fez o colch&#227;o ranger. &#8212; Ontem exagerei. O cara ainda era brocha.</p><p>A confiss&#227;o casual me atingiu como um soco. Eu n&#227;o consegui olhar para ela. Fixei o olhar em um poster de Joy Division na parede.</p><p>&#8212; O que foi?</p><p>&#8212; Nada.</p><p>&#8212; Vai ficar de cu doce agora?</p><p>Cu doce. Enquanto ela tinha passado a noite dando para outro. A raiva subiu quente, mas engoli de volta. Sempre engolia de volta.</p><p>N&#227;o respondi. Fui at&#233; a cozinha imunda &#8212; pratos acumulados, moscas voando sobre restos de comida. Achei uma chaleira encardida, fervi &#225;gua. Procurei ch&#225; entre potes de tempero vencidos e restos de maconha. Camomila, deve servir.</p><p>Levei o ch&#225; para ela. Coloquei na mesa de cabeceira, ao lado das camisinhas.</p><p>&#8212; Precisa comer algo &#8212; eu disse.</p><p>&#8212; N&#227;o consigo.</p><p>&#8212; Trouxe Doritos.</p><p>Ela riu fraco.</p><p>&#8212; Doritos? S&#233;rio?</p><p>Fui at&#233; a farm&#225;cia da esquina. O sol do meio-dia me cegou. Suor imediato. Comprei dipirona, esomeprazol e soro. A atendente era uma senhora que me olhou com aquele olhar de quem j&#225; viu de tudo. Paguei no cart&#227;o, rezando para passar. Passou.</p><p>Quando voltei, ela estava dormindo. Ou fingindo. Deixei os rem&#233;dios na mesa e sentei na cadeira do canto. Uma cadeira de escrit&#243;rio quebrada que n&#227;o parava em nenhuma posi&#231;&#227;o. Fiquei ali olhando ela dormir.</p><p>Ela respirava pela boca, um ronco baixo. A barriga subia e descia. Em algum momento da noite, o brocha tinha estado ali, tocando aquele corpo. Ou talvez ela s&#243; tivesse ficado ali, esperando acabar.</p><p>Ela acordou suando mais ainda.</p><p>&#8212; Que horas s&#227;o?</p><p>&#8212; Tr&#234;s da tarde.</p><p>&#8212; Caralho. &#8212; Tentou se sentar, desistiu. &#8212; Passa o rem&#233;dio?</p><p>Dei a dipirona com um copo d&#8217;&#225;gua. Ela tomou fazendo careta. Um fio de &#225;gua escorreu pelo canto da boca, desceu pelo pesco&#231;o. Segui o caminho com os olhos at&#233; ele desaparecer entre os seios.</p><p>&#8212; Para de me olhar assim.</p><p>&#8212; Assim como?</p><p>&#8212; Sei l&#225;. Como se eu fosse morrer. Ou como se voc&#234; quisesse me matar. N&#227;o sei qual dos dois.</p><p>Os dois, pensei, ou mais ainda. Mas n&#227;o disse nada.</p><p>Ela fechou os olhos de novo. Pedia &#225;gua. Eu buscava. Pedia para eu ligar o ventilador. Eu ligava. Me sentia um enfermeiro. Ou um cachorro. Provavelmente cachorro.</p><p>Por volta das cinco, ela pareceu melhorar. Sentou na cama, acendeu um cigarro.</p><p>&#8212; Voc&#234; n&#227;o devia fumar doente &#8212; eu disse.</p><p>&#8212; Voc&#234; n&#227;o devia cuidar de mina escrota &#8212; ela respondeu.</p><p>Ficamos em sil&#234;ncio. Ela fumando, eu olhando. O sol da tarde entrava pela janela suja, iluminando as part&#237;culas de poeira no ar. Parecia uma cena bonita se voc&#234; n&#227;o soubesse o contexto.</p><p>&#8212; O que voc&#234; fez depois que sa&#237;? &#8212; perguntei finalmente. N&#227;o aguentava mais n&#227;o saber.</p><p>&#8212; Nada demais. Fiquei no bar com o pessoal. Aquele cara foi embora logo depois, nem lembro o nome dele.</p><p>O al&#237;vio durou dois segundos.</p><p>&#8212; E depois?</p><p>&#8212; A&#237; o C&#233;lio apareceu, umas duas da manh&#227;. Ficamos conversando at&#233; tarde.</p><p>O C&#233;lio. Claro. Sempre o C&#233;lio.</p><p>&#8212; Conversando?</p><p>&#8212; &#201;, conversando. Por que a cara de espanto?</p><p>&#8212; Voc&#234;s vieram pra c&#225;?</p><p>&#8212; Viemos. Ele queria continuar a conversa, eu tava b&#234;bada demais pra ficar no bar. &#8212; Ela apagou o cigarro no cinzeiro improvisado, uma lata de cerveja. &#8212; Ficamos na sala, falando sobre m&#250;sica, literatura. Ele me mostrou uns poemas que escreveu.</p><p>&#8212; Poemas. &#8212; Minha voz saiu mais sarc&#225;stica do que pretendia.</p><p>&#8212; &#201;. Poemas. Nem todo mundo s&#243; pensa em transar, sabia?</p><p>Olhei para ela. A camisinha no lixo gritava o contr&#225;rio. Mas talvez n&#227;o fosse do C&#233;lio. Talvez fosse s&#243; do brocha mesmo. Como se isso fizesse diferen&#231;a.</p><p>&#8212; E o cara do bar? O que voc&#234; beijou?</p><p>&#8212; O que tem ele? &#8212; Ela deu de ombros. &#8212; Um idiota qualquer. Na verdade ele veio pra c&#225;. Achei que ia ser divertido, mas o cara era um desastre. Brocha, ainda por cima. Mandei ele embora antes do C&#233;lio chegar.</p><p>E eu ali, cuidando dela no dia seguinte.</p><p>&#8212; Voc&#234; t&#225; com ci&#250;mes do C&#233;lio? S&#233;rio?</p><p>&#8212; N&#227;o t&#244; com ci&#250;mes de ningu&#233;m.</p><p>&#8212; T&#225; sim. T&#225; na cara. &#8212; Ela se sentou melhor na cama, puxou os joelhos contra o peito. A saia subiu, mostrando a calcinha manchada. &#8212; O engra&#231;ado &#233; que voc&#234; devia ter ci&#250;mes do cara de ontem, n&#227;o do C&#233;lio. Com o C&#233;lio nunca aconteceu nada. Ele s&#243;... conversou comigo. Sobre voc&#234;, inclusive.</p><p>&#8212; Sobre mim?</p><p>&#8212; &#201;. Disse que achou meio babaca voc&#234; sair daquele jeito ontem. Que eu merecia coisa melhor.</p><p>O sangue subiu. Cuidando dela enquanto ela defendia o cara dos poemas. O cara que era melhor que eu em tudo.</p><p>&#8212; Ele n&#227;o te fodeu porque n&#227;o quis &#8212; eu disse antes de conseguir me controlar.</p><p>Ela me encarou. Um sorriso torto apareceu.</p><p>&#8212; Exato. Ele n&#227;o quis. Essa &#233; a diferen&#231;a entre voc&#234;s dois.</p><p>Me levantei. As pernas bambas de ficar sentado naquela cadeira merda.</p><p>&#8212; Aonde voc&#234; vai?</p><p>&#8212; Embora.</p><p>&#8212; N&#227;o vai n&#227;o. Senta aqui.</p><p>&#8212; Tenho coisas pra fazer.</p><p>&#8212; Que coisas? Ir pra casa bater punheta pensando em mim?</p><p>Congelei. Ela tinha acertado, claro.</p><p>&#8212; Senta.</p><p>N&#227;o sentei. Fiquei ali parado no meio do quarto, entre a cama e a porta. N&#227;o conseguia nem ir embora direito.</p><p>Ela se levantou, cambaleante. Veio at&#233; mim. O cheiro azedo de suor e perfume velho. Se aproximou, colocou a m&#227;o no meu rosto. Meu corpo inteiro tremeu. Por um momento eu achei que ela ia me beijar, mas s&#243; ficou ali, me olhando e eu derretendo.</p><p>&#8212; Por que voc&#234; faz isso? &#8212; perguntei.</p><p>&#8212; Fazer o qu&#234;?</p><p>&#8212; Isso. Tudo isso.</p><p>Ela deu de ombros. A m&#227;o ainda no meu rosto.</p><p>&#8212; Por que voc&#234; se importa?</p><p>Eu queria ter falado que era porque a amava, que era como se a tivesse conhecido a vida toda e que &#233;ramos almas g&#234;meas. Que o jeito dela amarrar o cadar&#231;o significava algo. Que &#8220;Pictures of You&#8221; tocando enquanto ela beijava outro tinha me destru&#237;do de um jeito que eu n&#227;o sabia explicar. Mas tudo que consegui falar foi:</p><p>&#8212; Porque somos amigos.</p><p>Ela riu. Tirou a m&#227;o do meu rosto.</p><p>&#8212; Voc&#234; me conheceu ontem. N&#227;o faz ideia de quem eu sou.</p><p>&#8212; Eu sei que voc&#234; &#233; especial.</p><p>&#8212; Especial. &#8212; Ela repetiu a palavra como se fosse em outro idioma. &#8212; Sabe o que &#233; especial? O C&#233;lio escreveu um poema sobre a maneira como a luz da lua reflete nas po&#231;as de &#225;gua da Rua Augusta. Isso &#233; especial. Voc&#234; trouxe Doritos.</p><p>Ficamos sentados na cama. Ela ligou a televis&#227;o &#8212; uma TV de tubo, antiga, com a imagem meio esverdeada. Colocou um filme do Woody Allen. Manhattan. Preto e branco. Ela disse que adorava.</p><p>&#8212; A fotografia &#233; linda &#8212; ela comentou. &#8212; Meu pai escolheu meu nome por conta da Mia Farrow, j&#225; come&#231;ou tudo errado.</p><p>Eu odiava Woody Allen. Mas fingi interesse. Ela se acomodou com a cabe&#231;a no meu ombro. Podia sentir o calor febril do corpo dela.</p><p>Ela dormiu no meio do filme. Respira&#231;&#227;o pesada no meu pesco&#231;o. Fiquei im&#243;vel por uma hora, o bra&#231;o formigando, a bexiga explodindo. Mas n&#227;o me mexi. Era o mais pr&#243;ximo que tinha chegado dela.</p><p>Quando acordou, j&#225; era noite.</p><p>&#8212; Caralho, dormi muito.</p><p>&#8212; Voc&#234; precisava.</p><p>&#8212; Voc&#234; ficou aqui o tempo todo?</p><p>&#8212; Fiquei.</p><p>Ela me olhou estranha. Quase com pena.</p><p>&#8212; Voc&#234; &#233; muito carente, n&#233;? Que coisa estranha.</p><p>N&#227;o respondi. Era &#243;bvio demais para negar.</p><p>&#8212; Preciso tomar um banho. T&#244; fedendo.</p><p>Ela se levantou, tirou a camiseta e a saia na minha frente. Suti&#227; preto, b&#225;sico, a calcinha preta. N&#227;o era um strip-tease. Para ela eu era inofensivo. Era s&#243; uma mina tirando a roupa suja. Mas meu cora&#231;&#227;o acelerou mesmo assim.</p><p>&#8212; N&#227;o fica me olhando assim.</p><p>Virei o rosto. Se n&#227;o virasse, morreria.</p><div><hr></div><p>Sa&#237; quando ela estava no banho. N&#227;o aguentava mais. Deixei um bilhete idiota &#8212; &#8220;Melhoras, qualquer coisa me chama&#8221;. Como se ela fosse chamar.</p><p>No caminho de casa, parei numa loja de conveni&#234;ncia. Comprei uma garrafa da vodka daquelas que vem em garrafa de pl&#225;stico &#8212; a mais barata.</p><p>Em casa, o sil&#234;ncio do apartamento kitnet me abra&#231;ou. 32 metros quadrados de derrota. A cama de solteiro encostada na parede. A mesa com o notebook velho. A pia cheia de lou&#231;a. Lar doce lar.</p><p>Abri a vodka. Tomei direto do gargalo vendo o reflexo da cidade pela janela.</p><p>Abri o WhatsApp. A &#250;ltima visualiza&#231;&#227;o dela: online h&#225; 3 minutos. Estava acordada. Provavelmente conversando com outros. Com o C&#233;lio talvez. Trocando poemas sobre po&#231;as d&#8217;&#225;gua.</p><p>Abri o xvideos. &#8220;Gostosa de cabelo rosa&#8221;. &#8220;Alternativa tatuada&#8221;. &#8220;Magrinha p&#225;lida&#8221;. Nada chegava perto. Fechei. Abri o Facebook dela. Fotos antigas &#8212; ela mais nova, cabelo castanho ainda. Sorrisos genu&#237;nos.</p><p>Uma foto chamou aten&#231;&#227;o. Ela com um cara. Alto, magro, &#243;culos. Barba rala. Abra&#231;ados num bar. A legenda: &#8220;Meu poeta favorito &lt;3&#8221;. Postado h&#225; dois anos.</p><p>C&#233;lio.</p><p>Claro que era ele. Olhei cada detalhe da foto. A m&#227;o dele na cintura dela. O jeito que ela olhava pra ele. O sorriso. Diferente de todos os outros sorrisos. Aumentei o zoom. A m&#227;o dele. Unha pintada de preto. Anel de prata no mindinho. Pulseira de couro. Tudo que eu n&#227;o era. Tudo que eu nunca seria.</p><p>Bebi mais vodka. Voltei pro in&#237;cio do perfil dela. 2015, 2016, 2017. A evolu&#231;&#227;o de Alice. O cabelo mudando de cor. As roupas ficando mais escuras. Os sorrisos diminuindo.</p><p>&#8220;Acordo todo dia desapontada por ter acordado.&#8221;</p><p>Cita&#231;&#245;es de fil&#243;sofos que eu n&#227;o conhecia. Bandas que eu nunca tinha ouvido. Toda uma vida de refer&#234;ncias que me exclu&#237;am.</p><p>Meia-noite. A garrafa pela metade. Eu sentia que ia chorar se n&#227;o fizesse algo. Abri o Tinder.</p><p>Swipe. Swipe. Swipe.</p><p>Rostos se dissolviam uns nos outros. Loiras. Morenas. Ruivas. Sorrindo em Machu Picchu. Abra&#231;adas com cachorros. Segurando ta&#231;as de vinho. Um ex&#233;rcito infinito de pessoas procurando algu&#233;m.</p><p>Match.</p><p>Fernanda. N&#227;o abri.</p><p>Swipe. Swipe. Swipe.</p><p>A bateria do celular em 50%. 30%. O polegar j&#225; do&#237;a de tanto arrastar. Comecei a dar like em todo mundo. Nem olhava mais as fotos. S&#243; o movimento repetitivo. Mec&#226;nico. Como uma m&#225;quina de cassino que nunca paga.</p><p>Match.</p><p>10% de bateria.</p><p>Parei. Olhei a hora. 2:47 da manh&#227;. Quase tr&#234;s horas nisso. Meu olho ardendo. O pesco&#231;o duro.</p><p>Abri os matches acumulados. Dezenas. Rostos que eu n&#227;o lembrava de ter visto. Bios que eu n&#227;o tinha lido.</p><p>E ent&#227;o, no meio do monte: cabelo roxo. Piercing no septo.</p><p>J&#250;lia.</p><p>Era ela. A J&#250;lia do bar. A que &#8220;morderia se pedisse com carinho&#8221;.</p><p>Pela primeira vez em horas sa&#237; da in&#233;rcia.</p><p>&#8220;Oi, vc n&#227;o &#233; amiga da Alice?&#8221;</p><p>&#8220;Olha s&#243;, o coitado&#8221;</p><p>&#8220;Como assim?&#8221;</p><p>&#8220;Nada n&#227;o. &#201; o apelido da v&#237;tima da vez. Ela j&#225; te machucou o suficiente n&#233;&#8221;</p><p>&#8220;Sobre o que vc t&#225; falando?&#8221;</p><p>&#8220;Deixa pra l&#225;. Conhe&#231;o de longa data, desde a facul, quando ela era das feministas radicais e at&#233; eu ca&#237; nessa armadilha. O q t&#225; fazendo acordado essa hora?&#8221;</p><p>&#8220;Digo o mesmo.&#8221;</p><p>&#8220;Hmmm... ins&#244;nia. Minha carona me deixou em casa e o &#225;lcool zoou meu sono.&#8221;</p><p>&#8220;Sinceramente n sei o q t&#244; fazendo aqui.&#8221;</p><p>&#8220;Algu&#233;m sabe? Kkkkk&#8221;</p><p>&#8220;Enfim, preciso dormir, te vejo amanh&#227; no ferro velho? Se eu me lembrar podemos brincar de date kkkk&#8221;</p><p>Olhei a conversa. A vodka tornando tudo nebuloso. Ela era bonita. Dispon&#237;vel. N&#227;o era a Alice.</p><p>&#8220;Claro, at&#233; l&#225;&#8221;</p><p>&#8220;Ok&#8221;</p><p>&#8220;Mas olha, n&#227;o se apaixona por mim tb n&#227;o viu kkkk&#8221;</p><p>&#8220;Por que todo mundo se apaixona pela Alice?&#8221;</p><p>&#8220;Pq ela &#233; a curva de rio onde tudo que n&#227;o presta fica preso&#8221;</p><p>&#8220;J&#225; ouvi isso antes&#8221;</p><p>&#8220;Q eu saiba foi eu que inventei isso &#174; kkk boa noite&#8221;</p><p>Fechei o app. A sala girando levemente. Me arrastei at&#233; a cama. Uniforme de trabalho jogado na cadeira. Amanh&#227; era segunda. Balc&#227;o. Sorrisos for&#231;ados. Clientes. Vida normal.</p><p>Peguei o celular de novo. Instagram da Alice. Stories: ela numa festa. Rindo. Saud&#225;vel. Como se hoje de manh&#227; n&#227;o estivesse morrendo. Como se eu n&#227;o tivesse cuidado dela o dia todo.</p><p>No fundo do story, desfocado mas reconhec&#237;vel: C&#233;lio.</p><p>Joguei o celular longe. Fechei os olhos. Amanh&#227; seria outro dia. Outra chance de n&#227;o ser pat&#233;tico.</p><p>Spoiler: seria.</p><div><hr></div><p>O despertador tocou &#224;s 7h. Dor de cabe&#231;a instant&#226;nea. Banho frio. Caf&#233; preto. Cigarro.</p><p>A loja ficava em um mini shopping. Vend&#237;amos roupas &#8220;descoladas&#8221; para adolescentes. All Star customizados, camisetas de bandas da &#233;poca dos nossos pais que voltaram a ser moda. A revolta oficial contra o sistema.</p><p>&#8212; Bom dia, Lucas! &#8212; Minha gerente, Sandra. 45 anos fingindo ter 30. O Botox paralisou o rosto e a alma.</p><p>&#8212; Bom dia.</p><p>&#8212; Anima essa cara! Cliente gosta de vendedor feliz!</p><p>Sorri. Doeu fisicamente.</p><p>O dia se arrastou. Cada minuto uma eternidade de roupas dobradas e sorrisos falsos.</p><p>&#8212; Posso ajudar? &#8212; perguntei no autom&#225;tico.</p><p>Cabelo rosa.</p><p>Meu cora&#231;&#227;o disparou. A mesma altura. O mesmo jeito de andar. Me aproximei r&#225;pido demais, ansioso demais.</p><p>&#8212; Esse modelo tem em preto? &#8212; A voz era diferente. Claro que era. Alice nunca iria em um lugar como esse.</p><p>&#8212; Tem sim &#8212; minha voz saiu estranha, desapontada. &#8212; Ali no fundo, terceira prateleira.</p><p>&#8212; Voc&#234; t&#225; bem? &#8212; a cliente perguntou, me estudando.</p><p>&#8212; &#211;timo. O provador &#233; ali.</p><p>Ela se afastou desconfiada. Mais uma venda perdida. Sandra me fuzilou com os olhos do outro lado da loja.</p><p>Tentei me concentrar. Dobrar camisetas. Organizar numera&#231;&#227;o. Mas toda vez que a porta abria, eu olhava. Toda notifica&#231;&#227;o no celular me fazia conferir. Toda risada feminina me fazia procurar.</p><p>Rob&#244; de carne com defeito de f&#225;brica.</p><p>No almo&#231;o, comi um sandu&#237;che no pr&#243;prio shopping. Frango teriyaki. Mastigando sem gosto, olhando o movimento.</p><p>Celular vibrou. Alice.</p><p>&#8220;Oi&#8221;</p><p>&#8220;Melhorei&#8221;</p><p>&#8220;Obg por ontem&#8221;</p><p>Tr&#234;s mensagens. Mais do que esperava.</p><p>&#8220;Que bom&#8221;</p><p>&#8220;Precisando tamo a&#237;&#8221;</p><p>&#8220;Tamo a&#237;&#8221;? Eu n&#227;o falava assim.</p><p>&#8220;Vc &#233; um fofo&#8221;</p><p>Fofo. A friendzone tem muitos nomes.</p><p>&#8220;Vou pro ferro velho hj de noite, cola?&#8221;</p><p>Me lembrei da J&#250;lia. Ferro Velho. Mesma noite.</p><p>&#8220;Acho que n&#227;o. J&#225; tenho compromisso.&#8221;</p><p>Mentira. Mas necess&#225;ria.</p><p>&#8220;Sua perda&#8221;</p><p>&#8220;C&#233;lio vai tocar umas m&#250;sicas&#8221;</p><p>Claro. C&#233;lio tocava tamb&#233;m. Poeta, m&#250;sico, curva de rio.</p><p>N&#227;o respondi. Voltei ao trabalho. &#8220;Esse tem em P?&#8221; &#8220;Aceita cart&#227;o?&#8221; &#8220;Pode fazer um desconto?&#8221;</p><div><hr></div><p>&#192;s 18h eu estava em casa. Banho r&#225;pido, a mesma roupa preta de sempre. &#192;s 19h45 eu estava no Ferro Velho.</p><p>Est&#250;pido? Sim. Mas a vodka da noite anterior ainda circulava nas minhas decis&#245;es.</p><p>J&#250;lia estava no bar, cabelo roxo brilhando sob a luz fraca. Roupa toda preta, maquiagem pesada. Linda e perigosa.</p><p>&#8212; Achei que voc&#234; n&#227;o vinha &#8212; ela disse quando me aproximei.</p><p>&#8212; Por qu&#234;? Por causa dela?</p><p>&#8212; &#201;, mas a curva do rio sempre vence &#8212; disse rindo.</p><p>Ela pediu duas cervejas. Paguei a minha. Ela n&#227;o me deixou pagar a dela. Sentamos numa mesa de canto, longe do palco improvisado onde C&#233;lio afinava um viol&#227;o.</p><p>&#8212; Ent&#227;o &#8212; ela come&#231;ou. &#8212; Voc&#234; quer falar sobre a Alice ou quer fingir que isso aqui &#233; um date normal?</p><p>&#8212; Prefiro fingir.</p><p>&#8212; Ok. Fingindo ent&#227;o: oi, sou a J&#250;lia. Fa&#231;o design. Gosto de gatos e odeio gente.</p><p>&#8212; Lucas. Vendo roupa. Gosto de... nada. Odeio tudo.</p><p>Ela riu. Riso genu&#237;no.</p><p>&#8212; Perfeito. J&#225; temos algo em comum.</p><p>Bebemos. Conversamos sobre nada. Filmes que odi&#225;vamos. Bandas overrated. A gentrifica&#231;&#227;o do centro. Conversa de gente alternativa padr&#227;o. Mas era f&#225;cil. Sem peso. Minha curiosidade venceu.</p><p>&#8212; E ele?</p><p>&#8212; Ele quem? Ah, o C&#233;lio?</p><p>&#8212; &#201;...</p><p>&#8212; N&#227;o tem muito al&#233;m do que t&#225; vendo. Ele &#233; um poser... finge de poeta, mas no fim &#233; s&#243; um cheirador infantil, mas engana muita gente. Incluindo a Alice.</p><p>&#8212; Mas ele parece que foi o &#250;nico que n&#227;o caiu na dela.</p><p>&#8212; &#201;, todo mundo se apaixona por ela. Eu ca&#237; nessa. Sabe qual foi meu erro? O mesmo de todo mundo &#8212; J&#250;lia disse, enchendo os copos de novo. &#8212; Achei que, se eu fosse diferente, ela ia me notar.</p><p>&#8212; E n&#227;o notou?</p><p>&#8212; Notou. Transamos umas vezes. &#8212; Ela riu, mas n&#227;o tinha alegria. &#8212; Na terceira vez, ela chorou depois. Disse que Joy Division lembrava de como o pai tinha morrido e que transar comigo a fazia lembrar dele.</p><p>Fiquei em sil&#234;ncio. N&#227;o sabia o que dizer.</p><p>&#8212; Ela te contou do pai?</p><p>&#8212; Disse que ele morreu. Que era obcecado por Paul Auster.</p><p>&#8212; Werner. O nome dele era Werner. Professor de literatura na USP. Alice tinha 15 quando aconteceu. &#8212; J&#250;lia bebeu. &#8212; Ela encontrou o corpo, o cara quis brincar de Ian Curtis.</p><p>&#8212; Caralho.</p><p>&#8212; &#201;. Talvez por isso ela fica atr&#225;s desses tipos sofridos.</p><p>&#8212; E voc&#234;?</p><p>&#8212; Eu? Eu desisti. Me toquei que tava longe de ser t&#227;o quebrada quanto ela queria e n&#227;o tava a fim de entrar nessa espiral. &#8212; Me olhou. &#8212; Mas voc&#234; ainda n&#227;o chegou l&#225;, espero.</p><p>Ent&#227;o Alice entrou.</p><p>Cabelo com a cor rosa restaurada e rec&#233;m-lavado. Vestido preto. Maquiagem perfeita. N&#227;o parecia quem estava morrendo ontem. Nossos olhos se encontraram por um segundo. Ela desviou. Foi direto para o palco, cumprimentar C&#233;lio.</p><p>&#8212; Voc&#234; t&#225; bem? &#8212; J&#250;lia perguntou.</p><p>&#8212; &#211;timo.</p><p>&#8212; Mentiroso.</p><p>Mais tarde, ouvi uma confus&#227;o vindo do corredor do banheiro. Alice estava discutindo com outra mo&#231;a.</p><p>&#8212; N&#227;o acredito que voc&#234; arrumou p&#243; pra ele! &#8212; Alice gritou.</p><p>A garota saiu dali chacoalhando a cabe&#231;a e xingando baixo:</p><p>&#8212; Voc&#234;s dois s&#227;o doentes. &#8212; E foi pegar uma bebida no balc&#227;o.</p><p>&#8212; Se liga, Alice, sou maior de idade &#8212; C&#233;lio disse, aparecendo na porta e limpando o nariz.</p><p>&#8212; Vai se foder, depois sou eu que tenho que ficar cuidando de voc&#234;.</p><p>&#8212; Ningu&#233;m pediu! &#8212; A voz dele quebrou no final.</p><p>C&#233;lio voltou para o palco, olhou em volta, olhos vidrados. Limpou de novo o nariz com a m&#227;o e come&#231;ou a tocar. Voz baixa, melanc&#243;lica. Letras sobre solid&#227;o urbana e amor n&#227;o correspondido. Alice sentou na frente, olhando como se ele fosse Jesus Cristo.</p><p>&#8212; Sabe qual &#233; o problema dele? &#8212; J&#250;lia disse, seguindo meu olhar.</p><p>&#8212; Qual?</p><p>&#8212; Ele tem que manter essa pose de que &#233; bom demais pra ela. Ela acredita. Por isso fica nessa persegui&#231;&#227;o infinita. Se ele desse mole, ela perderia o interesse em uma semana.</p><p>&#8212; E por que ele n&#227;o d&#225;?</p><p>&#8212; Porque ele &#233; esperto. Ou gay. Ou usa drogas demais. Nunca descobri qual das alternativas.</p><p>Rimos. O primeiro momento leve da noite.</p><p>C&#233;lio terminou a m&#250;sica. Aplausos. Alice foi a primeira a levantar. Abra&#231;ou ele. Sussurrou algo no ouvido dele. Ele riu.</p><p>&#8212; Vamos sair daqui &#8212; J&#250;lia sugeriu.</p><p>&#8212; Pra onde?</p><p>&#8212; Meu apartamento fica a duas quadras.</p><p>Olhei pra ela. O convite estava claro.</p><p>&#8212; Ok.</p><div><hr></div><p>O apartamento dela era o oposto do de Alice. Organizado. Cheiro de incenso de verdade, n&#227;o disfar&#231;ando nada. Posters emoldurados. Uma pessoa adulta morava ali.</p><p>&#8212; Quer beber algo?</p><p>&#8212; Vodka?</p><p>&#8212; Tenho whisky.</p><p>&#8212; Serve.</p><p>Ela serviu dois copos. Sentamos no sof&#225;. Sil&#234;ncio constrangedor.</p><p>&#8212; Voc&#234; ainda t&#225; pensando nela &#8212; n&#227;o era pergunta.</p><p>&#8212; Desculpa.</p><p>&#8212; N&#227;o precisa.</p><p>&#8212; Por que voc&#234; me chamou ent&#227;o?</p><p>Ela deu de ombros.</p><p>&#8212; Curiosidade? T&#233;dio? Solidariedade entre rejeitados?</p><p>&#8212; Voc&#234; gosta dela.</p><p>&#8212; Gostava. Superei. Voc&#234; vai superar tamb&#233;m.</p><p>&#8212; Quando?</p><p>&#8212; Quando se enroscar em outro lugar.</p><p>Bebemos em sil&#234;ncio. Ela colocou um disco. Joy Division. Claro. Ela sentou do meu lado e encostou em mim.</p><p>&#8212; Posso te beijar? &#8212; ela perguntou de repente.</p><p>&#8212; Por qu&#234;?</p><p>&#8212; Porque sim. Porque estamos aqui. Porque n&#227;o importa.</p><p>Deixei. Ela beijava bem e nos beijamos por muito tempo. Gosto de whisky e cigarro. M&#227;os no meu cabelo. Mas eu n&#227;o senti nada. Nada al&#233;m do vazio de sempre.</p><p>Ela parou. Me olhou.</p><p>&#8212; Voc&#234; &#233; um caso perdido.</p><p>&#8212; Eu sei.</p><p>&#8212; N&#227;o vou transar com voc&#234;.</p><p>&#8212; Eu sei.</p><p>&#8212; Mas pode dormir aqui se quiser. O sof&#225; &#233; confort&#225;vel.</p><p>&#8212; Obrigado.</p><p>Ela foi pro quarto. Voltou com cobertor e travesseiro.</p><p>&#8212; Lucas?</p><p>&#8212; Oi?</p><p>&#8212; Esquece ela. S&#233;rio. Ela n&#227;o vale a pena. Eles se merecem.</p><p>&#8212; Eu sei.</p><p>Mas saber e fazer s&#227;o coisas diferentes.</p><div><hr></div><p>Acordei no escuro. O celular vibrando. 4 da manh&#227;.</p><p>Alice.</p><p>&#8220;Vc sumiu&#8221;</p><p>&#8220;Foi embora com a ju?&#8221;</p><p>&#8220;Q isso hein&#8221;</p><p>Tr&#234;s mensagens. Estava b&#234;bada.</p><p>&#8220;T&#244; na casa dela&#8221;</p><p>&#8220;Uau&#8221;</p><p>&#8220;Fast boy&#8221;</p><p>&#8220;Vcs transaram?&#8221;</p><p>Por que ela queria saber? Por que importava?</p><p>&#8220;N&#227;o&#8221;</p><p>&#8220;Pq n&#227;o? Ela &#233; gata. Perdeu a chance&#8221;</p><p>&#8220;Pq eu gosto de outra pessoa&#8221;</p><p>Digitando. Parando. Digitando de novo.</p><p>&#8220;Eu sei&#8221;</p><p>&#8220;Mas eu n&#227;o sou essa pessoa&#8221;</p><p>&#8220;Eu nunca vou ser&#8221;</p><p>&#8220;E eu s&#243; sei destruir, &#233; de fam&#237;lia&#8221;</p><p>&#8220;&#201; literalmente a &#250;nica coisa que eu fa&#231;o bem&#8221;</p><p>&#8220;Meu pai tinha raz&#227;o sobre uma coisa pelo menos&#8221;</p><p>&#8220;Algumas pessoas nascem com o toque de Midas inverso&#8221;</p><p>&#8220;Tudo que tocam vira merda&#8221;</p><div><hr></div><p>De manh&#227;, J&#250;lia me encontrou na sala e me entregou uma caneca de caf&#233; preto, sem a&#231;&#250;car. O primeiro gole desceu quente e amargo. Ficamos em sil&#234;ncio, ela observando a cidade acordar pela janela. N&#227;o perguntou nada e eu n&#227;o tinha nada para dizer.</p><p>&#8212; Tenho que trabalhar &#224;s dez &#8212; ela disse sem se virar.</p><p>&#8212; Posso te ver de novo?</p><p>Ela se virou. Os olhos cansados, mas gentis.</p><p>&#8212; Quando voc&#234; parar de pensar nela por cinco minutos seguidos, me avisa.</p><p>&#8212; E se esses cinco minutos forem agora?</p><p>Um sorriso pequeno.</p><p>&#8212; Ent&#227;o talvez.</p><p>Meu celular vibrou. Alice: &#8220;oi, tudo bem?&#8221;</p><p>Arquivei a conversa sem abrir.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# 0 - Comece por aqui: O que é a Rascunhos]]></title><description><![CDATA[Por que voltei a escrever depois de 20 anos &#8212; e decidi fazer isso em p&#250;blico.]]></description><link>https://www.wastelandia.com.br/p/0-comece-por-aqui-o-que-e-a-desmarcando</link><guid isPermaLink="false">https://www.wastelandia.com.br/p/0-comece-por-aqui-o-que-e-a-desmarcando</guid><dc:creator><![CDATA[Marco Domingues]]></dc:creator><pubDate>Mon, 16 Jun 2025 15:32:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dzfp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8fb32ea-d08d-4eab-ac94-d27b35000311_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dzfp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8fb32ea-d08d-4eab-ac94-d27b35000311_1024x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dzfp!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8fb32ea-d08d-4eab-ac94-d27b35000311_1024x1024.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dzfp!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8fb32ea-d08d-4eab-ac94-d27b35000311_1024x1024.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dzfp!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8fb32ea-d08d-4eab-ac94-d27b35000311_1024x1024.png 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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Eu pretendia nadar at&#233; afundar &#8212;  mas isso n&#227;o &#233; a mesma coisa.<br><em>Joseph Conrad</em></p></div><p>N&#227;o &#233; exagero dizer que as hist&#243;rias contadas pela literatura e pelo cinema formaram quem sou. Se n&#227;o fosse pelos filmes que vi na inf&#226;ncia e pelos universos que eles me apresentaram, meu mundo seria muito mais limitado. A fic&#231;&#227;o nos leva a sonhar com realidades poss&#237;veis e imposs&#237;veis &#8212; e foi esse poder de imagina&#231;&#227;o que me levou a estudar Letras na Unicamp e a escrever com intensidade at&#233; os meus vinte e poucos anos.</p><p>Depois da formatura, a vida adulta redesenhou o mapa: romances e poesias deram lugar a manuais t&#233;cnicos; as horas de escrita foram preenchidas pelo trabalho, pela carreira e pela fam&#237;lia. Quase sem notar, aquela parte essencial de mim adormeceu por duas d&#233;cadas &#8212; at&#233; o dia em que, numa tarde na biblioteca p&#250;blica de S&#227;o Paulo, acompanhando minha filha fazer sua primeira carteirinha, eu vi renascer em mim a mesma paix&#227;o que pensei ter perdido.</p><p>Assim nasceu <strong>Rascunhos</strong>, direto da Wastelandia: um espa&#231;o de exerc&#237;cios de escrita &#8212; especialmente contos &#8212; compartilhados assim que est&#227;o prontos, sem etapas extras ou an&#225;lises separadas. Aqui, o compromisso &#233; com a fic&#231;&#227;o: rascunhos imperfeitos, completos em sua ess&#234;ncia, publicados no m&#225;ximo a cada 15 dias (ou antes, se o texto estiver pronto).</p><div><hr></div><h3>Como funciona nosso ateli&#234;</h3><ul><li><p><strong>Periodicidade:</strong> at&#233; 15 dias, ou antes, conforme cada conto ficar pronto</p></li><li><p><strong>O Rascunho:</strong> voc&#234; recebe diretamente no seu e-mail um conto in&#233;dito &#8212; completo, imperfeito e em processo</p></li></ul><h3>Laborat&#243;rio em tempo real:</h3><p>No <strong>Chat e nas Notas</strong>, a conversa continua. &#201; onde as pr&#243;ximas hist&#243;rias germinam e onde discutimos escrita de forma mais solta &#8212; aquela troca honesta que tanto faz falta.</p><p>No fim, este espa&#231;o &#233; minha aposta de que o processo pode ser t&#227;o fascinante quanto o resultado. E se essa jornada de rascunhos p&#250;blicos puder inspirar ou simplesmente fazer companhia a outras pessoas que amam essa arte, a partilha ter&#225; encontrado seu prop&#243;sito.</p><p>Fico feliz em ter sua companhia enquanto redescubro o tra&#231;o.<br></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.wastelandia.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Rascunhos por Marco Domingues! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>